{"id":2833,"date":"2016-08-21T21:05:58","date_gmt":"2016-08-22T00:05:58","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2833"},"modified":"2017-07-24T09:14:23","modified_gmt":"2017-07-24T12:14:23","slug":"dois-livros-de-jose-luis-peixoto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2833","title":{"rendered":"Dois livros de Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto"},"content":{"rendered":"<p>Uma das coisas fascinantes na boa literatura \u00e9 a possibilidade de o leitor ser transportado, mentalmente, para outros pa\u00edses e\/ou \u00e9pocas. A chance de entrar em contato com uma pequena cidadezinha portuguesa nos anos 80 me trouxe a curiosidade de ler \u201cGalveias\u201d (Companhia das Letras, 264 p\u00e1ginas), do portugu\u00eas Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto, publicado em 2014. O tema do livro lembra o de \u201cCenas da Vida da Aldeia\u201d, em que o israelense Am\u00f3s Oz descreve a vida numa pequena aldeia de seu pa\u00eds natal.<!--more--><\/p>\n<p>Logo no in\u00edcio do romance um meteoro cai nas redondezas numa madrugada para l\u00e1 de quente, e os moradores v\u00e3o para a pra\u00e7a principal da pequena Galveias para saber o que est\u00e1 rolando. Pessoas de pijama se olham, se estranham, tentam entender o que est\u00e1 ocorrendo. Sem a possibilidade de se aprofundar sobre o ocorrido, todos voltam \u00e0s suas casas &#8211; e ao seu dia-a-dia mon\u00f3tono. Os personagens come\u00e7am ent\u00e3o a ser descortinados: o marido violento, o garoto deficiente mental, duas mulheres casadas que mant\u00eam um relacionamento l\u00e9sbico, o mec\u00e2nico de motocicletas, dois irm\u00e3os idosos \u2013 um pobre, outro rico &#8211; que ficam mais de cinquenta anos sem se falar. \u00c0 medida em que o livro se desenvolve, o \u00fanico efeito percept\u00edvel da queda do meteoro \u00e9 um permanente odor de enxofre que n\u00e3o s\u00f3 empesteia o ar, como estraga o gosto dos alimentos.<\/p>\n<p>Bem escrito, \u201cGalveias\u201d realmente consegue transportar o leitor para a cidadezinha portuguesa dos anos 80: o problema do livro \u00e9 que os personagens, em sua maioria, s\u00e3o frouxos, e os enredos n\u00e3o t\u00eam maiores atrativos. Basicamente, a personalidade mais interessante \u00e9 o de uma dona de bordel, brasileira, que tamb\u00e9m \u00e9 padeira: mas parece que o interesse est\u00e1 mais no inusitado da coisa mesmo. O fato \u00e9 que apenas o \u201ctransporte\u201d para outro pa\u00eds e\/ou outra \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 o suficiente para a cria\u00e7\u00e3o de boa literatura: \u201cGalveias\u201d n\u00e3o pode se comparar, por exemplo, com o j\u00e1 citado \u201cCenas da Vida de Aldeia\u201d, em que Am\u00f3s Oz cria personagens para l\u00e1 de marcantes, criando grande literatura &#8211; e, claro, transportando o leitor, mentalmente, para a sua cidadezinha.<\/p>\n<p>Muito melhor \u00e9 outro livro de Jos\u00e9 Lu\u00eds Peixoto, o curt\u00edssimo \u201cMorreste-me\u201d (Dublinense, 62 p\u00e1ginas), esp\u00e9cie de carta de despedida do escritor para seu pai, rec\u00e9m-falecido. Para dar uma ideia da coisa, s\u00f3 um trecho do livro j\u00e1 basta:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Descansa, pai, dorme pequenino, que levou o teu nome e as tuas certezas e os teus sonhos no espa\u00e7o dos meus. Descansa, n\u00e3o vou deixar que te aconte\u00e7a mal. N\u00e3o se aflija, pai. Sou forte nesta terra nos meus p\u00e9s. Sou capaz e vou trabalhar e vou trazer de novo aqui o mundo que foi nosso. Vou mesmo, pai. O mundo solar. Reconhec\u00ea-lo-ei, porque n\u00e3o o esqueci. E tamb\u00e9m o tempo ser\u00e1 de novo, e tamb\u00e9m a vida. Sem ti e sempre contigo. (&#8230;) E nunca mais nunca mais. Pai. Dorme, pequenino, que foste tanto. E espeta-me no peito nunca mais poder ouvir ver tocar. Pai, onde estiveres, dorme agora. Menino. Eras um pouco muito de mim. Descansa, pai. Ficou o teu sorriso no que n\u00e3o esque\u00e7o, ficaste todo em mim. Pai. Nunca esquecerei.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das coisas fascinantes na boa literatura \u00e9 a possibilidade de o leitor ser transportado, mentalmente, para outros pa\u00edses e\/ou \u00e9pocas. 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