{"id":2365,"date":"2016-02-15T22:34:39","date_gmt":"2016-02-16T01:34:39","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2365"},"modified":"2016-02-15T22:42:38","modified_gmt":"2016-02-16T01:42:38","slug":"o-homem-que-amava-os-cachorros-de-leonardo-padura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2365","title":{"rendered":"&#8220;O homem que amava os cachorros&#8221;, de Leonardo Padura"},"content":{"rendered":"<p>Nem sempre a leitura de uma obra-prima \u00e9 f\u00e1cil: est\u00e3o a\u00ed os romances de Marcel Proust, William Faulkner e Javier Mar\u00edas que n\u00e3o me deixam mentir. <!--more-->Outros autores escrevem livrosde leitura prazerosa, mas que est\u00e3o distantes de serem cl\u00e1ssicos: s\u00e3o os casos de Nick Hornby e Haruki Murakami. \u00c9 claro que muitas obras-primas permitem uma leitura relativamente f\u00e1cil (casos de \u201cAna Kar\u00eanina\u201d de Tolst\u00f3i ou \u201cO Castelo\u201d de Kafka), mas \u201cO homem que amava os cachorros\u201d, do cubano Leonardo Padura (tamb\u00e9m colunista do jornal Folha de S\u00e3o Paulo), se destaca especialmente pela uni\u00e3o de um estilo saboroso como com uma excepcional qualidade liter\u00e1ria. Se n\u00e3o bastasse isso, a obra \u00e9 representante de uma categoria que normalmente n\u00e3o me agrada muito, o \u201cromance hist\u00f3rico\u201d: eu tendo a achar que ou bem o livro \u00e9 de Hist\u00f3ria ou bem \u00e9 de fic\u00e7\u00e3o \u2013 quando a obra \u00e9 h\u00edbrida, me d\u00e1 a impress\u00e3o de que n\u00e3o cumpre bem nenhum dos dois pap\u00e9is. Preconceito \u00e9 sempre uma coisa besta, n\u00e9? \u201cO homem que amava os cachorros\u201d \u00e9 um romance ao mesmo tempo hist\u00f3rico e espetacular.<\/p>\n<p>O livro conta a hist\u00f3ria de um acontecimento especialmente dram\u00e1tico do s\u00e9culo XX: o assassinato do revolucion\u00e1rio sovi\u00e9tico Leon Trotski no M\u00e9xico, sob as ordens de seu desafeto, o ditador sovi\u00e9tico Josef Stalin. Os cap\u00edtulos s\u00e3o escritos, de maneira mais ou menos alternada, sob tr\u00eas pontos de vista: o do assassino de Trotski, o catal\u00e3o Ram\u00f3n Mercader (que, para se disfar\u00e7ar, utiliza v\u00e1rios outros nomes no decorrer do livro); o do pr\u00f3prio Leon Trotski; e o do personagem fict\u00edcio que faz o papel do \u201cescritor\u201d do romance, o cubano Iv\u00e1n C\u00e1rdenas Maturell. Os cap\u00edtulos referentes a Mercader e a Trotski s\u00e3o escritos em terceira pessoa e os correspondentes a Maturell, em primeira pessoa.<\/p>\n<p>O romance apresenta todo o processo pelo qual passou Ram\u00f3n Mercader para o assassinato de Trotski: espanhol, ele n\u00e3o s\u00f3 ganhou um passaporte belga (com o nome de Jacques Mornard) como foi treinado para \u201cpensar\u201d como um belga totalmente diferente de quem era. Ao contr\u00e1rio do duro revolucion\u00e1rio que era Ram\u00f3n Mercader, \u201cJacques Mornard\u201d era um playboy belga desinteressado por pol\u00edtica &#8211; era o disfarce que seus orientadores sovi\u00e9ticos criaram para que ele pudesse entrar na fortaleza em que vivia no M\u00e9xico o exilado Trotski. Quanto a este, \u201cO homem que amava os cachorros\u201d mostra os sucessivos ex\u00edlios pelos quais passou (Turquia, Noruega e M\u00e9xico), suas desilus\u00f5es com os rumos da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, seus raros prazeres (como a vida em fam\u00edlia e seus c\u00e3es), sua aventura intelectual. Finalmente, atrav\u00e9s da hist\u00f3ria da vida do escritor Iv\u00e1n o leitor toma contato com os grandes ciclos econ\u00f4micos de Cuba &#8211; a relativa fartura dos anos 80, a fome dos anos 90 depois da <em>glasnost <\/em>de Mikhail Gorbachev &#8211; e com alguns detalhes da vida sob o socialismo da ilha caribenha: a repress\u00e3o, a falta de perspectivas, o fim das ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>No longo (mais de 700 p\u00e1ginas) \u201cO homem que amava os cachorros\u201d (Boitempo), a hist\u00f3ria das personagens vai se descortinando aos poucos (boa parte do que \u00e9 contado sobre Ram\u00f3n Mercader, ali\u00e1s, foi deduzida pelo autor pelo fato de haver poucas informa\u00e7\u00f5es fidedignas sobre o assassino de Trotski), e o maravilhosos estilo de Leonardo Padura faz com que em basicamente nenhum momento o livro perca o interesse.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, o romance deixa para o leitor um travo amargo a respeito do socialismo real: tantas ilus\u00f5es, tantas utopias&#8230; para t\u00e3o tr\u00e1gicos resultados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem sempre a leitura de uma obra-prima \u00e9 f\u00e1cil: est\u00e3o a\u00ed os romances de Marcel Proust, William Faulkner e Javier Mar\u00edas que n\u00e3o me deixam mentir.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2366,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[320],"class_list":["post-2365","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-leonardo-padura","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2365"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2365\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2370,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2365\/revisions\/2370"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2366"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}