{"id":3108,"date":"2017-02-28T19:47:10","date_gmt":"2017-02-28T22:47:10","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3108"},"modified":"2017-02-28T19:47:10","modified_gmt":"2017-02-28T22:47:10","slug":"rubem-fonseca-knausgard","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3108","title":{"rendered":"Rubem Fonseca, Knausgard"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2918\">Eu j\u00e1 tinha ficado bastante impressionado<\/a> com \u201cA Morte do Pai\u201d, o primeiro dos livros da s\u00e9rie autobiogr\u00e1fica \u201cMinha Luta\u201d (epa), do noruegu\u00eas Karl Ove Knausgard. O segundo, \u201cUm Outro Amor\u201d (Companhia das Letras, 592 p\u00e1ginas), \u00e9 ainda melhor: o in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o com sua mulher, Linda, a vida com seus filhos, o in\u00edcio da carreira de escritor, a amizade com Geir e a mudan\u00e7a da Noruega para a Su\u00e9cia s\u00e3o os principais temas do romance deste escritor espetacular, que consegue descrever um jantar em cinquenta p\u00e1ginas e mesmo assim manter o interesse para seus in\u00fameros (10% da popula\u00e7\u00e3o da Noruega j\u00e1 leu sua enorme s\u00e9rie autobiogr\u00e1fica, para que se tenha uma ideia) leitores.<\/p>\n<p>O livro seguinte da s\u00e9rie, \u201cA Ilha da Inf\u00e2ncia\u201d (Companhia das Letras, 436 p\u00e1ginas), que conta suas lembran\u00e7as de inf\u00e2ncia e in\u00edcio da adolesc\u00eancia, por outro lado, mesmo longe de ser ruim, est\u00e1 distante da qualidade dos dois primeiros. Suas longas descri\u00e7\u00f5es de brincadeiras e passeios nas florestas pr\u00f3ximas de onde vivia n\u00e3o deixam de ter seu interesse, mas os acontecimentos apresentados nos romances anteriores prendem muito mais a aten\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, o maior drama de \u201cA Ilha da Inf\u00e2ncia\u201d, a rela\u00e7\u00e3o com o pai, s\u00e1dico com os dois filhos, j\u00e1 tinha sido mais bem descrito em \u201cA Morte do Pai\u201d. De todo modo, Knausgard \u00e9 sempre Knausgard, e a falta de descri\u00e7\u00e3o da descoberta do sexo \u2013 ele simplesmente descreve fatos anteriores e posteriores a este acontecimento sempre decisivo \u2013 \u00e9 uma mostra da excel\u00eancia (como se ainda precis\u00e1ssemos de alguma) do noruegu\u00eas como escritor.<!--more--><\/p>\n<p>Como os citados acima, tamb\u00e9m li recentemente dois livros do brasileiro Rubem Fonseca: \u201cBufo &amp; Spallanzani\u201d (Nova Fronteira, 337 p\u00e1ginas) e \u201cAgosto\u201d (Record\/Altaya, 349 p\u00e1ginas).<\/p>\n<p>\u201cBufo &amp; Spallanzani\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie de policial farsesco: o escritor Ivan Canabrava (que depois muda seu nome para Gustavo Fl\u00e1vio), gordo e obcecado por sexo, conta suas aventuras como investigador de uma empresa de seguros, seus relacionamentos com mulheres \u2013 principalmente Minolta, uma esp\u00e9cie de hippie -, sua vida como escritor e sua temporada num hotel fazenda, onde se retirou para tentar escrever seu livro (chamado, numa brincadeira metalingu\u00edstica, de \u201cBufo &amp; Spallanzani\u201d), onde ocorre um dos crimes do romance &#8211; o outro \u00e9 o assassinato de uma amante de Gustavo Fl\u00e1vio, que aparece bem no comecinho da obra.<\/p>\n<p>Os coment\u00e1rios de Ivan Canabrava-Gustavo Fl\u00e1vio s\u00e3o quase sempre divertidos, e o livro \u00e9 de leitura agrad\u00e1vel na maior parte do tempo. Mas \u201cBufo &amp; Spallanzani\u201d n\u00e3o consegue se decidir se \u00e9 um policial ou uma brincadeira, e as solu\u00e7\u00f5es para os crimes s\u00e3o muito fracas. Serve como divers\u00e3o, mas o romance \u00e9 esquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Muito diferente \u00e9 o <em>thriller<\/em> policial \u201cAgosto\u201d: contando n\u00e3o s\u00f3 os acontecimentos que levaram ao suic\u00eddio de Get\u00falio Vargas, em agosto de 1954, como algumas hist\u00f3rias policiais fict\u00edcias paralelas, o romance prende o leitor do in\u00edcio ao fim e apresenta personagens fortes e bem constru\u00eddos, como o incorrupt\u00edvel investigador Alberto Mattos, sua amante Salete, e um grande n\u00famero de pol\u00edticos, policiais e empres\u00e1rios corruptos (uma boa li\u00e7\u00e3o para quem ainda acha que \u201cnaquele tempo\u201d &#8211; qualquer tempo &#8211; tudo era melhor). Rubem Fonseca parece melhor quando n\u00e3o quer fazer gra\u00e7a \u2013 \u201cAgosto\u201d n\u00e3o tem um instante ir\u00f4nico que seja.<\/p>\n<p>\u00c9 mais ou menos comum eu ler uma obra de um autor, n\u00e3o gostar muito e depois n\u00e3o ler mais nenhum livro dele: isso j\u00e1 aconteceu com W.G. Sebald, Paul Auster, Imre Kert\u00e9sz e \u00c9mile Zola, por exemplo. Fico me perguntando o que teria acontecido se eu tivesse conhecido Karl Ove Knausgard por \u201cA Ilha da Inf\u00e2ncia\u201d e Rubem Fonseca por \u201cBufo &amp; Spallanzani\u201d: provavelmente eu n\u00e3o daria mais nenhuma chance para os dois escritores \u2013 e quem perderia com isso seria eu mesmo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu j\u00e1 tinha ficado bastante impressionado com \u201cA Morte do Pai\u201d, o primeiro dos livros da s\u00e9rie autobiogr\u00e1fica \u201cMinha Luta\u201d (epa), do noruegu\u00eas Karl Ove Knausgard. 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