{"id":3818,"date":"2018-08-26T18:25:12","date_gmt":"2018-08-26T21:25:12","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3818"},"modified":"2018-08-26T18:25:12","modified_gmt":"2018-08-26T21:25:12","slug":"duas-pecas-de-moliere","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3818","title":{"rendered":"Duas pe\u00e7as de Moli\u00e8re"},"content":{"rendered":"<p>Dois jovens ricos s\u00e3o desprezados por duas primas, Magdelon e Cathos \u2013 respectivamente filha e sobrinha de Gorgibus, um rico burgu\u00eas da prov\u00edncia \u2013 porque, segundo elas, eles n\u00e3o s\u00e3o corajosos, nobres e rom\u00e2nticos o suficiente. Para se vingar delas, os jovens mandam dois de seus empregados, Mascarille e Jodelet, disfar\u00e7ados de cultos membros da nobreza, para engan\u00e1-las. Elas caem na conversa dos falsos nobres e se apaixonam por eles \u2013 at\u00e9, claro, descobrir que eles n\u00e3o s\u00e3o o que dizem ser, quando passam a desprez\u00e1-los.<\/p>\n<p>J\u00e1 Don Juan \u00e9 um conquistador que n\u00e3o consegue \u2013 ou n\u00e3o quer \u2013 manter um relacionamento longo com nenhuma das mulheres com as quais come\u00e7a um relacionamento. Como ele vai prometendo casamentos a torto e a direito, as fam\u00edlias das garotas abandonadas v\u00e3o ficando mais e mais furiosas com ele \u2013 nem mesmo seu fiel empregado, Sganarelle, tem mais paci\u00eancia com as aventuras do patr\u00e3o.<\/p>\n<p>Os resumos apresentados acima s\u00e3o referentes a duas pe\u00e7as de Jean Baptiste Poquelin, conhecido como Moli\u00e8re (1622-1673), \u201cAs preciosas rid\u00edculas\u201d e \u201cDon Juan \u2013 o convidado de pedra\u201d, que li recentemente no original.<!--more--><\/p>\n<p>Pe\u00e7a curta de sucesso incomum, a com\u00e9dia \u201cAs preciosas rid\u00edculas\u201d (1659) \u00e9 genial ao mostrar, de maneira implac\u00e1vel, o costume de viver de apar\u00eancias, tentando se mostrar melhor do que se \u00e9.<\/p>\n<p>J\u00e1 a tragicom\u00e9dia \u201cDon Juan \u2013 o convidado de pedra\u201d (1665) \u00e9 impiedosa com o famoso conquistador \u2013 e a pe\u00e7a, de modo geral, \u00e9 menos interessante que as demais do grande dramaturgo que eu j\u00e1 li. Mas um trecho sobre a hipocrisia falado pelo personagem principal \u00e9 t\u00e3o brilhante e impiedoso que vale a pena transcrev\u00ea-lo na \u00edntegra (na tradu\u00e7\u00e3o de Mill\u00f4r Fernandes):<\/p>\n<blockquote><p>\u201cDisso ningu\u00e9m mais se envergonha. Ao contr\u00e1rio, se orgulha. A hipocrisia \u00e9 um v\u00edcio. Mas est\u00e1 na moda. E todos os v\u00edcios na moda s\u00e3o virtudes. O personagem do homem de bem \u00e9 o mais f\u00e1cil de interpretar em nossos dias. Qualquer hip\u00f3crita o representa com razo\u00e1vel per\u00edcia. E fica quase imposs\u00edvel saber se estamos diante de um hip\u00f3crita no papel de um homem de bem ou se conversamos com um homem de bem que banca o hip\u00f3crita para n\u00e3o ser humilhado como homem de bem. O exerc\u00edcio da hipocrisia oferece maravilhosas possibilidades. \u00c9 uma arte da qual faz parte natural a impostura, como o blefe, em certos tipos de jogos. E mesmo quando a impostura \u00e9 transparente, ningu\u00e9m ousa conden\u00e1-la, com medo de que isso abra o caminho para a condena\u00e7\u00e3o de imposturas mais habilidosas. Todos os outros v\u00edcios dos homens est\u00e3o sujeitos a censuras. Qualquer um se sente no direito e at\u00e9 na obriga\u00e7\u00e3o de conden\u00e1-los. Mas a hipocrisia \u00e9 um v\u00edcio privilegiado, que tapa a boca de todos que o percebem e transita na corte com vaidosa impunidade. Ficou at\u00e9 elegante. Chic. Hip\u00f3critas usam as mesmas m\u00e1scaras, os mesmos ademanes e comportamentos, e formam uma sociedade fechada e autoprotetora. Ofender um significa todos te ca\u00edrem em cima. E mesmo os que, vivendo em meio a eles, agem de boa-f\u00e9 e ficam perturbados com determinadas a\u00e7\u00f5es&#8230; Estranhas, sempre acabam envolvidos. Caem ingenuamente nas trampas dos hip\u00f3critas e, sem saber, d\u00e3o cr\u00e9dito \u00e0 cambada. Voc\u00ea n\u00e3o sabe quantos hip\u00f3critas eu conhe\u00e7o que, com alguns poucos estratagemas, limparam as manchas e os crimes de sua juventude. E a\u00ed, usando o escudo e o manto da religi\u00e3o, se transformaram em cidad\u00e3os respeit\u00e1veis, isto \u00e9, os homens mais canalhas deste mundo. Por mais que se saiba de suas intrigas e futricas, que se conhe\u00e7a e divulgue aquilo que realmente s\u00e3o, nem por isso eles perdem o prest\u00edgio e a estima das pessoas. Basta que inclinem a cabe\u00e7a um pouco, humildemente, que deem um ou dois suspiros fundos e mortificados, e rolem os olhos em dire\u00e7\u00e3o ao C\u00e9u, para serem reabilitados de tudo ou de qualquer coisa. \u00c9 nesse ref\u00fagio favor\u00e1vel que eu quero me abrigar e colocar em seguran\u00e7a meus interesses. Claro, n\u00e3o abandonarei nenhum dos meus saud\u00e1veis h\u00e1bitos. Apenas, de hoje em diante, vou me ocultar um pouco, agir mais em surdina. E se algu\u00e9m me descobrir, terei, sem mover sequer um dedo, toda a cabala correndo em meu socorro, defendendo os meus, e os dela! Interesses, contra tudo e contra todos. Enfim, adotei a maneira de fazer impunemente tudo que me der na telha. Posso me erigir, de agora em diante, em censor dos atos alheios, julgando duramente a todos; reservando meus elogios apenas ao comportamento de uma pessoa, a \u00fanica que sempre achei acima de qualquer suspeita. (Pausa) Eu. Se algu\u00e9m ousar me ofender, por m\u00ednima que seja a ofensa, eu n\u00e3o o perdoarei jamais, guardar-lhe-ei um \u00f3dio irredut\u00edvel, e ostensivo, o que intimidar\u00e1 outros candidatos \u00e0 difama\u00e7\u00e3o. Serei o vingador dos interesses do C\u00e9u e, sob esse manto assustador, perseguirei meus inimigos, acusando-os de impiedade, desencadeando contra eles o zelo e a persegui\u00e7\u00e3o dos carolas que, sem conhecimento de causa, os cobrir\u00e3o de inj\u00farias, condenando-os \u00e0 execra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 assim que se usa a fraqueza, a ignor\u00e2ncia e a pusilanimidade dos homens. \u00c9 assim que um s\u00e1bio torna virtudes os v\u00edcios de seu tempo.\u201d<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois jovens ricos s\u00e3o desprezados por duas primas, Magdelon e Cathos \u2013 respectivamente filha e sobrinha de Gorgibus, um rico burgu\u00eas da prov\u00edncia \u2013 porque, segundo elas, eles n\u00e3o s\u00e3o corajosos, nobres e rom\u00e2nticos o suficiente. Para se vingar delas, os jovens mandam dois de seus empregados, Mascarille e Jodelet, disfar\u00e7ados de cultos membros da nobreza, para engan\u00e1-las. 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