{"id":2468,"date":"2016-03-24T10:57:58","date_gmt":"2016-03-24T13:57:58","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2468"},"modified":"2016-03-24T10:57:58","modified_gmt":"2016-03-24T13:57:58","slug":"louise-brooks","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2468","title":{"rendered":"Louise Brooks"},"content":{"rendered":"<div><\/div>\n<div>Louise Brooks \u00e9 um dos maiores mitos do cinema em todos os tempos, por sua presen\u00e7a luminosa em filmes como A Caixa de Pandora, por sua beleza arrebatadora &#8211; mas tamb\u00e9m por sua personalidade destrutiva, impulsiva e fascinante.<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>Ela nasceu em Wichita, pequena cidade do estado norte-americano do Kansas, em novembro de 1909, filha de Leonard Brooks, um pr\u00f3spero procurador e de Myra (Rude) Brooks. Sua m\u00e3e n\u00e3o dava a Louise e seus irm\u00e3os uma aten\u00e7\u00e3o convencional &#8211; mas desde cedo incentivou os filhos no caminho art\u00edstico. Aos nove anos Louise foi molestada sexualmente por um vizinho &#8211; ao saber disto, sua m\u00e3e perguntou-lhe: mas o que voc\u00ea fez ao pobre homem? N\u00e3o se sabe as conseq\u00fc\u00eancias deste fato no resto da vida de Louise, que j\u00e1 aos quatorze anos tinha suas primeiras experi\u00eancias sexuais volunt\u00e1rias &#8211; e que acabou tendo um comportamento sexual prom\u00edscuo por praticamente todo o restante da vida.<\/p>\n<p>Louise adorava a dan\u00e7a, e aos quinze anos j\u00e1 excursionava na companhia da grande core\u00f3grafa Martha Graham. Saiu de l\u00e1 ap\u00f3s brigar com alguns de seus membros &#8211; este tipo de rompimento foi uma constante em toda a sua carreira. Depois de participar de espet\u00e1culos de dan\u00e7a em outras companhias, acabou recebendo um convite para fazer um pequeno papel no filme The Street of Forgotten Men, de 1925. At\u00e9 1938 participou de 24 filmes americanos, e nestes seus pap\u00e9is principais foram em Beggars of Life (comWallace Beery &amp; Richard Arlen, de 1928) e em A Girl in Every Port (com Victor McLaglen, de 1928). Em 1928, j\u00e1 reconhecida como grande estrela nos Estados Unidos, vai at\u00e9 a Alemanha estrear o filme que garantiu seu lugar na posteridade: A Caixa de Pandora, do grande diretor austr\u00edaco G.W.Pabst. Era um filme mudo na \u00e9poca do in\u00edcio do cinema falado, e este fato, al\u00e9m da &#8220;imoralidade&#8221; do tema, fez com que o filme fosse recebido friamente nos Estados Unidos. De volta \u00e0 sua terra natal, Louise Brooks toma uma decis\u00e3o que arruinaria para sempre sua carreira de atriz: recusa-se terminantemente a dublar suas falas no filme da Paramount Canary Murder Case, que era originalmente mudo mas que estava sendo transformado em sonoro &#8211; e no qual ela tinha atuado pouco antes de ir para Alemanha. Esta recusa fez com que o diretor da Paramount na \u00e9poca, B.P.Schulberg, prometesse vingan\u00e7a contra a atriz. Logo depois disto, em 1929, Louise Brooks ainda faria dois filmes como protagonista na Europa, ambos com pouco \u00eaxito: Das Tagebuch einer Verlorenen (Di\u00e1rio de uma garota perdida), de Pabst, na Alemanha, e Prix de Beaut\u00e9, na Fran\u00e7a. De volta aos Estados Unidos, ela sente o peso da vingan\u00e7a de Schulberg: n\u00e3o s\u00f3 a Paramount n\u00e3o lhe dava mais pap\u00e9is importantes, como os outros est\u00fadios tamb\u00e9m passaram virar-lhe as costas. A partir de ent\u00e3o s\u00f3 consegue pequenos pap\u00e9is, e come\u00e7a a ter s\u00e9rias dificuldades financeiras. Seu \u00faltimo papel \u00e9 um Overland Stage Raiders, um western barato, realizado em 1938, com John Wayne em in\u00edcio de carreira. Depois disto, volta para sua terra natal, tenta sobreviver da dan\u00e7a, tenta v\u00e1rios empregos (pode ter trabalhado mesmo de acompanhante), e finalmente volta para Nova Iorque. Em grande parte por seu temperamento dif\u00edcil (ela dizia que gostava de irritar pessoas) fracassa em tudo que tenta nesta \u00e9poca. Sobrevive principalmente gra\u00e7as a doa\u00e7\u00f5es de amigos e amantes &#8211; uma rela\u00e7\u00e3o antiga, William Paley, a partir de 1953 lhe d\u00e1 uma pens\u00e3o mensal, que pode ter evitado que Louise Brooks se suicidasse.<\/p>\n<p>Completamente esquecida e arruinada, pode-se dizer que Louise Brooks &#8220;renasceu&#8221; a partir de 1955. Neste ano \u00e9 feita uma grande mostra de cinema na Cinemateca Francesa, e dois cartazes gigantes mostravam Louise Brooks e Falconetti (atriz principal de A Paix\u00e3o de Joana D`Arc ,de Dreyer), ambas grandes mitos do cinema que tiveram carreira curta. Perguntado sobre a compara\u00e7\u00e3o entre Louise e outros dois \u00edcones de sua era, o chefe da Mostra, Henri Langlois, declarou: &#8220;n\u00e3o h\u00e1 nenhuma Garbo. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma Dietrich. H\u00e1 somente Louise Brooks&#8221;. A partir desta mostra, o curador de filmes John Card procura Louise Brooks, conta-lhe de seu sucesso em Paris, ao que ela responde de maneira pungente: o mist\u00e9rio da vida&#8230; quem poderia imaginar que voc\u00ea, 30 anos depois, me trouxesse a primeira alegria que eu jamais tive na minha carreira de atriz de cinema. A partir de ent\u00e3o, Louise Brooks, que j\u00e1 tinha escrito suas mem\u00f3rias e as jogado ao fogo, come\u00e7a a escrever artigos para revistas especializadas sobre cinema em geral e suas experi\u00eancias cinematogr\u00e1ficas em particular (estes artigos, mais tarde, foram reunidos no best-seller Lulu em Nova Iorque &#8211; Lulu \u00e9 o nome de seu personagem mais famoso, do filme A Caixa de Pandora). Ela tinha uma grande cultura liter\u00e1ria, escrevia muito bem e seus artigos eram grandemente elogiados. Passa a viver em Rochester, Nova Iorque, e come\u00e7a a ser objeto de culto em todo o mundo. Seus \u00faltimos anos foram mais tranq\u00fcilos. Ela vivia praticamente reclusa, tinha poucos amigos e, embora muito solicitada, dava pouqu\u00edssimas entrevistas. Como tinha feito durante praticamente toda a vida, bebia gim e fumava quase que diariamente. Converteu-se ao Catolicismo e mais tarde abandonou a Igreja. At\u00e9 o final (faleceu em 1985) seu temperamento continuou dif\u00edcil, imprevis\u00edvel &#8211; \u00e0s vezes raivoso, \u00e0s vezes am\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que faz Louise Brooks permanecer objeto de culto, enquanto a enorme maioria das atrizes do cinema mudo foram praticamente esquecidas? Pelo seu filme mais importante, A Caixa de Pandora (infelizmente o \u00fanico que assisti at\u00e9 hoje, al\u00e9m de um excelente document\u00e1rio, Louise Brooks &#8211; \u00e0 procura de Lulu), ela chegou a ser criticada, na \u00e9poca, por n\u00e3o transmitir emo\u00e7\u00f5es &#8211; isto devido ao fato de que, no cinema mudo, a t\u00e9cnica recorrente dizia que se deveria exagerar nas express\u00f5es, enquanto que a t\u00e9cnica de Louise Brooks era extremamente natural. Sua interpreta\u00e7\u00e3o era totalmente moderna, e \u00e9 por isto que se diz que ela estava muito \u00e0 frente de seu tempo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disto, A Caixa de Pandora, baseado na pe\u00e7a hom\u00f4nima de Wedekind, \u00e9 reconhecido unanimemente como uma obra-prima absoluta do cinema. Ele conta a hist\u00f3ria de Lulu, mo\u00e7a sexualmente liberada que, sem o desejar, causa a desgra\u00e7a dos homens que se relacionam com ela &#8211; o que acaba causando a desgra\u00e7a dela tamb\u00e9m. A identifica\u00e7\u00e3o da personagem com a atriz \u00e9 impressionante &#8211; o pr\u00f3prio Pabst, irritado com Louise Brooks, chegou a dizer-lhe certa feita: se voc\u00ea continuar assim vai acabar como Lulu.<\/p>\n<p>Quando se fala no porqu\u00ea de sua perman\u00eancia no tempo, tamb\u00e9m n\u00e3o se pode esquecer da beleza arrebatadora de seu rosto, de seu olhar penetrante e forte, de seu bel\u00edssimo corpo, e mesmo de seu penteado, que era sua marca registrada. Ela era extremamente carism\u00e1tica &#8211; \u00e9 imposs\u00edvel desgrudar os olhos dela quando ela aparece na tela.<\/p>\n<p>Mas possivelmente o segredo de Louise Brooks seja o mesmo de Frank Sinatra: um comentarista, certa vez, disse que quem se deleita com o poder da interpreta\u00e7\u00e3o da Voz deve estar preparado para saber tamb\u00e9m que sua for\u00e7a interna era t\u00e3o enorme que freq\u00fcentemente descambava para a viol\u00eancia contra inimigos e desafetos. Ou seja, a sua energia vital era t\u00e3o imensa que muitas vezes nem ele mesmo, Frank Sinatra, conseguia control\u00e1-la. Louise Brooks, beberrona, prom\u00edscua, irasc\u00edvel, impulsiva, irritante, inteligente, bel\u00edssima e talentosa, possivelmente era formada com o mesmo material em permanente ebuli\u00e7\u00e3o de que Frank Sinatra era formado.<\/p><\/div>\n<p><em>(texto escrito em 13-7-2002)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Louise Brooks \u00e9 um dos maiores mitos do cinema em todos os tempos, por sua presen\u00e7a luminosa em filmes como A Caixa de Pandora, por sua beleza arrebatadora &#8211; mas tamb\u00e9m por sua personalidade destrutiva, impulsiva e fascinante.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2465,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[53],"tags":[335],"class_list":["post-2468","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema","tag-louise-brooks","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2468","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2468"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2468\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2471,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2468\/revisions\/2471"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2465"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}