{"id":3426,"date":"2018-01-17T21:06:51","date_gmt":"2018-01-18T00:06:51","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3426"},"modified":"2018-01-19T12:37:57","modified_gmt":"2018-01-19T15:37:57","slug":"3426","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3426","title":{"rendered":"Carlos Heitor Cony (1926-2018)"},"content":{"rendered":"<p>Eu estava andando de carro, indo para o trabalho. Era a segunda metade dos anos 90. Olho para a esquerda e, na cal\u00e7ada, se dirigindo a um hotel no Alto da Gl\u00f3ria, estava Carlos Heitor Cony. Pensei rapidamente em descer e pedir um aut\u00f3grafo mas, meio por babaquice, meio pela rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio que sempre tive com ele, meio por n\u00e3o estar carregando nenhum livro seu &#8211; acho que eu estava lendo \u201cO Piano e a Orquestra\u201d na \u00e9poca &#8211; n\u00e3o parei. Na pr\u00f3xima esquina, mudo de ideia e resolvo dar a volta na quadra para pedir-lhe um aut\u00f3grafo. N\u00e3o consegui, claro, ele j\u00e1 tinha entrado no hotel e perdi a \u00fanica oportunidade que Deus me deu para pedir um aut\u00f3grafo para o Cony. E era ele mesmo, antes que voc\u00ea me pergunte. Saiu na televis\u00e3o daqui uma propaganda de um col\u00e9gio, com ele, pouco tempo depois deste quase encontro.<!--more--><\/p>\n<p>Depois que ele faleceu, algumas semanas atr\u00e1s, comecei a me lembrar do quanto o pensamento dele tinha sido importante para mim, numa \u00e9poca espec\u00edfica de minha vida. Eu estava me convertendo do ate\u00edsmo impenitente para a f\u00e9, que passou a tomar conta da minha paisagem mental at\u00e9 hoje. Ele era um ateu, ex-seminarista, que adorava a Igreja Cat\u00f3lica &#8211; e eu, do meu lado, lia as cr\u00f4nicas em que ele falava de religi\u00e3o com uma mal-disfar\u00e7ada torcida para que ele se (re)convertesse. No fundo eu achava que, se ele se convertesse, eu acabaria por me converter completamente tamb\u00e9m. De todo modo, agora que ele morreu, fiquei sabendo que n\u00e3o era s\u00f3 eu que torcia para uma convers\u00e3o do Cony: um importante arcebispo o chamou num canto, certa ocasi\u00e3o, tentando argumentar com o sujeito para que ele voltasse para a Igreja. N\u00e3o conseguiu.<\/p>\n<p>De todo modo, eu gostava mesmo era das cr\u00f4nicas divertidas dele: Carlos Heitor Cony tinha um jeito impag\u00e1vel de falar de coisas insignificantes com palavras pomposas. Ele escrevia cr\u00f4nicas curtas na Folha de S\u00e3o Paulo algumas vezes por semana e uma mais longa \u00e0s sextas-feiras. Quando ele acertava na veia, ningu\u00e9m chegava perto. Quando o assunto era pol\u00edtica, por outro lado, o tom era bem outro: foi com tristeza que percebi aos poucos que, neste caso, ele mais parecia um sujeito palpiteiro (desses que a gente encontra em filas de banco) que outra coisa &#8211; e ele mesmo assumia isso. De todo modo, ele foi deixando de escrever na Folha, primeiro nas sextas, depois foi abandonando as cr\u00f4nicas curtas, e no final ficou com uma coluninha s\u00f3 na p\u00e1gina dois, aos domingos. Como aquelas em que \u201cele acertava\u201d eram normalmente menos frequentes que seus palpites sem gra\u00e7a sobre pol\u00edtica, fui perdendo o interesse pelo que ele escrevia. E ele mesmo, pelo visto, j\u00e1 tinha perdido boa parte do interesse pela vida \u00e0 medida que envelhecia e que n\u00e3o conseguia mais andar, depois de um acidente no quarto besta, em Frankfurt.<\/p>\n<p>Quanto aos romances, li diversos e gostei de todos, embora esquecesse boa parte dos enredos assim que terminava a leitura &#8211; como sempre aconteceu comigo em rela\u00e7\u00e3o a Machado de Assis, ali\u00e1s, e que tamb\u00e9m admiro muito. O meu livro preferido de Carlos Heitor Cony \u00e9 um que n\u00e3o \u00e9 preferido de quase ningu\u00e9m, o engra\u00e7ad\u00edssimo \u201cO Piano e a Orquestra\u201d. Fiquei feliz em saber que o colunista da Folha Alvaro Costa e Silva <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2018\/01\/1948516-escolher-obra-prima-de-carlos-heitor-cony-nao-e-tarefa-facil.shtml?\">compartilha<\/a> esta prefer\u00eancia comigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu estava andando de carro, indo para o trabalho. Era a segunda metade dos anos 90. Olho para a esquerda e, na cal\u00e7ada, se dirigindo a um hotel no Alto da Gl\u00f3ria, estava Carlos Heitor Cony. Pensei rapidamente em descer e pedir um aut\u00f3grafo mas, meio por babaquice, meio pela rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio que sempre tive com ele, meio por n\u00e3o estar carregando nenhum livro seu &#8211; acho que eu estava lendo \u201cO Piano e a Orquestra\u201d na \u00e9poca &#8211; n\u00e3o parei. Na pr\u00f3xima esquina, mudo de ideia e resolvo dar a volta na quadra para pedir-lhe um aut\u00f3grafo. N\u00e3o consegui, claro, ele j\u00e1 tinha entrado no hotel e perdi a \u00fanica oportunidade que Deus me deu para pedir um aut\u00f3grafo para o Cony. E era ele mesmo, antes que voc\u00ea me pergunte. 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