{"id":3629,"date":"2018-05-23T10:36:30","date_gmt":"2018-05-23T13:36:30","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3629"},"modified":"2018-05-23T11:36:57","modified_gmt":"2018-05-23T14:36:57","slug":"philip-roth-1933-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3629","title":{"rendered":"Philip Roth (1933-2018)"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->\u00c9 engra\u00e7ado que se eu fosse fazer minha lista de dez livros preferidos, assim de cabe\u00e7a, provavelmente n\u00e3o entraria nenhum livro de Philip Roth (1933-2018). Quem sabe algum dele entrasse numa lista de vinte melhores, mas francamente n\u00e3o tenho certeza. Acho que agora meio que entendo o porqu\u00ea disso.<\/p>\n<p>Pensando na morte deste grande escritor americano, ocorrida ontem, percebi que, para mim, os grandes livros podem me impressionar pela arte ou pela, como direi, pela \u201cexperi\u00eancia\u201d. Deixa eu ver se consigo explicar.<\/p>\n<p>Os livros que me impressionaram pela arte \u2013 e que s\u00e3o sempre os favoritos nas minhas listas de preferidos &#8211; s\u00e3o aqueles que, durante a leitura, me deixaram embasbacado pela qualidade das imagens criadas, pela genialidade em si da obra, pela surpresa da coisa. Nunca imaginaria \u2013 se n\u00e3o os tivesse lido \u2013 que existissem livros como \u201c2666\u201d, de Roberto Bola\u00f1o, \u201cCem Anos de Solid\u00e3o\u201d, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, \u201cEm Busca do Tempo Perdido\u201d, de Marcel Proust, ou \u201cO Castelo\u201d, de Franz Kafka.<\/p>\n<p>Philip Roth se enquadra em outra categoria. Seus livros \u2013 como os de Junichiro Tanizaki, Rubem Fonseca, Santa Teresa d\u2019\u00c1vila ou Javier Mar\u00edas \u2013 fazem com que eu veja minha pr\u00f3pria vida com outros olhos. \u00c9 quase como uma sess\u00e3o de an\u00e1lise: esses autores parecem estar me dizendo algo como \u201cvoc\u00ea pensa esse tipo de coisa, por mais que finja que n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Eu desisti de ler Philip Roth j\u00e1 h\u00e1 uns tr\u00eas anos, conforme j\u00e1 comentei por <a href=\"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1807\">aqui<\/a>, porque, de certo modo &#8211; como Thomas Mann e Balzac, antes dele \u2013, o americano j\u00e1 n\u00e3o representava mais \u201cum grande desafio para minha leitura\u201d. Pensando nesta minha teoria da \u201csess\u00e3o de an\u00e1lise\u201d, fico me perguntando se n\u00e3o &#8220;me dei alta&#8221; dele: afinal de contas li uns vinte livros do americano, de certa forma achei que a \u201can\u00e1lise\u201d j\u00e1 tinha atingido seus \u201cobjetivos\u201d.<\/p>\n<p>Sei l\u00e1 se n\u00e3o estou falando besteira: o fato \u00e9 que sempre olho para os livros que tenho dele l\u00e1 em casa, e que (ainda) n\u00e3o li, como \u201cO Professor de Desejo\u201d ou \u201cA Li\u00e7\u00e3o de Anatomia\u201d, tenho vontade de voltar a mergulhar em suas hist\u00f3rias fortes cujos personagens principais \u2013 quase sempre judeus, americanos e heterossexuais \u2013 s\u00e3o atormentados e, frequentemente, v\u00edtimas de um destino implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>Descanse em paz, Philip Roth. Voc\u00ea teve uma bela vida. Seus milh\u00f5es de leitores pelo mundo s\u00e3o uma prova viva disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u00c9 engra\u00e7ado que se eu fosse fazer minha lista de dez livros preferidos, assim de cabe\u00e7a, provavelmente n\u00e3o entraria nenhum livro de Philip Roth (1933-2018). Quem sabe algum dele entrasse numa lista de vinte melhores, mas francamente n\u00e3o tenho certeza. Acho que agora meio que entendo o porqu\u00ea disso. Pensando na morte deste grande escritor americano, ocorrida ontem, percebi que, para mim, os grandes livros podem me impressionar pela arte ou pela, como direi, pela \u201cexperi\u00eancia\u201d. Deixa eu ver se consigo explicar. Os livros que me impressionaram pela arte \u2013 e que s\u00e3o sempre os favoritos nas minhas listas de preferidos - s\u00e3o aqueles que, durante a leitura, me deixaram embasbacado pela qualidade das imagens criadas, pela genialidade em si da obra, pela surpresa da coisa. Nunca imaginaria \u2013 se n\u00e3o os tivesse lido \u2013 que existissem livros como \u201c2666\u201d, de Roberto Bola\u00f1o, \u201cCem Anos de Solid\u00e3o\u201d, de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, \u201cEm Busca do Tempo Perdido\u201d, de Marcel Proust, ou \u201cO Castelo\u201d, de Franz Kafka. Philip Roth se enquadra em outra categoria. Seus livros \u2013 como os de Junichiro Tanizaki, Rubem Fonseca, Santa Teresa d\u2019\u00c1vila ou Javier Mar\u00edas \u2013 fazem com que eu veja minha pr\u00f3pria vida com outros olhos. \u00c9 quase como uma sess\u00e3o de an\u00e1lise: esses autores parecem estar me dizendo algo como \u201cvoc\u00ea pensa esse tipo de coisa, por mais que finja que n\u00e3o\u201d. Eu desisti de ler Philip Roth j\u00e1 h\u00e1 uns tr\u00eas anos, conforme j\u00e1 comentei por aqui, porque, de certo modo - como Thomas Mann e Balzac, antes dele \u2013, o americano j\u00e1 n\u00e3o representava mais \u201cum grande desafio para minha leitura\u201d. Pensando nesta minha teoria da \u201csess\u00e3o de an\u00e1lise\u201d, fico me perguntando se n\u00e3o \"me dei alta\" dele: afinal de contas li uns vinte livros do americano, de certa forma achei que a \u201can\u00e1lise\u201d j\u00e1 tinha atingido seus \u201cobjetivos\u201d. Sei l\u00e1 se n\u00e3o estou falando besteira: o fato \u00e9 que sempre olho para os livros que tenho dele l\u00e1 em casa, e que (ainda) n\u00e3o li, como \u201cO Professor de Desejo\u201d ou \u201cA Li\u00e7\u00e3o de Anatomia\u201d, tenho vontade de voltar a mergulhar em suas hist\u00f3rias fortes cujos personagens principais \u2013 quase sempre judeus, americanos e heterossexuais \u2013 s\u00e3o atormentados e, frequentemente, v\u00edtimas de um destino implac\u00e1vel. Descanse em paz, Philip Roth. Voc\u00ea teve uma bela vida. 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