{"id":2419,"date":"2016-03-07T02:16:08","date_gmt":"2016-03-07T05:16:08","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2419"},"modified":"2016-03-07T02:40:38","modified_gmt":"2016-03-07T05:40:38","slug":"dois-dias-uma-noite-de-jean-pierre-e-luc-dardenne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2419","title":{"rendered":"&#8220;Dois dias, uma noite&#8221;, de Jean-Pierre e Luc Dardenne"},"content":{"rendered":"<p>Sandra esteve de licen\u00e7a em seu emprego na f\u00e1brica por um longo tempo, devido a uma fort\u00edssima depress\u00e3o. Antes de ela reassumir o posto, o chefe da se\u00e7\u00e3o em que ela trabalha faz uma vota\u00e7\u00e3o entre seus subordinados: ou os funcion\u00e1rios recebem um abono de 1000 euros e Sandra perde o emprego, ou ela retoma o posto e eles perdem o abono. Na vota\u00e7\u00e3o, realizada na manh\u00e3 de uma sexta-feira, Sandra perde. Uma colega \u2013 que tinha votado pela sua perman\u00eancia \u2013 insiste com a demitida para que ela v\u00e1 falar com o chefe da se\u00e7\u00e3o, que acaba concordando com uma nova vota\u00e7\u00e3o na segunda-feira pela manh\u00e3. Sandra, ent\u00e3o, tem o final de semana para tentar convencer os colegas que votem a favor dela. Incentivada \u2013 quase que obrigada &#8211; pelo marido, que trabalha como chefe de cozinha (o casal precisa do sal\u00e1rio dela para pagar a hipoteca do apartamento onde moram), ela visita a casa de cada um de seus colegas para pedir os votos pela sua perman\u00eancia. Alguns, que tinham votado pela sua demiss\u00e3o, se emocionam e declaram que estar\u00e3o a favor dela na segunda-feira. Outros s\u00e3o agressivos e lhe comunicam que n\u00e3o v\u00e3o mudar seus votos de jeito nenhum.<!--more--><\/p>\n<p>Esta, em linhas gerais, \u00e9 a hist\u00f3ria de \u201cDois dias, uma noite\u201d, excepcional filme dos irm\u00e3os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, de 2014. O t\u00edtulo se refere ao fim-de-semana em que Sandra (Marion Cotillard, perfeita) tenta influenciar o voto dos colegas para n\u00e3o perder o seu emprego.<\/p>\n<p>Um dos aspectos abordados no filme \u00e9 o desemprego e a crise econ\u00f4mica na Europa, conforme citado por In\u00e1cio Ara\u00fajo em sua cr\u00edtica de 5 de fevereiro de 2015 na Folha de S\u00e3o Paulo. Outro aspecto, que vou comentar aqui, diz respeito \u00e0 solidariedade entre os trabalhadores.<\/p>\n<p>Segundo Contardo Calligaris em seu coment\u00e1rio na Folha de S\u00e3o Paulo de 29 de janeiro de 2015,<\/p>\n<blockquote><p>A classe oper\u00e1ria da minha juventude, se \u00e9 que ela existiu, n\u00e3o existe mais. No seu lugar, no filme, h\u00e1 uma pequena (e terrificante) classe m\u00e9dia, que est\u00e1 disposta a quase tudo para preservar seu status ou para melhor\u00e1-lo marginalmente (quando voc\u00ea assistir ao filme, lembre-se de que mil euros s\u00e3o tr\u00eas mil reais).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda nesta dire\u00e7\u00e3o, Alysson Oliveira (do Cineweb), em 6 de fevereiro de 2015 escreveu que<\/p>\n<blockquote><p>(&#8230;) \u00e9 sintom\u00e1tico que Sandra, ou qualquer outro personagem, n\u00e3o seja uma Norma Rae \u2013 famosa personagem de Sally Field, oper\u00e1ria hero\u00edna que prop\u00f5e uma a\u00e7\u00e3o em conjunto, uma greve. Ningu\u00e9m aqui sequer cogita esse tipo de atitude.<\/p><\/blockquote>\n<p>O fato \u00e9 que, em \u201cDois dias, uma noite\u201d, os colegas de Sandra est\u00e3o diante de uma escolha dif\u00edcil: ou ajud\u00e1-la e perder o abono, ou prejudic\u00e1-la e receb\u00ea-lo. No filme fica claro como a solidariedade nada tem a ver com a condi\u00e7\u00e3o social: por exemplo, dois oper\u00e1rios imigrantes \u2013 ambos em situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica delicada \u2013 votam distintamente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 perman\u00eancia de Sandra no emprego. A solidariedade, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 uma quest\u00e3o de foro \u00edntimo. Neste sentido, em uma passagem brilhante da obra-prima \u201cO homem que amava os cachorros\u201d, do cubano Leonardo Padura, o narrador comenta sobre sua vida em um pa\u00eds comunista:<\/p>\n<blockquote><p>A verdade era que, lendo e escrevendo sobre como a maior utopia que alguma vez os homens tiveram ao alcance da m\u00e3o fora pervertida, mergulhando nas catacumbas de uma hist\u00f3ria que mais parecia um castigo divino que obra de homens \u00e9brios de poder de \u00e2nsias de controle e de pretens\u00f5es de transcend\u00eancia hist\u00f3rica, tinha aprendido que a verdadeira grandeza humana est\u00e1 na pr\u00e1tica da bondade incondicional, na capacidade de dar aos que nada t\u00eam n\u00e3o o que nos sobra, mas uma parte do pouco que temos. Dar at\u00e9 doer, e n\u00e3o fazer pol\u00edtica nem pretender prerrogativas com esta a\u00e7\u00e3o, muito menos praticar a enganosa filosofia de obrigar os outros a aceitar nossos conceitos de bem e da verdade por (acreditarmos) serem os \u00fanicos poss\u00edveis e por (acreditarmos) serem os \u00fanicos poss\u00edveis e por, al\u00e9m disso, deverem estar agradecidos pelo que lhes demos, mesmo que n\u00e3o tivessem pedido.<\/p><\/blockquote>\n<p>Os personagens de \u201cDois dias, uma noite\u201d est\u00e3o diante de duas possibilidades: o \u201cdar at\u00e9 doer\u201d ou a pura indiferen\u00e7a. A resposta do Evangelho e dos irm\u00e3os Dardenne sobre qual a melhor op\u00e7\u00e3o a seguir \u00e9, obviamente, &#8220;dar at\u00e9 doer&#8221;. N\u00e3o \u00e0 toa, Pedro Butcher, em sua cr\u00edtica sobre o filme publicada na Folha de S\u00e3o Paulo de 6 de mar\u00e7o de 2016 &#8211; ao mesmo tempo em que reclama do \u201ccoitadismo\u201d da personagem principal -, comenta que<\/p>\n<blockquote><p>Os filmes dos irm\u00e3os Jean-Pierre e Luc Dardenne sempre tiveram um certo car\u00e1ter religioso. N\u00e3o se trata, evidentemente, de uma abordagem direta da religi\u00e3o, mas de um modo de ver o mundo que inclui, no arco dram\u00e1tico do filme, a busca pela gra\u00e7a e pela compaix\u00e3o (&#8230;). Nunca esse car\u00e1ter religioso esteve t\u00e3o expl\u00edcito quanto em &#8220;Dois Dias, Uma Noite&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso falar em Deus para ser verdadeiramente religioso, eu complementaria. Ali\u00e1s, por outro lado, quantos de n\u00f3s n\u00e3o conhecemos pessoas que usam a religi\u00e3o como cortina de fuma\u00e7a para praticar suas iniquidades?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sandra esteve de licen\u00e7a em seu emprego na f\u00e1brica por um longo tempo, devido a uma fort\u00edssima depress\u00e3o. Antes de ela reassumir o posto, o chefe da se\u00e7\u00e3o em que ela trabalha faz uma vota\u00e7\u00e3o entre seus subordinados: ou os funcion\u00e1rios recebem um abono de 1000 euros e Sandra perde o emprego, ou ela retoma o posto e eles perdem o abono. Na vota\u00e7\u00e3o, realizada na manh\u00e3 de uma sexta-feira, Sandra perde. Uma colega \u2013 que tinha votado pela sua perman\u00eancia \u2013 insiste com a demitida para que ela v\u00e1 falar com o chefe da se\u00e7\u00e3o, que acaba concordando com uma nova vota\u00e7\u00e3o na segunda-feira pela manh\u00e3. Sandra, ent\u00e3o, tem o final de semana para tentar convencer os colegas que votem a favor dela. Incentivada \u2013 quase que obrigada &#8211; pelo marido, que trabalha como chefe de cozinha (o casal precisa do sal\u00e1rio dela para pagar a hipoteca do apartamento onde moram), ela visita a casa de cada um de seus colegas para pedir os votos pela sua perman\u00eancia. Alguns, que tinham votado pela sua demiss\u00e3o, se emocionam e declaram que estar\u00e3o a favor dela na segunda-feira. 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