{"id":2879,"date":"2016-09-16T11:37:48","date_gmt":"2016-09-16T14:37:48","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2879"},"modified":"2019-06-02T22:36:26","modified_gmt":"2019-06-03T01:36:26","slug":"curitiba-pop-festival-2003","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2879","title":{"rendered":"Curitiba Pop Festival, 2003"},"content":{"rendered":"<p><strong>O local<\/strong><\/p>\n<p>Confesso que fiquei preocupado quando soube que o Curitiba Pop Festival seria na \u00d3pera de Arame. Para quem n\u00e3o conhece, o local \u00e9 bel\u00edssimo e todo constru\u00eddo em estruturas met\u00e1licas e vidro. A ac\u00fastica, por outro lado, \u00e9 p\u00e9ssima. As cadeiras s\u00e3o todas parafusadas no ch\u00e3o e com os assentos em grade met\u00e1lica &#8211; o que seria tamb\u00e9m muito ruim para um show de rock.<\/p>\n<p>Por sorte, nada disso foi empecilho para que o Festival transcorresse bem. O local mostrou-se excelente para o evento, j\u00e1 que as cadeiras todas foram retiradas e v\u00e1rias plataformas de madeira emborrachada foram colocadas no seu lugar, permitindo uma excelente movimenta\u00e7\u00e3o de todos os presentes &#8211; ajudada ali\u00e1s pela arquitetura do lugar como um todo, com v\u00e1rias escadas e passagens para os pavimentos superiores e inferiores. A ac\u00fastica, apesar de deficiente, n\u00e3o impediu que se ouvisse bem os bons shows.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><!--more--><\/p>\n<p><strong>Primeira noite<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Primeiras bandas<\/strong><\/p>\n<p>Por motivos de trabalho, cheguei no meio do show da quarta banda a se apresentar, logo n\u00e3o presenciei e n\u00e3o vou comentar <strong>Vurla<\/strong>, <strong>Bad Folks <\/strong>e <strong>Valv<\/strong>.<\/p>\n<p>A banda que estava tocando quando pus os p\u00e9s na \u00d3pera do Arame era a <strong>Suite Number Five<\/strong>, de Campinas. Eu at\u00e9 estava gostando da postura da banda (o vocalista Flavio \u00e9 realmente carism\u00e1tico), de forte influ\u00eancia do p\u00f3s-punk brit\u00e2nico, mas s\u00f3 me entusiasmei mesmo quando ouvi a \u00faltima m\u00fasica: prestei um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o, e era <em>I Wanna Be Your Dog<\/em>, dos Stooges. Mau sinal. <strong>Nota 6<\/strong>.<\/p>\n<p>Depois veio a banda curitibana <strong>E.S.S<\/strong>, que tocou quatro m\u00fasicas. A primeira e a terceira foram cantadas por Alessandro Oliveira, e n\u00e3o empolgaram. Al\u00e9m delas n\u00e3o serem marcantes, a voz do vocalista ficou muito atr\u00e1s dos instrumentos. Na segunda m\u00fasica, clim\u00e1tica e que me lembrou vagamente Cocteau Twins, a vocalista \u00e9 uma cantora que faz uma participa\u00e7\u00e3o especial &#8211; e o panorama melhora bastante. Para fechar o show, outro vocalista aparece, cantando grudado ao microfone, e tamb\u00e9m agrada. <strong>Nota 5<\/strong>.<\/p>\n<p>A banda paulistana <strong>Monokini <\/strong>veio a seguir, com seu pop leve \u00e0 la Belle and Sebastian. Embora eu n\u00e3o seja fervoroso adepto deste tipo de som, n\u00e3o d\u00e1 para negar que eles s\u00e3o competentes naquilo que se prop\u00f5em. Com algumas instrumentais e muitos &#8220;p\u00e1-p\u00e1-p\u00e1&#8221; nos refr\u00f5es, \u00e9 de lamentar que a voz da vocalista Fabiana Karpinski estivesse t\u00e3o atr\u00e1s dos instrumentos. <strong>Nota 6<\/strong>.<\/p>\n<p>O show da banda baiana de trip-hop <strong>Tara Code <\/strong>teve in\u00fameros problemas t\u00e9cnicos. Os computadores com programa\u00e7\u00e3o de som deixaram de funcionar em v\u00e1rios momentos, e mais de uma vez o show teve que ser interrompido para tentar faz\u00ea-los funcionar. Quando finalmente o show deslanchou o som da banda se mostrou enormemente depressivo. Estranho, mas interessante. <strong>Nota 6<\/strong>.<\/p>\n<p>O show do recifense <strong>Otto <\/strong>valeria por ser o primeiro da noite a ter um esquema realmente profissional: melhor som, melhores m\u00fasicos, vocal \u00e0 frente dos instrumentos. Apesar disso, a mistura de ritmos brasileiros e m\u00fasica pop n\u00e3o me entusiasmou muito nas duas primeiras m\u00fasicas. A\u00ed Otto apresenta os percussionistas que tocariam a pr\u00f3xima m\u00fasica com ele &#8211; sem mais nenhum acompanhamento -, e a coisa come\u00e7a a fazer sentido. Apesar de mais um deslize aqui e outro ali, ficou a impress\u00e3o de que, quanto mais puxadas para a &#8220;brasilidade&#8221;, melhores s\u00e3o suas m\u00fasicas. No todo, um show realmente empolgante. <strong>Nota 8<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Exageradamente bom<\/strong><\/p>\n<p>Quando o show dos franceses do <strong>Rubin Steiner<\/strong> come\u00e7ou, j\u00e1 parecia bom. Mas era uma esp\u00e9cie de inc\u00f3gnita. No palco estavam quatro rapazes magros com um bom humor para l\u00e1 de contagiante. Dois deles eram DJs, outro tocava baixo ac\u00fastico e o outro trombone de vara &#8211; al\u00e9m disso, um dos DJs cantava num estranho microfone branco e quadrado que distorcia completamente a sua voz, transformando-a quase em mais um instrumento eletr\u00f4nico. No tel\u00e3o, um menininho berrava ao som da m\u00fasica &#8211; era uma filmagem dos anos 50, ou 60.<\/p>\n<p>O som, no in\u00edcio, pareceu, digamos&#8230; complexo. A primeira m\u00fasica come\u00e7ou lentamente, com um tema um pouco repetitivo que dava a sensa\u00e7\u00e3o de que aquela a estranha mistura de instrumentos de jazz e de samplers estivesse ainda tentando se encontrar enquanto o show n\u00e3o come\u00e7ava. O tema vinha, voltava, e daqui a pouco tomava asas e ficava muito pesado e dan\u00e7ante (neste momento, o que parecia bom come\u00e7ou a ficar excelente). Quando o tema desenvolvido estava no auge da pot\u00eancia, o grupo voltava ao in\u00edcio e deixava tudo em suspens\u00e3o novamente. Estas idas e voltas do peso na m\u00fasica continuou por um bom tempo &#8211; mas a banda, sabiamente, aumentava cada vez mais os per\u00edodos de tempo mais pesados, diminuindo aqueles, como direi, &#8220;jazz\u00edsticos&#8221;. Em todo este processo o vocalista cantava aqui e ali, em ingl\u00eas, aumentando ainda mais o hipnotismo da coisa. A primeira m\u00fasica terminou num \u00e1pice extraordin\u00e1rio, e toda a plat\u00e9ia presente no Curitiba Pop Festival j\u00e1 estava completamente na m\u00e3o. Sab\u00edamos que est\u00e1vamos presenciando um grande momento da m\u00fasica &#8211; e este foi s\u00f3 o in\u00edcio deste show espetacular.<\/p>\n<p>A primeira m\u00fasica foi uma\u00a0 miniatura do que seria o show completo. Assim como no in\u00edcio, onde o peso vinha vindo aos poucos, em idas e voltas cada vez mais empolgantes, no restante do show as m\u00fasicas iam cada vez tendo menos momentos de folga \u00e0 medida que o tempo passava. No final, a plat\u00e9ia extasiada acabou imprevistamente pedindo um bis. Deve ter sido o \u00fanico da noite. A banda, ent\u00e3o, voltou para tocar aquela primeira m\u00fasica, que eu chamaria, sem nenhum exagero, de &#8220;su\u00edte&#8221;.<\/p>\n<p>Deve ter sido o segundo melhor show da minha vida. O Rubin Steiner, que quase ningu\u00e9m conhecia, roubou o Curitiba Pop Festival. <strong>Nota 10<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Decep\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O <strong>Stereo Total <\/strong>veio depois do Rubin Steiner para fechar a primeira noite, e foi um anti-cl\u00edmax enorme. M\u00fasica engra\u00e7adinha, um rapaz tocando v\u00e1rios instrumentos, uma mo\u00e7a com \u00f3culos enormes, bateria eletr\u00f4nica, som new wave, roupas coloridas. Como uma piada contada v\u00e1rias vezes, Stereo Total n\u00e3o tem a menor gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Poderia ser implic\u00e2ncia minha, eu posso ter um gosto musical estranho, v\u00e1 l\u00e1. Mas muita gente, assim como eu, saiu no meio do show. <strong>Nota 4<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Segunda noite<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Primeiras bandas<\/strong><\/p>\n<p>Ouvi duas m\u00fasicas do primeiro show da segunda noite, dos curitibanos do <strong>Criaturas<\/strong>. Duas belas vocalistas, uma tocando guitarra e outra vestida \u00e0 la Janis Joplin, fizeram um rock melodioso e com uma bela pegada. A banda tamb\u00e9m mostrou grande presen\u00e7a de palco. T\u00eam futuro. <strong>Nota 7<\/strong>.<\/p>\n<p>Apesar de n\u00e3o ser grande adepto do rock feito do <strong>Bid\u00ea ou Balde<\/strong>, \u00e9 ineg\u00e1vel que a banda toca com garra, tem enorme presen\u00e7a de palco e faz um show extremamente competente. O vocalista Carlinhos pula, saracoteia, corre o palco todo e faz micagens (como colocar uma cueca vermelha em homenagem ao Internacional de Porto Alegre). Toda a banda demonstra uma enorme alegria de tocar. <strong>Nota 7<\/strong>.<\/p>\n<p>Compet\u00eancia extrema \u00e9 o que t\u00eam os curitibanos do grupo de <em>psychobilly<\/em> <strong>Catal\u00e9pticos<\/strong>. A banda, com tr\u00eas integrantes (guitarra, baixo e bateria) apresentou um som extremamente pesado, r\u00e1pido, violento &#8211; e a qualidade do som, prec\u00e1ria nos shows brasileiros do dia anterior, foi extraordin\u00e1ria. Certamente tinha muito <em>indie <\/em>assustado com a porradaria. A prop\u00f3sito, um dos integrantes ainda comentou ironicamente: &#8220;parece que a gente ia tocar num festival pop, n\u00e9?&#8221;. Ao ouvir Catal\u00e9pticos, tive orgulho de ser curitibano. <strong>Nota 9<\/strong>.<\/p>\n<p>Infelizmente o orgulho de ser da cidade n\u00e3o se repetiu com a banda seguinte, tamb\u00e9m de Curitiba, os <strong>Faichecleres<\/strong>. Os tr\u00eas integrantes, vestidos apenas com fraldas (!) e cantando m\u00fasicas com letras entre o pueril e o pornogr\u00e1fico, demonstraram entusiasmo, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Mas a bateria estava muito \u00e0 frente dos instrumentos, e o baterista Tuba tocava t\u00e3o r\u00e1pido que embolava as m\u00fasicas. Por causa desta confus\u00e3o, o show acabou n\u00e3o tendo nenhum momento marcante. <strong>Nota 4<\/strong>.<\/p>\n<p>Os ga\u00fachos do <strong>Walverdes <\/strong>fizeram um show bastante competente, com seu rock pauleira puxado para o grunge. Mas falta algo a eles que, infelizmente, n\u00e3o sei o que \u00e9. Convencional demais, quem sabe? Falta de carisma, talvez? <strong>Nota 6<\/strong>.<\/p>\n<p>A banda de metal curitibana <strong>Primal <\/strong>veio com tudo o que tem direito: vocalista com o rosto coberto com lama, um torno atritando com um disco de metal, movimentado pelo vocalista, jogando fa\u00edscas no palco, e muito barulho, claro. Um bom show, de um heavy metal lento e marcante. <strong>Nota 7,5<\/strong>.<\/p>\n<p>Fui jantar na hora do show do <strong>M.Q.N.<\/strong>, ent\u00e3o n\u00e3o vou comentar a banda cujo vocalista declarou que quem tinha gostado do show do Stereo Total poderia sair do recinto, pois o deles era rock de verdade.<\/p>\n<p>O show do <strong>Cachorro Grande<\/strong> foi excelente. O rock feito por eles, baseado em bandas seiscentistas como o The Who, \u00e9 realmente empolgante. A banda, com os integrantes de terno e gravata, \u00e9 suja, pornogr\u00e1fica, mal-educada (o vocalista mandou o p\u00fablico \u00e0 P.Q.P mais uma de uma vez) mas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, faz sentido. O som esteve perfeito, as m\u00fasicas grudam na mem\u00f3ria, o p\u00fablico se entusiasmou muito. A confus\u00e3o no final, quando os m\u00fasicos come\u00e7aram a quebrar os instrumentos e foram parados pela seguran\u00e7a, era quase uma conseq\u00fc\u00eancia l\u00f3gica do que tinha acontecido antes.<strong>Nota 9<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O grande momento<\/strong><\/p>\n<p>Se o grande show do festival foi o do Rubin Steiner, o da segunda noite foi o dos recifenses da <strong>Na\u00e7\u00e3o Zumbi<\/strong>.<\/p>\n<p>Conforme conversava dia desses com o meu amigo Marcos Fernandes, existem dois tipos de experimentalismo: um que n\u00e3o funciona, e que normalmente s\u00f3 tenta dar uma roupagem s\u00e9ria \u00e0 pr\u00f3pria m\u00fasica &#8211; por exemplo, a mistura de rock + m\u00fasica cl\u00e1ssica perpretada por grande parte dos progressivos e das bandas de metal que resolvem fazer concertos secundados por orquestras sinf\u00f4nicas &#8211; e o outro que funciona &#8211; quando utiliza elementos de diversos estilos para aumentar a expressividade, combinando-os de maneira satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>A m\u00fasica da Na\u00e7\u00e3o Zumbi pertence ao segundo caso. A percuss\u00e3o do maracatu \u00e9 utilizada na sua mistura com o rock de maneira sincopada e poderosa. Tanto a guitarra distorcida da banda quanto o restante dos instrumentos s\u00e3o utilizados com grande compet\u00eancia, aumentando enormemente o impacto do som.<\/p>\n<p>O show da banda em Curitiba foi um caso muito s\u00e9rio. Nem os problemas t\u00e9cnicos, que interromperam a apresenta\u00e7\u00e3o por longos minutos, diminu\u00edram o seu impacto. S\u00f3 n\u00e3o leva 10 por que o Rubin Steiner foi ainda melhor. <strong>Nota 9,9<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Breeders<\/strong><\/p>\n<p>Muito bom o show das <strong>Breeders <\/strong>&#8211; uma guitar band comandada por duas irm\u00e3s &#8211; Kelley e Kim Deal, esta integrante da lend\u00e1ria e extinta banda Pixies -, afiada, entusiasmada, demonstrando enorme bom humor. Infelizmente o meu extremo cansa\u00e7o e a briga que ocorreu do meu lado durante a execu\u00e7\u00e3o de Gigantic, dos Pixies (o melhor momento do show mesmo para quem, como eu, n\u00e3o reconheceu a m\u00fasica), impediram-me de aproveit\u00e1-lo melhor. Mas valeu. <strong>Nota 8<\/strong>.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2003 &#8211; parte dele foi publicada no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/edicao-17-strokes\/ao-vivo-6\/imprimir.html\">Mondo Bacana<\/a>)\u00a0 &#8211; cr\u00e9dito da foto: iaskara<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O local Confesso que fiquei preocupado quando soube que o Curitiba Pop Festival seria na \u00d3pera de Arame. Para quem n\u00e3o conhece, o local \u00e9 bel\u00edssimo e todo constru\u00eddo em estruturas met\u00e1licas e vidro. A ac\u00fastica, por outro lado, \u00e9 p\u00e9ssima. 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