{"id":2814,"date":"2016-08-14T17:22:36","date_gmt":"2016-08-14T20:22:36","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2814"},"modified":"2016-08-14T17:36:25","modified_gmt":"2016-08-14T20:36:25","slug":"malone-morre-de-samuel-beckett","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2814","title":{"rendered":"&#8220;Malone Morre&#8221;, de Samuel Beckett"},"content":{"rendered":"<p>Se a mem\u00f3ria n\u00e3o me trai, Paulo Francis uma vez escreveu que autores como Borges, Kafka e Samuel Beckett (este, vencedor do Nobel de 1969) eram muito estudados nas universidades porque tinham obras curtas, o que sem d\u00favida facilita a vida do cr\u00edtico: parece, por exemplo, que rar\u00edssimas pessoas leram tudo o que Victor Hugo escreveu (a\u00ed incluindo cartas e textos n\u00e3o voltados \u00e0 publica\u00e7\u00e3o). Enfim. Kafka \u00e9 um dos meus autores preferidos, de Borges n\u00e3o sou assim t\u00e3o f\u00e3 e de Beckett eu s\u00f3 tinha lido a famosa pe\u00e7a de teatro \u201cEsperando Godot\u201d, em que uns vagabundos ficam esperando um sujeito que n\u00e3o chega nunca. Irland\u00eas que escrevia em ingl\u00eas e franc\u00eas, Beckett (1906-1989) era inicialmente mais conhecido pela pe\u00e7a supracitada, mas hoje em dia parece que a sua &#8220;trilogia do p\u00f3s-guerra&#8221;, composta pelos romances \u201cMurphy\u201d, \u201cMalone Morre\u201d (sobre o qual vou comentar aqui) e \u201cO Inomin\u00e1vel\u201d, \u00e9 considerada o auge de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cMalone Morre\u201d \u00e9 contado em primeira pessoa pelo pr\u00f3prio Malone, um inv\u00e1lido que est\u00e1 num quarto de hospital (ou asilo) e come\u00e7a a contar hist\u00f3rias para passar o tempo. Uma delas \u00e9 sobre um rapaz quase deficiente mental chamado Sapo, que pertence \u00e0 fam\u00edlia Saposcat. Seus pais preveem um grande futuro para ele, mas o garoto n\u00e3o entende direito o que eles querem, e s\u00f3 quer saber de andar no meio da natureza, que ele adora, meio sem rumo. A fam\u00edlia Louis \u00e9 composta pelo pai, pela m\u00e3e e dois filhos. O chefe da fam\u00edlia, chamado por Malone de Grande Louis, \u00e9 um sujeito violento e que tem grande prazer em seu trabalho, que \u00e9 sangrar e esquartejar porcos. Outro personagem criado durante as digress\u00f5es do inv\u00e1lido \u00e9 o idoso Macmann, que se deita no ch\u00e3o num parque durante uma forte chuva e acorda num asilo. L\u00e1 ele tem um t\u00f3rrido caso de amor com uma idosa designada para cuidar dele.<!--more--><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que conta as hist\u00f3rias dos personagens que criou, Malone descreve o dia-a-dia no hospital ou asilo onde est\u00e1 internado: as dificuldades de locomo\u00e7\u00e3o, de conseguir um caderno para escrever, de conseguir um recipiente para suas necessidades. Ele mal consegue ver a janela, mas o que ele enxerga \u00e9 suficiente para saber que tem um lago logo ali.<\/p>\n<p>Nada \u00e9 claro em \u201cMalone Morre\u201d. O leitor fica sem saber direito onde o narrador est\u00e1, como chegou l\u00e1, e quem cuida dele. As hist\u00f3rias que ele conta podem ser fic\u00e7\u00e3o, mas t\u00eam pontos em comum com a pr\u00f3pria vida de Malone. \u00c9 inevit\u00e1vel o leitor se perguntar, por exemplo, se Macmann, que vai para um asilo, n\u00e3o \u00e9 o pr\u00f3prio Malone. Extrapolando um pouco, ele n\u00e3o seria o jovem Sapo? Ou um membro da fam\u00edlia Louis?<\/p>\n<p>Ficamos sem saber. Mas n\u00e3o importa \u2013 ao contr\u00e1rio do que Paulo Francis insinuou, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa da pequena extens\u00e3o que um livro como \u201cMalone Morre\u201d \u00e9 um cl\u00e1ssico. Claustrof\u00f3bico, multifacetado, \u201cMalone Morre\u201d \u00e9 desagrad\u00e1vel \u00e0s vezes, mas brilhante sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se a mem\u00f3ria n\u00e3o me trai, Paulo Francis uma vez escreveu que autores como Borges, Kafka e Samuel Beckett (este, vencedor do Nobel de 1969) eram muito estudados nas universidades porque tinham obras curtas, o que sem d\u00favida facilita a vida do cr\u00edtico: parece, por exemplo, que rar\u00edssimas pessoas leram tudo o que Victor Hugo escreveu (a\u00ed incluindo cartas e textos n\u00e3o voltados \u00e0 publica\u00e7\u00e3o). Enfim. Kafka \u00e9 um dos meus autores preferidos, de Borges n\u00e3o sou assim t\u00e3o f\u00e3 e de Beckett eu s\u00f3 tinha lido a famosa pe\u00e7a de teatro \u201cEsperando Godot\u201d, em que uns vagabundos ficam esperando um sujeito que n\u00e3o chega nunca. Irland\u00eas que escrevia em ingl\u00eas e franc\u00eas, Beckett (1906-1989) era inicialmente mais conhecido pela pe\u00e7a supracitada, mas hoje em dia parece que a sua &#8220;trilogia do p\u00f3s-guerra&#8221;, composta pelos romances \u201cMurphy\u201d, \u201cMalone Morre\u201d (sobre o qual vou comentar aqui) e \u201cO Inomin\u00e1vel\u201d, \u00e9 considerada o auge de sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. \u201cMalone Morre\u201d \u00e9 contado em primeira pessoa pelo pr\u00f3prio Malone, um inv\u00e1lido que est\u00e1 num quarto de hospital (ou asilo) e come\u00e7a a contar hist\u00f3rias para passar o tempo. Uma delas \u00e9 sobre um rapaz quase deficiente mental chamado Sapo, que pertence \u00e0 fam\u00edlia Saposcat. Seus pais preveem um grande futuro para ele, mas o garoto n\u00e3o entende direito o que eles querem, e s\u00f3 quer saber de andar no meio da natureza, que ele adora, meio sem rumo. A fam\u00edlia Louis \u00e9 composta pelo pai, pela m\u00e3e e dois filhos. O chefe da fam\u00edlia, chamado por Malone de Grande Louis, \u00e9 um sujeito violento e que tem grande prazer em seu trabalho, que \u00e9 sangrar e esquartejar porcos. Outro personagem criado durante as digress\u00f5es do inv\u00e1lido \u00e9 o idoso Macmann, que se deita no ch\u00e3o num parque durante uma forte chuva e acorda num asilo. L\u00e1 ele tem um t\u00f3rrido caso de amor com uma idosa designada para cuidar dele.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2815,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[363],"class_list":["post-2814","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-samuel-beckett","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2814"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2814\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2818,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2814\/revisions\/2818"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2815"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}