{"id":3691,"date":"2018-07-01T19:05:58","date_gmt":"2018-07-01T22:05:58","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3691"},"modified":"2018-07-01T19:05:58","modified_gmt":"2018-07-01T22:05:58","slug":"confissoes-de-santo-agostinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3691","title":{"rendered":"\u201cConfiss\u00f5es\u201d, de Santo Agostinho"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Comecei a ler e parei no meio \u201cConfiss\u00f5es\u201d, de Santo Agostinho, n\u00e3o s\u00f3 uma, mas duas vezes. N\u00e3o sei se \u00e9 bem s\u00f3 por isso, mas eu me irritava a cada vez que o santo, na tradu\u00e7\u00e3o, chamava Deus de \u201cv\u00f3s\u201d. Ao contr\u00e1rio dos cat\u00f3licos, tanto protestantes quanto judeus n\u00e3o se referem a Deus utilizando a segunda pessoa do plural: eu, particularmente, acho que o \u201cv\u00f3s\u201d deixa a coisa toda muito artificial, e muito provavelmente esta n\u00e3o era a inten\u00e7\u00e3o do santo quando se referia a Deus em seu \u201cConfiss\u00f5es\u201d. (Lembro, a prop\u00f3sito, de uma tradu\u00e7\u00e3o do cl\u00e1ssico \u201cO sobrinho de Rameau\u201d, de Denis Diderot, em que o \u201cvous\u201d, franc\u00eas, era traduzido por \u201cv\u00f3s\u201d. Tendo lido o original em franc\u00eas, sei que esta diferen\u00e7a na tradu\u00e7\u00e3o muda de maneira importante o significado da obra: tudo o que era falado de maneira direta, divertida e objetiva no original tornou-se pomposo e artificial na tradu\u00e7\u00e3o.) Enfim, ao saber que seria publicada uma nova tradu\u00e7\u00e3o de \u201cConfiss\u00f5es\u201d, pela Penguin-Companhia das Letras (416 p\u00e1ginas), e que nela Deus seria chamado de \u201ctu\u201d, resolvi tentar de novo o livro \u00a0\u2013 e consegui acabar a leitura desta vez.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil mensurar a import\u00e2ncia de Santo Agostinho na cultura ocidental. Conforme <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/contardocalligaris\/2017\/09\/1922287-texto-de-santo-agostinho-criou-a-culpa-crista-frente-ao-sexo-afirma-autor.shtml\">um artigo<\/a> de Contardo Calligaris na Folha de S\u00e3o Paulo, ele basicamente \u201ccriou a culpa crist\u00e3 frente ao sexo\u201d. Considerado santo pelos cat\u00f3licos, sua filosofia foi fundamental para a cria\u00e7\u00e3o da \u201cdoutrina da gra\u00e7a\u201d, seguida pelos protestantes.<\/p>\n<p>Especificamente quanto a \u201cConfiss\u00f5es\u201d, segundo o pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o da Penguin-Companhia das Letras, escrito por Lorenzo Mamm\u00ed (tamb\u00e9m tradutor da edi\u00e7\u00e3o), o livro \u00e9 inclassific\u00e1vel. Para ele,<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTanto do ponto de vista liter\u00e1rio quanto do filos\u00f3fico, a obra n\u00e3o corresponde a nenhum padr\u00e3o conhecido. Tampouco, em que pese sua enorme influ\u00eancia, criou descendentes diretos. Seu duplo estatuto de obra-prima liter\u00e1ria e texto fundamental do pensamento filos\u00f3fico mais atrapalha que ajuda sua defini\u00e7\u00e3o. A aus\u00eancia de modelos e o excesso de chaves de leitura deixam o leitor e o tradutor perplexos.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>At\u00e9 mais ou menos a metade do livro, \u201cConfiss\u00f5es\u201d \u00e9 um livro de mem\u00f3rias, considerada inclusive a primeira autobiografia da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental; j\u00e1 a segunda metade do livro se concentra em filosofia e religi\u00e3o.<\/p>\n<p>No livro Santo Agostinho detalha sua convers\u00e3o do manique\u00edsmo (filosofia religiosa segundo a qual existem duas for\u00e7as equivalentes no Universo, uma boa e outra m\u00e1) para o catolicismo, sua dificuldade em vencer o desejo sexual (ele pedia o seguinte a Deus: \u201cconcede-me castidade e contin\u00eancia, mas n\u00e3o agora\u201d), a import\u00e2ncia da m\u00e3e &#8211; cat\u00f3lica &#8211; na sua vida, sua rela\u00e7\u00e3o com amigos como Al\u00edpio, que viria a ser bispo de Tagaste (cidade atualmente situada na Arg\u00e9lia).<\/p>\n<p>Em termos mais especificamente espirituais, duas passagens me chamaram especialmente a aten\u00e7\u00e3o: a primeira, quando o santo critica aqueles que se indignam pelo fato de Deus permitir aos justos da \u00e9poca dos patriarcas Mois\u00e9s, Abra\u00e3o, Isaac, Jac\u00f3 e Davi algo que n\u00e3o era mais permitido aos justos do seu tempo: aqui o santo indica que Deus permite que usos e costumes morais se modifiquem com o passar dos anos; a segunda, quando Santo Agostinho cita que Deus transmite no seu \u201couvido interior\u201d aspectos importantes de filosofia e teologia.<\/p>\n<p>Que bela rela\u00e7\u00e3o com Deus, hein?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Comecei a ler e parei no meio \u201cConfiss\u00f5es\u201d, de Santo Agostinho, n\u00e3o s\u00f3 uma, mas duas vezes. 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Enfim, ao saber que seria publicada uma nova tradu\u00e7\u00e3o de \u201cConfiss\u00f5es\u201d, pela Penguin-Companhia das Letras (416 p\u00e1ginas), e que nela Deus seria chamado de \u201ctu\u201d, resolvi tentar de novo o livro \u00a0\u2013 e consegui acabar a leitura desta vez. \u00c9 dif\u00edcil mensurar a import\u00e2ncia de Santo Agostinho na cultura ocidental. Conforme um artigo de Contardo Calligaris na Folha de S\u00e3o Paulo, ele basicamente \u201ccriou a culpa crist\u00e3 frente ao sexo\u201d. Considerado santo pelos cat\u00f3licos, sua filosofia foi fundamental para a cria\u00e7\u00e3o da \u201cdoutrina da gra\u00e7a\u201d, seguida pelos protestantes. Especificamente quanto a \u201cConfiss\u00f5es\u201d, segundo o pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o da Penguin-Companhia das Letras, escrito por Lorenzo Mamm\u00ed (tamb\u00e9m tradutor da edi\u00e7\u00e3o), o livro \u00e9 inclassific\u00e1vel. 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No livro Santo Agostinho detalha sua convers\u00e3o do manique\u00edsmo (filosofia religiosa segundo a qual existem duas for\u00e7as equivalentes no Universo, uma boa e outra m\u00e1) para o catolicismo, sua dificuldade em vencer o desejo sexual (ele pedia o seguinte a Deus: \u201cconcede-me castidade e contin\u00eancia, mas n\u00e3o agora\u201d), a import\u00e2ncia da m\u00e3e - cat\u00f3lica - na sua vida, sua rela\u00e7\u00e3o com amigos como Al\u00edpio, que viria a ser bispo de Tagaste (cidade atualmente situada na Arg\u00e9lia). 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