{"id":413,"date":"2015-03-25T02:50:43","date_gmt":"2015-03-25T02:50:43","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=413"},"modified":"2015-03-24T03:39:34","modified_gmt":"2015-03-24T03:39:34","slug":"filmes-religiosos-feitos-por-ateus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=413","title":{"rendered":"Filmes religiosos feitos por ateus"},"content":{"rendered":"<p>Na ocasi\u00e3o da comemora\u00e7\u00e3o dos 100 anos do cinema em 1995, o Vaticano compilou uma lista de grandes filmes, apresentada aqui. As 45 pel\u00edculas foram divididas em tr\u00eas categorias: &#8220;Religi\u00e3o&#8221;, apenas com filmes sobre a f\u00e9 Crist\u00e3; &#8220;Valores&#8221;, com hist\u00f3rias de fundo moral, como O s\u00e9timo selo, de Ingmar Bergman, e Adeus, Meninos, de Louis Malle; e &#8220;Arte&#8221;, com filmes que contribu\u00edram com a arte cinematogr\u00e1fica, como\u00a0Cidad\u00e3o Kane, de Oscar Welles, e A grande ilus\u00e3o, de Jean Renoir.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Uma coisa que chama a aten\u00e7\u00e3o na lista do Vaticano \u00e9 a excel\u00eancia art\u00edstica das obras escolhidas. Outra, de algum modo ligada com a anterior, \u00e9 a aus\u00eancia de obras grandiloq\u00fcentes e de grande sucesso comercial, como Os dez mandamentos, de Cecil B. DeMille e Rei dos reis, de Nicholas Ray. Mas o mais interessante mesmo \u00e9 a escolha de alguns dos quinze filmes da lista &#8220;Religi\u00e3o&#8221; como, por exemplo, uma fita bastante obscura &#8211; La Passion de Notre Seigneur Jesus-Christ, um m\u00e9dia metragem de 1905 &#8211; e as verdadeiras obras de arte cinematogr\u00e1fica, reconhecidamente dif\u00edceis, Andrei Rublev e O sacrif\u00edcio, de Andrei Tarkovski, e A paix\u00e3o de Joana D&#8217;Arc e Ordet de Carl Dreyer. De todo o modo, tanto o russo Tarkovski como o dinamarqu\u00eas Dreyer eram diretores de cinema profundamente religiosos &#8211; e a inclus\u00e3o destes filmes na lista do Vaticano, portanto, nem chega a ser assim t\u00e3o espantosa. Na verdade, as escolhas mais surpreendentes da lista &#8220;Religi\u00e3o&#8221; ficam a cargo de dois filmes de diretores declaradamente ateus, Nazar\u00edn, da fase mexicana do espanhol Luis Bu\u00f1uel, e O Evangelho Segundo S\u00e3o Mateus, do italiano Pier Paolo Pasolini.<\/p>\n<p>Nazar\u00edn conta a hist\u00f3ria do padre Nazar\u00edn (vivido por Francisco Rabal) que vive num ascetismo extremo: a porta de seu apartamento vive destrancada, por mais que ele seja seguidamente roubado; o pouco dinheiro que recebe d\u00e1 aos pobres; se alimenta gra\u00e7as ao favor alheio. Ap\u00f3s uma briga de vizinhas prostitutas sua vida toma um rumo infeliz: o padre abriga em sua moradia uma delas, fugitiva, e logo o esc\u00e2ndalo e o falat\u00f3rio come\u00e7am a tomar corpo: a mulher resolve fugir do apartamento do padre e p\u00f5e fogo nas suas pr\u00f3prias roupas &#8220;para que o cheiro de seu perfume n\u00e3o impregne a casa dele, e ele n\u00e3o seja incriminado&#8221;. Tudo d\u00e1 errado e o apartamento todo pega fogo. Agora, al\u00e9m do esc\u00e2ndalo de ter abrigado uma prostituta em seu apartamento o padre Nazar\u00edn passa a ser acusado pelo inc\u00eandio &#8211; sendo ent\u00e3o aconselhado pelo seu superior a fugir.<\/p>\n<p>Sua fuga \u00e9 uma longa sucess\u00e3o de eventos infelizes. Inicialmente o padre passa a ser acompanhado, contra a sua vontade, pela prostituta para quem ele tinha dado abrigo e mais uma outra vizinha &#8211; ambas as mulheres que acreditam que ele seja santo. Novamente a companhia femina lhe causa problemas e uma s\u00f3rdida intriga de um homem, que tinha sido amante de uma das suas duas seguidoras, acaba fazendo Nazar\u00edn acabar na cadeia &#8211; onde \u00e9 espancado por dois ladr\u00f5es e depois protegido por outro. Neste ponto, abandonado pela Igreja e pelos homens, o padre j\u00e1 n\u00e3o tem mais certeza de sua f\u00e9. No final do filme, entretanto, andando obrigado de uma cadeia para outra, ele recebe um abacaxi como uma forma de consolo por suas dores &#8211; e parece aliviado com isso.<br \/>\nO Evangelho Segundo S\u00e3o Mateus \u00e9 um filme da tradi\u00e7\u00e3o neo-realista italiana: os atores s\u00e3o n\u00e3o-profissionais (\u00e9 comum aparecerem pessoas completamente sem naturalidade diante das c\u00e2meras), a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 pobre e a &#8220;Galil\u00e9ia&#8221; filmada por Pasolini \u00e9, na verdade, o sul da It\u00e1lia. O grande diretor italiano tomou uma decis\u00e3o radical para filmar seu Evangelho Segundo S\u00e3o Mateus: todos os di\u00e1logos do filme foram retirados do pr\u00f3prio Evangelho, o que faz com que muitas cenas fiquem &#8220;estranhas&#8221;, com os personagens se olhando em sil\u00eancio durante um tempo excessivo, j\u00e1 que em muitas cenas narradas por S\u00e3o Mateus os di\u00e1logos s\u00e3o diminutos.<\/p>\n<p>O ator principal do filme, o espanhol Enrique Irazoque, est\u00e1 extraordin\u00e1rio. Seu Jesus Cristo \u00e9 indignado quando faz seus discursos, mas calmo e seguro quando com seus disc\u00edpulos. As tomadas destes discursos, ali\u00e1s, s\u00e3o criativas e variadas &#8211; frequentemente \u00e9 filmado o p\u00fablico e n\u00e3o o Salvador, num efeito maravilhoso.<\/p>\n<p>Nazar\u00edn \u00e9 amb\u00edguo: tanto pode ser visto como uma cr\u00edtica \u00e0 passividade da verdadeira Religi\u00e3o, como uma maneira de exalt\u00e1-la pelo exemplo do ascetismo e do amor incondicional ao pr\u00f3ximo. Por outro lado, poucas d\u00favidas existem de que este seja um filme c\u00e9tico quanto ao car\u00e1ter da maioria das pessoas e do poder organizado da Igreja &#8211; muito mais preocupada aqui em preservar sua imagem do que em proteger o homem justo. Outro aspecto do filme s\u00e3o sutis compara\u00e7\u00f5es entre o padre Nazar\u00edn e o pr\u00f3prio Cristo: por exemplo, uma das mulheres que o acompanhava continua o defendendo at\u00e9 o final, enquanto outra o abandona &#8211; num paralelo poss\u00edvel com os dois ladr\u00f5es que s\u00e3o crucificados com o Filho de Deus; Nazar\u00edn termina o filme com um curativo na cabe\u00e7a (um paralelo com a coroa de espinhos?); Jesus recebe um abacaxi no final do filme, num paralelo, talvez, com o vinagre recebido na cruz; e mesmo as d\u00favidas de f\u00e9 de Nazar\u00edn podem ser comparadas com o &#8220;Pai, por que me abandonaste?&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 O Evangelho Segundo S\u00e3o Mateus (agora meu filme preferido) parece um verdadeiro milagre: \u00e9 praticamente inacredit\u00e1vel como um filme dirigido por um ateu seja t\u00e3o intensamente profundo em sua Espiritualidade. N\u00e3o fica a menor d\u00favida, para o crente, de que este \u00e9 um filme tocado pelo dedo de Deus.<\/p>\n<p><i>(texto escrito em meados de 2004)<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ocasi\u00e3o da comemora\u00e7\u00e3o dos 100 anos do cinema em 1995, o Vaticano compilou uma lista de grandes filmes, apresentada aqui. 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