{"id":2148,"date":"2015-12-11T18:47:14","date_gmt":"2015-12-11T18:47:14","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2148"},"modified":"2015-12-11T18:47:14","modified_gmt":"2015-12-11T18:47:14","slug":"o-paradoxo-sobre-o-comediante-e-gosto-musical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2148","title":{"rendered":"O Paradoxo sobre o Comediante e Gosto Musical"},"content":{"rendered":"<p><em>O Paradoxo sobre o Comediante<\/em> \u00e9 considerado o trabalho de Denis Diderot que tem mais <em>sobreviv\u00eancia ativa<\/em> nos dias de hoje. <!--more-->A id\u00e9ia que o ensaio defende \u00e9 realmente\u00a0 paradoxal: o ator (ou o comediante da com\u00e9dia cl\u00e1ssica &#8211; n\u00e3o confundir com os humoristas da televis\u00e3o), deve ter uma grande penetra\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica mas nenhuma sensibilidade, e deve ser perito na arte de imitar todos os tipos de car\u00e1teres e pap\u00e9is. <em>Se o comediante fosse sens\u00edvel, lhe seria permitido atuar duas vezes um mesmo papel com o mesmo calor e o mesmo sucesso?<\/em>, pergunta o fil\u00f3sofo. <em>Bastante caloroso na primeira apresenta\u00e7\u00e3o, <\/em>continua Diderot,<em> ele estaria extenuado\u00a0 e frio como um m\u00e1rmore na terceira. Ao passo que o imitador atento e disc\u00edpulo atento da natureza, na primeira vez que se apresentar no palco sob o nome de Augusto, de Cina, de Orosmano, de Agamenon, de Maom\u00e9, copista rigoroso de si pr\u00f3prio ou de seus estudos, e observador cont\u00ednuo de nossas sensa\u00e7\u00f5es, sua interpreta\u00e7\u00e3o, longe de enfraquecer-se, se fortalecer\u00e1 com novas reflex\u00f5es que ter\u00e1 recolhido; ele se exaltar\u00e1 ou se moderar\u00e1, e com isto voc\u00ea vai ficar cada vez mais satisfeito. <\/em>J\u00e1 os comediantes, na vida real, pelo fato de n\u00e3o serem mais que imitadores, <em>quando n\u00e3o s\u00e3o buf\u00f5es, <\/em>s\u00e3o <em>polidos, c\u00e1usticos e frios, faustosos, dissipados, dissipadores interessados, mais impressionados por nossos rid\u00edculos que tocados por nossos males; <\/em>t\u00eam um <em>esp\u00edrito bastante sereno ante o espet\u00e1culo de um acontecimento lastim\u00e1vel, ou ante o relato de uma aventura pat\u00e9tica; <\/em>s\u00e3o<em> isolados, vagabundos, \u00e0 merc\u00ea dos grandes;<\/em> t\u00eam <em>poucos modos e nenhum amigo<\/em>.<\/p>\n<p>Eu confesso que inicialmente n\u00e3o gostei desta tese de Diderot. Afinal de contas, uma das poucas coisas em comum em grande parte das m\u00fasicas que eu gosto (apesar deste ensaio ter como objeto o teatro, foi-me dif\u00edcil n\u00e3o pensar em m\u00fasica enquanto o lia) \u00e9 algo impalp\u00e1vel e dif\u00edcil de explicar: a <em>alma<\/em>, o <em>sentimento do int\u00e9rprete<\/em>. Por raz\u00f5es absolutamente particulares, eu adoro Agnaldo Tim\u00f3teo e n\u00e3o gosto mais de Bryan Ferry: enquanto que o primeiro me passa sentimento e verdade, o segundo n\u00e3o consegue me passar nada, nem dor, nem tristeza, nem alegria &#8211; apenas a vontade de<em>fazer um tipo<\/em>. Desta forma, diferentemente do grande (sem ironia) Jardel Sebba &#8211; que <a href=\"http:\/\/superinteressante.abril.uol.com.br\/aberta\/colunas\/index_juke_24_05_02.html\">aqui<\/a> confessa que a <em>eleg\u00e2ncia <\/em>\u00e9 um pressuposto imprescind\u00edvel para que ele goste de uma m\u00fasica &#8211; eu normalmente reconhe\u00e7o (eu sei que isto parece brega) um <em>sentimento<\/em> <em>verdadeiro<\/em> na m\u00fasica que gosto de ouvir. Ser elegante ou n\u00e3o, para mim, \u00e9 absoluta e completamente indiferente.<\/p>\n<p>Mas, voltando ao <em>Paradoxo<\/em>, \u00e9-me for\u00e7oso reconhecer que \u00e9 dif\u00edcil combater um g\u00eanio. L\u00e1 pelas tantas, Diderot cita um trecho de Racine <a href=\"#nota\">(leia o trecho aqui)<\/a> para comentar que a sua<em> linguagem n\u00e3o \u00e9 a de Henrique IV. \u00c9 a de Homero, \u00e9 a de Racine, \u00e9 a da poesia; \u00e9 falada por bocas po\u00e9ticas com um tom po\u00e9tico. Reflita um pouco sobre o que se chama no teatro &#8220;ser verdadeiro&#8221;<\/em>, continua o fil\u00f3sofo, complementando: <em>ser\u00e1 mostrar as coisas como elas s\u00e3o na natureza? De forma nenhuma. O verdadeiro neste sentido seria apenas o comum. O que \u00e9 pois verdadeiro no palco? \u00c9 a conformidade das a\u00e7\u00f5es, dos discursos, da figura, da voz, do movimento, do gesto, com o modelo ideal imaginado pelo poeta, e muitas vezes exagerado pelo comediante. Eis o maravilhoso. Esse modelo n\u00e3o influi somente no tom; modifica at\u00e9 o passo, at\u00e9 a postura.<\/em> Ent\u00e3o, segundo Diderot, o teatro trata de &#8220;um outro mundo&#8221;, um mundo &#8220;ideal&#8221;.<\/p>\n<p>Se este argumento j\u00e1 era bastante forte para aumentar o meu desconforto inicial, um argumento final do fil\u00f3sofo foi decisivo para me convencer: <em>no teatro, com aquilo que chamamos sensibilidade, alma, entranhas, expressamos bem uma ou duas tiradas<\/em> &#8211; exatamente aquelas poucas em que o personagem expressa um sentimendo <em>igual<\/em> ao que o ator sens\u00edvel costuma ter &#8211; <em>e falhamos no resto; \u00e9 que abranger toda a extens\u00e3o de um grande papel, dispor nele os claros e escuros, o doce e o fraco, mostrar-se igual nas passagens tranq\u00fcilas e nas passagens agitadas, ser variado nos pormenores, uno e harmonioso no conjunto, e constituir um sistema firme de declama\u00e7\u00e3o que v\u00e1 ao ponto de salvar os repentes do poeta, \u00e9 obra de cabe\u00e7a fria, de um profundo discernimento, de um gosto refinado, de um estudo penoso, de uma longa experi\u00eancia e de uma tenacidade de mem\u00f3ria n\u00e3o muito comum<\/em>. Em outras palavras, um bom ator tem uma atua\u00e7\u00e3o constante, seja l\u00e1 o car\u00e1ter e o sentimento do personagem, enquanto que um ator sens\u00edvel s\u00f3 tem boas cenas quando o personagem faz algo igual ao que ele faria.<\/p>\n<p>Assim, parece claro que a sensibilidade n\u00e3o parece essencial no teatro (boa parte dos argumentos acima vale tamb\u00e9m para o cinema, embora este trate normalmente de acontecimentos comuns, e n\u00e3o<em>ideais<\/em> como na com\u00e9dia cl\u00e1ssica). Boa parte da t\u00e9cnica que os atores utilizam, como o famoso <em>mergulhar <\/em>no personagem (muitas vezes citado em entrevistas), n\u00e3o deixa de ser, de certa forma, fingimento. Por outro lado, muitas vezes os atores declaram buscar <em>neles mesmos <\/em>a inspira\u00e7\u00e3o para alguma cena mais dif\u00edcil &#8211; o que comprova a dificuldade que existe, muitas vezes, em classificar algo t\u00e3o impalp\u00e1vel quanto um sentimento.<\/p>\n<p>E a m\u00fasica, como fica nisto? O <em>sentimento<\/em> de um int\u00e9rprete musical \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 importante, se comparado ao de um ator? Existem algumas maneiras de responder isto. Por um lado, parece claro que grandes compositores e int\u00e9rpretes conseguiram criar um <em>universo todo pr\u00f3prio<\/em>, de modo que seus pr\u00f3prios sentimentos conseguissem aflorar e fazer a sua arte soar mais verdadeira. Alguns compositores (p.ex. John Lennon, Lou Reed, Eminem) parecem se basear principalmente em suas pr\u00f3prias experi\u00eancias para compor &#8211; deste modo, o sentimento que eles passam aos ouvintes parece aut\u00eantico. Por outro lado, grandes int\u00e9rpretes n\u00e3o compositores, como Elvis Presley, Jo\u00e3o Gilberto e Frank Sinatra, seriam atores <em>fingidores<\/em> no modo do comediante de Diderot? Pode-se responder que, pelo menos nestes tr\u00eas casos, estes grandes cantores <em>escolhiam <\/em>suas pr\u00f3prias m\u00fasicas &#8211; logo deviam cantar o que combinasse melhor com suas experi\u00eancias. Mas esta resposta continua insatisfat\u00f3ria, ainda mais se eu acresentar outra pergunta: numa longa turn\u00ea, um int\u00e9rprete reconhecidamente verdadeiro em seus sentimentos sentir\u00e1 a m\u00fasica sempre da mesma forma, ou fingir\u00e1 um pouco para que cumpra seus compromissos (e pague suas contas)? Outra pergunta dif\u00edcil de ser respondida.<\/p>\n<p>Estou chegando ao final deste texto, infelizmente, sem uma resposta definitiva. Vou tentar, portanto, responder de um modo totalmente particular: eu posso dizer que, <em>para mim<\/em>, o sentimento do int\u00e9rprete continua t\u00e3o importante como sempre foi. Por outro lado, eu n\u00e3o posso fazer absolutamente nada &#8211; isto parece \u00f3bvio &#8211; se o cantor fingir t\u00e3o bem que consiga <em>me convencer<\/em> que est\u00e1 verdadeiramente sentindo aquilo que canta.<\/p>\n<p>___________________________________________________<\/p>\n<p>(*) (trad. de J. Guinsbourg): <em>Sim, \u00e9 Henrique, \u00e9 teu Rei que te desperta. \/ Vem, reconhece a voz que chega ao teu ouvido (..) \/ Sois v\u00f3s mesmo, senhor! Que importante necessidade \/ Vos fez preceder a aurora de t\u00e3o longe? \/ Apenas uma fraca luz vos ilumina e me guia, \/ Vossos olhos s\u00f3 e os meus est\u00e3o abertos<\/em> (em franc\u00eas fica impressionante: <em>Oui, c&#8217;est Henri, c&#8217;est ton roi qui t&#8217;\u00e9veille, \/ Viens, reconnais la voix qui frappe ton oreille&#8230; \/ (&#8230;) <\/em><em>C&#8217;est vous-m\u00eame, seigneur! Quel important besoin \/ Vous a fait devancer l&#8217;aurore de si loin? \/ A peine un faible jour vous \u00e9claire et me guide, \/ Vos yeux seuls et les miens sont ouverts<\/em>).<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Paradoxo sobre o Comediante \u00e9 considerado o trabalho de Denis Diderot que tem mais sobreviv\u00eancia ativa nos dias de hoje.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2149,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[228],"tags":[92],"class_list":["post-2148","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-filosofia","tag-diderot","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2148"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2148\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2150,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2148\/revisions\/2150"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2149"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}