{"id":2459,"date":"2016-03-24T10:21:51","date_gmt":"2016-03-24T13:21:51","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2459"},"modified":"2016-03-24T10:35:36","modified_gmt":"2016-03-24T13:35:36","slug":"madredeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2459","title":{"rendered":"Madredeus"},"content":{"rendered":"<p>Uma linda\u00a0mulher com uma voz potente e emocionante, dois viol\u00f5es, um sintetizador e um baixo ac\u00fastico (o grupo n\u00e3o tem nenhum tipo de percuss\u00e3o, e na forma\u00e7\u00e3o original n\u00e3o tinha baixo ac\u00fastico &#8211; mas tinha violoncelo e acorde\u00e3o), e todos os integrantes vestidos a car\u00e1ter: o grupo portugu\u00eas Madredeus impressiona pela m\u00fasica, pelas letras&#8230; e pelo visual.<\/p>\n<p>O estilo do grupo est\u00e1 praticamente na fronteira do popular e do erudito, gra\u00e7as \u00e0s atmosferas criadas e \u00e0 instrumenta\u00e7\u00e3o utilizada. O som \u00e9 extremamente original &#8211; uma releitura, uma moderniza\u00e7\u00e3o do fado portugu\u00eas. As m\u00fasicas s\u00e3o freq\u00fcentemente melanc\u00f3licas, tristes mesmo, e a tem\u00e1tica portuguesa da &#8220;saudade&#8221; \u00e9 utilizada \u00e0 exaust\u00e3o. Interessante notar tamb\u00e9m que o Madredeus \u00e9 considerado por muita gente uma m\u00fasica para relaxamento: quem sabe o grupo fosse at\u00e9 parente da new age music, se a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse t\u00e3o intensa e apaixonada.<!--more--><\/p>\n<p>De todos os instrumentistas que passaram pelo Madredeus, os mais importantes e hoje os \u00fanicos remanescentes da forma\u00e7\u00e3o original do grupo s\u00e3o Pedro Ayres Magalh\u00e3es, violonista e principal compositor, e Teresa Salgueiro, a vocalista.<\/p>\n<p>O grupo lan\u00e7ou seu primeiro disco, Os dias da Madredeus (Madredeus \u00e9 o nome do bairro aonde come\u00e7aram os ensaios), em 1987. Este \u00e1lbum tem qualidade da grava\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, mas a espontaneidade mais a originalidade e qualidade das can\u00e7\u00f5es compensam com sobras as defici\u00eancias t\u00e9cnicas. A tem\u00e1tica presente em grande parte da carreira j\u00e1 est\u00e1 l\u00e1: letras melanc\u00f3licas e um tanto generalistas, que falam mais de impress\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es do que descri\u00e7\u00e3o de fatos ocorridos.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 em Existir, o disco seguinte, surgido em 1990, que o Madredeus se transforma no grupo que colocou Portugal no mapa-m\u00fandi musical: em m\u00fasicas como O Pastor, A Vontade de Mudar e Confiss\u00e3o o estilo do grupo j\u00e1 est\u00e1 completamente maduro. A interpreta\u00e7\u00e3o de Teresa Salgueiro, ent\u00e3o, \u00e9 um assombro: em compara\u00e7\u00e3o ao \u00e1lbum anterior, sua voz ficou mais aguda, mais precisa, mais apaixonada e muito mais segura. E a grande can\u00e7\u00e3o deste \u00e1lbum \u00e9 mesmo a lancinante O Pomar das Laranjeiras, certamente uma das tr\u00eas melhores m\u00fasicas dos Madredeus.<\/p>\n<p>Em 1992 eles lan\u00e7am o \u00e1lbum duplo ao vivo Lisboa, onde s\u00e3o reinterpretadas can\u00e7\u00f5es dos dois discos anteriores (em m\u00fasicas do primeiro disco de est\u00fadio dos Madredeus, como A Cidade e A Cantiga do Campo Teresa Salgueiro nem parece a mesma cantora, t\u00e3o impressionante \u00e9 sua interpreta\u00e7\u00e3o). Lisboa \u00e9 uma sucess\u00e3o inesquec\u00edvel de pontos altos, e as interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o quase sempre melhores que as originais de est\u00fadio. Como se n\u00e3o bastasse, as tr\u00eas in\u00e9ditas, a animad\u00edssima (para os Madredeus!) A Estrada do Monte e os fados tradicionais Mudar de Vida e Canto de Embalar s\u00e3o m\u00fasicas diferentes das que o Madredeus costumava fazer, e o resultado \u00e9 tamb\u00e9m extraordin\u00e1rio. O grande ponto alto do \u00e1lbum \u00e9 a inacredit\u00e1vel reinterpreta\u00e7\u00e3o de A Vontade de Mudar, originalmente lan\u00e7ada no \u00e1lbum Existir.<\/p>\n<p>Em 1994 surge o \u00e1lbum Esp\u00edrito da Paz, o disco com maior n\u00famero de obras-primas do grupo. J\u00e1 a partir do t\u00edtulo, \u00e9 um \u00e1lbum tranq\u00fcilo e repousante &#8211; mas nem por isto menos emocionante. \u00c9 tamb\u00e9m o \u00e1lbum mais mais impressionista dos Madredeus &#8211; a tend\u00eancia do grupo em falar apenas de sensa\u00e7\u00f5es e sentimentos atinge seu \u00e1pice aqui. Pelo nome das obras-primas presentes neste \u00e1lbum pode-se ter uma id\u00e9ia disto: Sil\u00eancio, Preg\u00e3o (um quase flamenco, com participa\u00e7\u00e3o vocal do violoncelista Francisco Ribeiro), O Mar, Sentimento, Culpa, As Cores do Mar, Ao Longe o Mar, Vem.<\/p>\n<p>Como estavam praticamente sem gravar m\u00fasicas in\u00e9ditas desde 1990, muito material sobrou das sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o de O Esp\u00edrito da Paz. Estas &#8220;sobras&#8221; foram aproveitadas numa trilha sonora de um bom filme inspirado no Madredeus, chamado Lisbon Story, do diretor alem\u00e3o Wim Wenders. Esta trilha sonora chamou-se Ainda, e, apesar de grandes momentos como C\u00e9u da Mouraria e o quase tango Alfama, fica a sensa\u00e7\u00e3o de um \u00e1lbum de sobras mesmo, ainda mais se comparado com a maravilha que \u00e9 O Esp\u00edrito da Paz.<\/p>\n<p>Em 1997, com o \u00e1lbum O Para\u00edso, acontece uma revolu\u00e7\u00e3o no grupo: saem o violoncelo e o acorde\u00e3o, e entra o baixo ac\u00fastico. Isto representa uma grande mudan\u00e7a de sonoridade, pois a grande quantidade de cordas no primeiro plano deixam o som mais dedilhado e menos &#8220;et\u00e9reo&#8221;. E, ainda mais fundamental, a tem\u00e1tica das letras muda completamente: tudo o que era antes impreciso e vago passa a ser contado de forma direta e apaixonada. O Para\u00edso \u00e9 um disco de amor, de abandono, de saudade, com sentimentos transbordando diretamente na maioria das faixas. Apesar de ser um tanto irregular (algumas can\u00e7\u00f5es, como A Tempestade e O Fim da Estrada s\u00e3o chatas mesmo), o \u00e1lbum tem, como sempre, grandes obras-primas: Haja o que Houver, Andorinha da Primavera e Coisas Pequenas. E tem a can\u00e7\u00e3o N\u00e3o Muito Distante, o \u00e1pice supremo do grupo. Uma can\u00e7\u00e3o de dor e saudade, forte e emocionante. Eu tenho certeza que Bach assinaria N\u00e3o Muito Distante com grande satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No mesmo esquema do \u00e1lbum duplo ao vivo Lisboa, surge, em 1998, o tamb\u00e9m duplo ao vivo O Porto. Apesar de belas in\u00e9ditas como Alma e Os Foli\u00f5es, O Porto \u00e9 uma decep\u00e7\u00e3o completa. \u00c9 que simplesmente n\u00e3o d\u00e1 pra entender o que aconteceu com a Teresa Salgueiro neste disco: com grande parte dele baseado em can\u00e7\u00f5es de O Para\u00edso, n\u00e3o h\u00e1 em O Porto nenhuma interpreta\u00e7\u00e3o que chegue nem perto daquelas do \u00e1lbum de est\u00fadio de 1997. Perto de O Para\u00edso, O Porto \u00e9 frouxo, fraco, sem vida. Claro, se voc\u00ea n\u00e3o conhece nada dos Madredeus, este \u00e9 um \u00f3timo \u00e1lbum, sem nenhuma d\u00favida&#8230; mas apenas neste caso.<\/p>\n<p>Em 2000 surge Movimento, o \u00e1lbum mais estranho do grupo. Apesar de m\u00fasicas maravilhosas como A Lira &#8211; Solid\u00e3o no Oceano, O Olhar e Um Raio de Luz Ardente, na maioria delas, como Anseio e Ecos na Catedral por exemplo, a sonoridade \u00e9 diferente de tudo o que o Madredeus fez anteriormente: seria a quantidade enorme de dedilhados, quase abafando a melodia, um sinal de que o maior grupo portugu\u00eas de todos os tempos, estaria virando um neg\u00f3cio assim&#8230; new age? Queira Deus que n\u00e3o.<\/p>\n<p><em>(Texto escrito em 2001)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma linda\u00a0mulher com uma voz potente e emocionante, dois viol\u00f5es, um sintetizador e um baixo ac\u00fastico (o grupo n\u00e3o tem nenhum tipo de percuss\u00e3o, e na forma\u00e7\u00e3o original n\u00e3o tinha baixo ac\u00fastico &#8211; mas tinha violoncelo e acorde\u00e3o), e todos os integrantes vestidos a car\u00e1ter: o grupo portugu\u00eas Madredeus impressiona pela m\u00fasica, pelas letras&#8230; e pelo visual. O estilo do grupo est\u00e1 praticamente na fronteira do popular e do erudito, gra\u00e7as \u00e0s atmosferas criadas e \u00e0 instrumenta\u00e7\u00e3o utilizada. O som \u00e9 extremamente original &#8211; uma releitura, uma moderniza\u00e7\u00e3o do fado portugu\u00eas. As m\u00fasicas s\u00e3o freq\u00fcentemente melanc\u00f3licas, tristes mesmo, e a tem\u00e1tica portuguesa da &#8220;saudade&#8221; \u00e9 utilizada \u00e0 exaust\u00e3o. Interessante notar tamb\u00e9m que o Madredeus \u00e9 considerado por muita gente uma m\u00fasica para relaxamento: quem sabe o grupo fosse at\u00e9 parente da new age music, se a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse t\u00e3o intensa e apaixonada.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2460,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[186],"class_list":["post-2459","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-madredeus","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2459","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2459"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2459\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2462,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2459\/revisions\/2462"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2460"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}