{"id":2344,"date":"2016-02-09T22:10:42","date_gmt":"2016-02-10T01:10:42","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2344"},"modified":"2016-02-08T22:16:14","modified_gmt":"2016-02-09T01:16:14","slug":"laranja-mecanica-catatau","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2344","title":{"rendered":"Laranja Mec\u00e2nica, Catatau"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>O jovem Alex na vers\u00e3o de <\/em><em>Laranja Mec\u00e2nica feita por Stanley Kubrick para o cinema.<\/em><\/p>\n<p><span class=\"textgr\"><em>&#8211; Ent\u00e3o, o que \u00e9 que vai ser, hein?<\/em><\/span><\/p>\n<p>\u00c9ramos eu, ou seja, Alex, e meus tr\u00eas druguis<em>, ou seja, Pete, Georgie e Tosko, Tosco porque ele era muito tosco, e est\u00e1vamos no Lactobar Korova botando nossas <\/em>rassudoks<em> pra funcionar (&#8230;) O Lactobar Korova era um <\/em>mesto<em> de <\/em>leite-com<em>, e possa ser, \u00d3, meus irm\u00e3os, que tenhais esquecido como eram esses <\/em>mestos<em>, pois as coisas mudam t\u00e3o <\/em>skorre<em> hoje em dia (&#8230;)<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 assim que come\u00e7a o cl\u00e1ssico do escritor ingl\u00eas Anthony Burgess, <em>Laranja Mec\u00e2nica<\/em>, publicado recentemente no Brasil pela Editora Aleph <em>[200 p\u00e1ginas]<\/em>, com excelente tradu\u00e7\u00e3o de F\u00e1bio Fernandes. <!--more-->A sensa\u00e7\u00e3o de estranheza \u00e9 evidente. Um grande n\u00famero de palavras como <em>mesto<\/em>, <em>rassudoks<\/em> e <em>leite-com<\/em> aparecem de supet\u00e3o, e em praticamente todas as frases. Tudo faz parte de uma g\u00edria criada pelo autor, chamada <em>nasdat<\/em>.<\/p>\n<p>O objetivo original na cria\u00e7\u00e3o deste linguajar era este mesmo: dar ao leitor uma enorme sensa\u00e7\u00e3o de estranheza &#8211; Burgess nem queria que estas palavras esquisitas fossem &#8220;traduzidas&#8221;, mas j\u00e1 nas primeiras edi\u00e7\u00f5es apareceram gloss\u00e1rios explicativos <em>[a presente edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o foge a esta regra; no pr\u00f3logo, F\u00e1bio Fernandes explica seu m\u00e9todo de tradu\u00e7\u00e3o]<\/em>.<\/p>\n<p><em>Laranja Mec\u00e2nica<\/em> conta a hist\u00f3ria de Alex, l\u00edder de uma pequena gangue juvenil. Ao mesmo tempo em que cultiva h\u00e1bitos ultraviolentos \u2013 agress\u00f5es, roubos, estupros \u2013, \u00e9 f\u00e3 e profundo conhecedor de m\u00fasica cl\u00e1ssica, principalmente Beethoven. O livro, contado pelo protagonista em primeira pessoa, divide-se em tr\u00eas partes bem distintas. A primeira \u00e9 uma chocante s\u00e9rie de descri\u00e7\u00f5es de atitudes violent\u00edssimas do personagem principal e sua gangue. A segunda conta a hist\u00f3ria de sua pris\u00e3o e do assustador m\u00e9todo de lavagem cerebral \u2013 que come\u00e7ava a ser testado justamente em Alex \u2013 que a justi\u00e7a criou para desencorajar fac\u00ednoras de praticar seus crimes. Na \u00faltima, ele \u00e9 solto, depois de grande press\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o contra o governo no &#8220;caso Alex&#8221;, e volta \u00e0 sua vida de ultraviol\u00eancia. O \u00faltimo cap\u00edtulo do livro, entretanto, mostra o personagem principal j\u00e1 levando uma vida mais tranq\u00fcila, sem crimes.<\/p>\n<p>Apesar de situado em um futuro impreciso, <em>Laranja Mec\u00e2nica<\/em> reflete uma s\u00e9rie de preocupa\u00e7\u00f5es do autor relacionadas \u00e0 \u00e9poca em que ele foi escrito, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 60. As gangues mostradas no livro t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com a delinq\u00fc\u00eancia juvenil de ent\u00e3o \u2013 era \u00e9poca das brigas entre <em>mods<\/em> e <em>rockers<\/em>. E o m\u00e9todo de lavagem cerebral testado em Alex \u00e9 reflexo da preocupa\u00e7\u00e3o de Burgess com o totalitarismo da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u2013 n\u00e3o por acaso, o <em>nasdat<\/em> possui diversas express\u00f5es de origem russa.<\/p>\n<p>Um pouco por causa dessas quest\u00f5es temporais, quem sabe, o livro n\u00e3o envelheceu muito bem. A hist\u00f3ria parece meio sem sentido em muitos trechos, e grande parte do impacto que ele deve ter tido se perdeu de 1961 para c\u00e1. Mas pior do que tudo \u00e9 o final &#8220;feliz&#8221;, onde Alex quer mudar de vida, mas sem que o leitor saiba o porqu\u00ea, j\u00e1 que ele n\u00e3o parece se arrepender de nada. Bem fez Stanley Kubrick em retirar este final da sua <em>[genial]<\/em> vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica de <em>Laranja Mec\u00e2nica<\/em>. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o filme \u00e9 quase sempre considerado superior ao livro que lhe deu origem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><span class=\"textgr\"><br \/>\nSe a inven\u00e7\u00e3o de uma g\u00edria \u00e9 um dos aspectos essenciais da obra cl\u00e1ssica de Anthony Burgess, em <em>Catatau<\/em>, de Paulo Leminski <em>[430 p\u00e1ginas]<\/em>, o experimentalismo vai bem mais adiante. O livro, considerado a obra m\u00e1xima do escritor curitibano, \u00e9 uma verdadeira <em>tour de force<\/em> ling\u00fc\u00edstica, na qual o autor inventa um sem n\u00famero de palavras, al\u00e9m de utilizar at\u00e9 a exaust\u00e3o arca\u00edsmos e termos vindos de outras l\u00ednguas \u2013 notadamente o latim.<\/span><\/p>\n<p>Baseado em uma fantasia hist\u00f3rica que sup\u00f5e que o fil\u00f3sofo Descartes,codificador do racionalismo, viera para Recife junto com a expedi\u00e7\u00e3o holandesa de Maur\u00edcio de Nassau, <em>Catatau<\/em> \u00e9 de leitura extremamente dif\u00edcil \u2013 para dizer o m\u00ednimo. A impress\u00e3o que fica \u00e9 a de que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma frase &#8220;usual&#8221; em todo o livro. Gra\u00e7as n\u00e3o s\u00f3 aos experimentos ling\u00fc\u00edsticos de Leminski como tamb\u00e9m a um certo irracionalismo que permeia toda a obra, j\u00e1 que Catatau \u00e9 contado em primeira pessoa por Cart\u00e9sio <em>[nome &#8220;de fantasia&#8221; para Descartes]<\/em> e seus pensamentos\/id\u00e9ias\/declara\u00e7\u00f5es s\u00e3o freq\u00fcentemente desencontrados.<\/p>\n<p>Por tudo isto, sugere-se que a leitura tenha in\u00edcio l\u00e1 pela p\u00e1gina 270 desta edi\u00e7\u00e3o para l\u00e1 de caprichada da Travessa dos Editores. Dali at\u00e9 o final s\u00e3o apresentados diversos textos de diversos autores explicando <em>Catatau<\/em>, al\u00e9m de valiosas informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas e de cunho ling\u00fc\u00edstico\/hist\u00f3rico. Depois disso, o leitor certamente se sentir\u00e1 mais seguro para tentar vencer o desafio que \u00e9 ler o t\u00edtulo mais ambicioso do curitibano Paulo Leminski.<\/p>\n<p><em>(texto publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/edicao-40-bacanarama\/laranja-mecanica-catatau.html\">Mondo Bacana<\/a> em 2005)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jovem Alex na vers\u00e3o de Laranja Mec\u00e2nica feita por Stanley Kubrick para o cinema. &#8211; Ent\u00e3o, o que \u00e9 que vai ser, hein? \u00c9ramos eu, ou seja, Alex, e meus tr\u00eas druguis, ou seja, Pete, Georgie e Tosko, Tosco porque ele era muito tosco, e est\u00e1vamos no Lactobar Korova botando nossas rassudoks pra funcionar (&#8230;) O Lactobar Korova era um mesto de leite-com, e possa ser, \u00d3, meus irm\u00e3os, que tenhais esquecido como eram esses mestos, pois as coisas mudam t\u00e3o skorre hoje em dia (&#8230;) \u00c9 assim que come\u00e7a o cl\u00e1ssico do escritor ingl\u00eas Anthony Burgess, Laranja Mec\u00e2nica, publicado recentemente no Brasil pela Editora Aleph [200 p\u00e1ginas], com excelente tradu\u00e7\u00e3o de F\u00e1bio Fernandes.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2345,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[317,318],"class_list":["post-2344","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-anthony-burgess","tag-paulo-leminski","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2344","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2344"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2344\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2346,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2344\/revisions\/2346"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2345"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2344"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2344"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2344"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}