{"id":2755,"date":"2016-07-20T10:52:29","date_gmt":"2016-07-20T13:52:29","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2755"},"modified":"2016-08-05T08:08:16","modified_gmt":"2016-08-05T11:08:16","slug":"por-dentro-do-coracao-selvagem-de-clarice-lispector","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2755","title":{"rendered":"&#8220;Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem&#8221;, de Clarice Lispector"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se \u00e9 por causa da minha forma\u00e7\u00e3o de engenheiro (provavelmente n\u00e3o), mas, quando leio um livro, tendo a gostar de uma tem\u00e1tica mais ou menos objetiva. Fico fascinado com os longos coment\u00e1rios paralelos nas hist\u00f3rias de Proust, em que ele come\u00e7a a contar alguma coisa que est\u00e1 relacionada ao fio principal da hist\u00f3ria, utiliza p\u00e1ginas e p\u00e1ginas e, quando come\u00e7o a achar que ele se perdeu, ele retoma o que estava contando. Este meu gosto pela objetividade tamb\u00e9m me faz ter alguma dificuldade na leitura de poesia, de maneira geral.<\/p>\n<p>De todo modo, h\u00e1 leituras que nos desafiam exatamente por nos retirar da zona de conforto como leitores, e \u201cPerto\u00a0do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem\u201d, o primeiro romance de Clarice Lispector, publicado quando ela tinha vinte anos, se enquadra neste caso.<!--more--><\/p>\n<p>O livro conta a hist\u00f3ria de Joana: ela perde a m\u00e3e quando era muito crian\u00e7a e passa a ser criada pelo pai, que falece alguns anos mais tarde \u2013 e vai ent\u00e3o viver com um casal de tios. L\u00e1 a coisa n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, e a tia chega a cham\u00e1-la de \u201cv\u00edbora\u201d antes de mand\u00e1-la para um col\u00e9gio interno &#8211; onde Joana tem uma paix\u00e3o avassaladora por um professor. Anos mais tarde, ela se casa com Ot\u00e1vio (n\u00e3o fica claro se ele \u00e9 s\u00f3 advogado ou advogado e escritor), que volta a ter um caso com uma antiga namorada, L\u00eddia, depois do casamento. Joana abandona o marido depois que sabe do romance extraconjugal dele e passa a viver num tri\u00e2ngulo amoroso com um homem \u2013 cujo nome n\u00e3o aparece no livro \u2013 sustentado pela esposa.<\/p>\n<p>Tudo o que \u00e9 contado acima n\u00e3o aparece sempre com clareza para quem est\u00e1 lendo, que tem de agir frequentemente como se estivesse montando um quebra-cabe\u00e7as mental. Al\u00e9m disso \u2013 e aqui o leitor que est\u00e1 em busca de objetividade sofre \u2013, os estados mentais de Joana (e tamb\u00e9m os de Ot\u00e1vio, em menor grau) v\u00e3o sendo descritos \u00e0s vezes em sequ\u00eancia, \u00e0s vezes aleatoriamente: eu nem sempre sabia por que Clarice Lispector estava descrevendo um estado de esp\u00edrito ou outro. Frequentemente, no romance, o detalhe parece se sobrepor ao todo.<\/p>\n<p>E, quer saber? \u201cPerto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem\u201d n\u00e3o deixa de ser um\u00a0obra-prima porque as coisas ali \u00e0s vezes parecem n\u00e3o fazer muito sentido dentro do todo que \u00e9 o romance.<\/p>\n<p>Afinal de contas, nem sempre tudo o que acontece na vida faz sentido, n\u00e9?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se \u00e9 por causa da minha forma\u00e7\u00e3o de engenheiro (provavelmente n\u00e3o), mas, quando leio um livro, tendo a gostar de uma tem\u00e1tica mais ou menos objetiva. Fico fascinado com os longos coment\u00e1rios paralelos nas hist\u00f3rias de Proust, em que ele come\u00e7a a contar alguma coisa que est\u00e1 relacionada ao fio principal da hist\u00f3ria, utiliza p\u00e1ginas e p\u00e1ginas e, quando come\u00e7o a achar que ele se perdeu, ele retoma o que estava contando. Este meu gosto pela objetividade tamb\u00e9m me faz ter alguma dificuldade na leitura de poesia, de maneira geral. De todo modo, h\u00e1 leituras que nos desafiam exatamente por nos retirar da zona de conforto como leitores, e \u201cPerto\u00a0do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem\u201d, o primeiro romance de Clarice Lispector, publicado quando ela tinha vinte anos, se enquadra neste caso.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2756,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[348],"class_list":["post-2755","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-clarice-lispector","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2755"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2755\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2795,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2755\/revisions\/2795"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2756"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}