{"id":2787,"date":"2016-08-05T01:39:41","date_gmt":"2016-08-05T04:39:41","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2787"},"modified":"2016-08-08T23:32:30","modified_gmt":"2016-08-09T02:32:30","slug":"prosas-apatridas-de-julio-ramon-ribeyro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2787","title":{"rendered":"\u201cProsas Ap\u00e1tridas\u201d, de J\u00falio Ram\u00f3n Ribeyro"},"content":{"rendered":"<p>Pouco conhecido no Brasil, o escritor peruano J\u00falio Ram\u00f3n Ribeyro (1929-1994) teve recentemente lan\u00e7ado seu livro \u201cProsas Ap\u00e1tridas\u201d no Brasil pela Editora Rocco (160 p\u00e1ginas). Na introdu\u00e7\u00e3o, o autor explica que o \u201cap\u00e1tridas\u201d a que se refere o t\u00edtulo n\u00e3o corresponde \u201c\u00e0s prosas de um ap\u00e1trida ou de algu\u00e9m que, sem s\u00ea-lo, se considera como tal\u201d. Segundo Ribeyro, o livro, na verdade, \u00e9 composto de \u201ctextos que n\u00e3o encontraram lugar\u201d em seus livros j\u00e1 publicados e que erravam entre seus pap\u00e9is, \u201csem destino nem fun\u00e7\u00e3o precisos\u201d. Al\u00e9m disso, \u201ctrata-se de textos que n\u00e3o se emncaixam plenamente em nenhum g\u00eanero, pois n\u00e3o s\u00e3o poemas em prosa, nem p\u00e1ginas de um di\u00e1rio, nem anota\u00e7\u00f5es destinadas a um desenvolvimento posterior\u201d. \u00c9 por isto que o autor os considera \u201cap\u00e1tridas, pois carecem de um territ\u00f3rio pr\u00f3prio\u201d.<\/p>\n<p>\u201cProsas ap\u00e1tridas\u201d \u00e9 composto por 200 pequenos textos em que o autor fala da vida de um peruano em Paris \u2013 onde passou boa parte da vida -, da morte, da fam\u00edlia, da literatura, dos passantes na rua, dos relacionamentos.<!--more--><\/p>\n<p>Segundo Ribeyro, \u201cconhecer o corpo de uma mulher \u00e9 uma tarefa t\u00e3o lenta e t\u00e3o louv\u00e1vel como aprender uma l\u00edngua morta. A cada noite \u00e9 acrescentada uma nova comarca a nosso prazer e um novo s\u00edmbolo a nosso j\u00e1 abundante vocabul\u00e1rio. Mas sempre restar\u00e3o mist\u00e9rios por revelar\u201d.<\/p>\n<p>Um tema caro ao autor \u00e9 a diferen\u00e7a entre a erudi\u00e7\u00e3o e a cultura: \u201cum homem que conhece a dedo todo o teatro de Beaumarchais \u00e9 um erudito, mas culto \u00e9 aquele que, tendo lido apenas \u2018As bodas de F\u00edgaro\u2019, percebe a rela\u00e7\u00e3o que existe entre essa obra e a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, ou entre seu autor e os intelectuais de nossa \u00e9poca\u201d. Comentando sobre um autor latino-americano cujo nome n\u00e3o \u00e9 citado, ele conclui, ferino: \u201ca cultura n\u00e3o \u00e9 um dep\u00f3sito de autores lidos, e sim uma forma de raciocinar. Um homem culto que cita muito \u00e9 um ignorante. \u201d<\/p>\n<p>Este seu amor pela cultura, infelizmente, \u00e9 misturado com um indisfar\u00e7\u00e1vel esnobismo: \u201cos dois faxineiros franceses da esta\u00e7\u00e3o do metr\u00f4, com seus macac\u00f5es azuis, falando em g\u00edria, ou melhor, grunhindo sobre seu trabalho. (&#8230;) In\u00fatil perguntar-lhes o que opinam sobre a Guerra do Vietn\u00e3 ou sobre a energia nuclear. S\u00e3o justamente os tipos que fazem fracassar as pesquisas de opini\u00e3o p\u00fablica\u201d. Sua conclus\u00e3o n\u00e3o poderia ser mais arrogante: \u201c\u00e9 verdade que 1789 produziu a burguesia mais inteligente do mundo, mas ao mesmo tempo milhares de salsicheiros, de zeladores e de faxineiros de metr\u00f4\u201d.<\/p>\n<p>O tipo do livro que \u00e9 \u201cProsas Ap\u00e1tridas\u201d me fazia lembrar, durante a leitura, a todo o tempo dos Ensaios de Montaigne, sobre os quais j\u00e1 comentei no meu site. N\u00e3o s\u00f3 o estilo dos dois \u00e9 semelhante; a melancolia do fil\u00f3sofo franc\u00eas do s\u00e9culo XVI tamb\u00e9m \u00e9: \u201cS\u00eaneca, Manrique, Montaigne, Quevedo, Heidegger, para citar de uma verdade essencial, que com frequ\u00eancia esquecemos: a presen\u00e7a da morte em nossa vida. Citarei s\u00f3 Montaigne, pois resume o sentimento de todos na forma mais cl\u00e1ssica e ao mesmo termo mais moderna: \u2018Desde o dia do nosso nascimento, nos encaminhamos para a morte&#8230; Tudo o que voc\u00ea viver ser\u00e1 roubado da vida, e \u00e0s custas dela&#8230; Voc\u00ea est\u00e1 na morte enquanto estiver na vida\u2019\u201d.<\/p>\n<p>Alguns trechos de \u201cProsas Ap\u00e1tridas\u201d s\u00e3o de pura sabedoria: \u201cos anos nos afastam da inf\u00e2ncia sem levar-nos necessariamente \u00e0 maturidade. Um dos poucos m\u00e9ritos que admito em um autor como Gombrowicz \u00e9 ter insistido, at\u00e9 o grotesco, no destino imaturo do homem. \u201d<\/p>\n<p>A originalidade do pensamento de Ribeyro pode ser encontrada por exemplo no trecho a seguir, em que ele fala de objetos \u201cirrecuper\u00e1veis\u201d, que \u201cn\u00e3o transigem com nada e que, como castigo por seu esp\u00edrito subversivo, s\u00e3o confinados no fundo de uma gaveta ou na escurid\u00e3o de um por\u00e3o. Objetos terr\u00edveis, condenados, que devem estar tramando em sil\u00eancio alguma vingan\u00e7a atroz. \u201d<\/p>\n<p>Suas observa\u00e7\u00f5es sobre desconhecidos na rua s\u00e3o originais: \u201cseu rosto tem a express\u00e3o do homem que acaba de escapar de um terr\u00edvel acidente, de um naufr\u00e1gio, no qual a morte teve tempo de lhe imprimir sua marca de propriedade. \u201d<\/p>\n<p>Melanc\u00f3licos, ferinos, l\u00edricos, arrogantes ou pessimistas, mas sempre instigantes, os 200 textos curtos de \u201cProsas Ap\u00e1tridas\u201d podem at\u00e9 apresentar momentos desagrad\u00e1veis aqui e ali. Mas o livro como um todo \u00e9 muito interessante. Espero que os trechos que escolhi, acima, tenham conseguido passar esta impress\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco conhecido no Brasil, o escritor peruano J\u00falio Ram\u00f3n Ribeyro (1929-1994) teve recentemente lan\u00e7ado seu livro \u201cProsas Ap\u00e1tridas\u201d no Brasil pela Editora Rocco (160 p\u00e1ginas). Na introdu\u00e7\u00e3o, o autor explica que o \u201cap\u00e1tridas\u201d a que se refere o t\u00edtulo n\u00e3o corresponde \u201c\u00e0s prosas de um ap\u00e1trida ou de algu\u00e9m que, sem s\u00ea-lo, se considera como tal\u201d. Segundo Ribeyro, o livro, na verdade, \u00e9 composto de \u201ctextos que n\u00e3o encontraram lugar\u201d em seus livros j\u00e1 publicados e que erravam entre seus pap\u00e9is, \u201csem destino nem fun\u00e7\u00e3o precisos\u201d. 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