{"id":3023,"date":"2016-12-16T10:47:16","date_gmt":"2016-12-16T13:47:16","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3023"},"modified":"2016-12-16T10:47:16","modified_gmt":"2016-12-16T13:47:16","slug":"ulisses-de-homero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=3023","title":{"rendered":"&#8220;Ulisses&#8221;, de Homero"},"content":{"rendered":"<p>Consta que Marcel Proust se surpreendia com o fato de que os personagens de Homero tinham emo\u00e7\u00f5es modernas, no que eu concordo. Mais do que isso, salta aos olhos agilidade da narrativa e a descri\u00e7\u00e3o precisa dos conflitos em \u201cOdisseia\u201d (Penguin-Companhia das Letras, 576 p\u00e1ginas): o final da hist\u00f3ria, inclusive, em que Ulisses e seu filho Tel\u00eamaco se vingam dos pretendentes de Pen\u00e9lope, tem todos os elementos de um <em>thriller <\/em>de suspense. De todo modo, \u00e9 \u00f3bvio que este \u00e9 um livro muito antigo, e isto faz grande parte do charme de \u201cOdisseia\u201d para o leitor de hoje.<!--more--><\/p>\n<p>A come\u00e7ar pela \u00f3tima tradu\u00e7\u00e3o da Penguin-Companhia das Letras, a cargo do portugu\u00eas Frederico Louren\u00e7o. Segundo Jos\u00e9 Paulo Paes, \u201ca boa tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 aquela que voc\u00ea l\u00ea como se tivesse sido escrita originariamente em portugu\u00eas. \u00c9 aquela em que o portugu\u00eas tem algo de estranho. A\u00ed voc\u00ea conseguiu infundir um pouco do original na sua pr\u00f3pria l\u00edngua, ampliando-a.\u201d Isto pode ser mostrado rapidamente no trecho inicial da tradu\u00e7\u00e3o de \u201cOdisseia\u201d:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cFala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou, \/ depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada. \/ Muitos foram os povos cujas cidades observou, \/ cujos esp\u00edritos conheceu; e foram muitos no mar \/ os sofrimentos por que passou para salvar a vida, \/ para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas. \/ Mas a eles, embora o quisesse, n\u00e3o logrou salvar. \/ N\u00e3o, pereceram devido \u00e0 sua loucura, \/ insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hip\u00e9rion, \/ o Sol \u2014 e assim lhes negou o deus o dia do retorno. \/ Destas coisas fala-nos agora, \u00f3 deusa, filha de Zeus.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Para tirar a estranheza da tradu\u00e7\u00e3o de Frederico Louren\u00e7o, imagino o mesmo trecho numa linguagem atual:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMe conte aqui, musa, sobre o homem que por anos vagueou perdido depois de ter destru\u00eddo a cidade sagrada de Troia. Ele conheceu muitos povos de muitas cidades diferentes e sofreu horrivelmente no mar para que pudessem todos voltar para suas casas, tanto ele como seus companheiros. Mas estes foram assassinados pelo Deus Sol, Hiperi\u00f3n, como vingan\u00e7a pela morte de seu gado sagrado.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Mas o que eu mais estranhei em \u201cOdisseia\u201d foi a hist\u00f3ria dos pretendentes. Depois da guerra de Troia, Ulisses quer voltar para a sua terra natal mas o deus Pos\u00eaidon faz de tudo para atrapalh\u00e1-lo (ao mesmo tempo em que a deusa Atena tenta auxili\u00e1-lo do jeito que pode). Nesta viagem de volta, ele sofre com tempestades, \u00e9 preso pela ninfa \u00a0Calipso, encontra tanto terras hostis quanto hospitaleiras. Enquanto ele come o p\u00e3o que o diabo amassou no mar, sua casa vai se enchendo de pretendentes \u00e0 m\u00e3o de sua esposa Pen\u00e9lope (ningu\u00e9m sabia, afinal, se Ulisses estava vivo ou morto).<\/p>\n<p>Boa parte da \u201cOdisseia\u201d se refere \u00e0s barbaridades que estes pretendentes fazem na casa de Ulisses. Os caras simplesmente se apossam do lugar, devoram o gado do dono, v\u00e3o ficando por l\u00e1, como se fosse o conto \u201cA Casa Tomada\u201d, de Julio Cort\u00e1zar. O leitor vai se revoltando contra a cara de pau dos sujeitos, e fica se perguntando: por que diabos Pen\u00e9lope simplesmente n\u00e3o toca todo o mundo de l\u00e1? Ela n\u00e3o diz nem que sim nem que n\u00e3o para os pretendentes, afinal de contas. Ser\u00e1 que era costume da \u00e9poca? Sei l\u00e1.<\/p>\n<p>De todo modo, fazer leitores, 2800 anos depois, se revoltarem com a falta de no\u00e7\u00e3o de uma cambada de sujeitos n\u00e3o \u00e9 para qualquer um, n\u00e9?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Consta que Marcel Proust se surpreendia com o fato de que os personagens de Homero tinham emo\u00e7\u00f5es modernas, no que eu concordo. Mais do que isso, salta aos olhos agilidade da narrativa e a descri\u00e7\u00e3o precisa dos conflitos em \u201cOdisseia\u201d (Penguin-Companhia das Letras, 576 p\u00e1ginas): o final da hist\u00f3ria, inclusive, em que Ulisses e seu filho Tel\u00eamaco se vingam dos pretendentes de Pen\u00e9lope, tem todos os elementos de um thriller de suspense. 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