{"id":3028,"date":"2016-12-20T16:40:14","date_gmt":"2016-12-20T19:40:14","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3028"},"modified":"2016-12-20T18:34:40","modified_gmt":"2016-12-20T21:34:40","slug":"fogo-palido-de-vladimir-nabokov","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3028","title":{"rendered":"&#8220;Fogo P\u00e1lido&#8221;, de Vladimir Nabokov"},"content":{"rendered":"<p>No in\u00edcio do ano que vem lan\u00e7o o meu primeiro romance, \u201cUm amor como nenhum outro\u201d. As influ\u00eancias mais marcantes s\u00e3o Philip Roth (especialmente o de \u201cComplexo de Portnoy\u201d), Morrissey (tanto pelas letras como pelo seu malvisto, mas muito bom, <em>List of the Lost<\/em>, pela tem\u00e1tica e pelo tamanho), e Nabokov (1899-1977). \u00c9 sobre este \u00faltimo que vou falar aqui.<\/p>\n<p>\u201cFogo P\u00e1lido\u201d provavelmente seja o melhor livro do autor russo emigrado depois da Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica de 1917 \u2013 ele era de fam\u00edlia rica e \u201caristocr\u00e1tica liberal\u201d e, como muitos de seus romances, este tem personagens na mesma condi\u00e7\u00e3o que ele, russos tentando se virar no Ocidente. Mas n\u00e3o \u00e9 essa a caracter\u00edstica que influenciou a escrita do meu romance: foi o \u201cnarrador n\u00e3o-confi\u00e1vel\u201d, presente em boa parte de seus melhores livros (\u201cLolita\u201d, \u201cAda ou Ardor\u201d, \u201cDesespero\u201d) e que chega \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o neste \u201cFogo P\u00e1lido\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 pela pr\u00f3pria estrutura o livro \u00e9 muito original: consta de um pref\u00e1cio de umas 10 p\u00e1ginas, escrito pelo pr\u00f3prio narrador, Charles Kinbote, de um poema de mil versos que ocupa cerca de 28 p\u00e1ginas, chamado \u201cFogo P\u00e1lido\u201d e escrito por outro personagem, o poeta e professor universit\u00e1rio John Shade e, finalmente, das notas de Charles Kinbote, que ocupam as restantes das 236 p\u00e1ginas da minha edi\u00e7\u00e3o do C\u00edrculo do Livro: em outras palavras, as notas ocupam mais de 85% do livro.<\/p>\n<p>O poema do personagem John Shade \u00e9 autobiogr\u00e1fico e melanc\u00f3lico, falando de dilemas existenciais e da filha falecida, triste e solit\u00e1ria. J\u00e1 as notas de Charles Kinbote s\u00e3o coisa de doido: refugiado de um pa\u00eds imagin\u00e1rio pr\u00f3ximo da R\u00fassia, Zembla, e vizinho de John Shade, Kinbote faz coment\u00e1rios sobre o poema que aparentemente n\u00e3o fazem o menor sentido. Ele relaciona versos que s\u00f3 parecem ter a ver com a vida do pr\u00f3prio poeta com os acontecimentos em Zembla, que passara por uma revolu\u00e7\u00e3o nos moldes da Russa de 1917. Nas notas (que, na verdade, s\u00e3o o cerne do romance) o leitor fica imaginando o que tem de verdade e o que tem de mentira nas hist\u00f3rias malucas de Charles Kinbote \u2013 e Nabokov, genial como sempre, n\u00e3o deixa de dar sinais de que tudo aquilo n\u00e3o passa de uma maluquice de um sujeito com mania de grandeza.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de Nabokov, com meu livro n\u00e3o pretendi dar um n\u00f3 na cabe\u00e7a de ningu\u00e9m. Mas que n\u00e3o d\u00e1 para confiar no que o meu Raul escreve, ah n\u00e3o d\u00e1 n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No in\u00edcio do ano que vem lan\u00e7o o meu primeiro romance, \u201cUm amor como nenhum outro\u201d. As influ\u00eancias mais marcantes s\u00e3o Philip Roth (especialmente o de \u201cComplexo de Portnoy\u201d), Morrissey (tanto pelas letras como pelo seu malvisto, mas muito bom, List of the Lost, pela tem\u00e1tica e pelo tamanho), e Nabokov (1899-1977). \u00c9 sobre este \u00faltimo que vou falar aqui. \u201cFogo P\u00e1lido\u201d provavelmente seja o melhor livro do autor russo emigrado depois da Revolu\u00e7\u00e3o Sovi\u00e9tica de 1917 \u2013 ele era de fam\u00edlia rica e \u201caristocr\u00e1tica liberal\u201d e, como muitos de seus romances, este tem personagens na mesma condi\u00e7\u00e3o que ele, russos tentando se virar no Ocidente. 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O poema do personagem John Shade \u00e9 autobiogr\u00e1fico e melanc\u00f3lico, falando de dilemas existenciais e da filha falecida, triste e solit\u00e1ria. J\u00e1 as notas de Charles Kinbote s\u00e3o coisa de doido: refugiado de um pa\u00eds imagin\u00e1rio pr\u00f3ximo da R\u00fassia, Zembla, e vizinho de John Shade, Kinbote faz coment\u00e1rios sobre o poema que aparentemente n\u00e3o fazem o menor sentido. Ele relaciona versos que s\u00f3 parecem ter a ver com a vida do pr\u00f3prio poeta com os acontecimentos em Zembla, que passara por uma revolu\u00e7\u00e3o nos moldes da Russa de 1917. Nas notas (que, na verdade, s\u00e3o o cerne do romance) o leitor fica imaginando o que tem de verdade e o que tem de mentira nas hist\u00f3rias malucas de Charles Kinbote \u2013 e Nabokov, genial como sempre, n\u00e3o deixa de dar sinais de que tudo aquilo n\u00e3o passa de uma maluquice de um sujeito com mania de grandeza. Ao contr\u00e1rio de Nabokov, com meu livro n\u00e3o pretendi dar um n\u00f3 na cabe\u00e7a de ningu\u00e9m. 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