{"id":2138,"date":"2015-12-08T12:56:50","date_gmt":"2015-12-08T12:56:50","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2138"},"modified":"2015-12-08T12:57:28","modified_gmt":"2015-12-08T12:57:28","slug":"dois-lados-de-dois-lps","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2138","title":{"rendered":"Dois lados de dois LPs"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em>Sua orquestra requer flauta, obo\u00e9, clarinete, fagote, trompete, trompa, ou, como disse o pr\u00f3prio autor, &#8220;uma orquestra equilibrada, com recursos de timbres que n\u00e3o se sobrep\u00f5e \u00e0 sonoridade do solista&#8221;.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 assim que o <em>Guia do Ouvinte<\/em> do fasc\u00edculo Villa-Lobos da Cole\u00e7\u00e3o <em>Gigantes da M\u00fasica<\/em>, da Abril, se refere \u00e0 orquestra\u00e7\u00e3o do <em>Concerto para Viol\u00e3o e Pequena Orquestra<\/em>. A pe\u00e7a, bel\u00edssima, tem tr\u00eas movimentos (<em>Allegro preciso, andantino e andante\/cadenza <\/em>e <em>allegro ma non troppo<\/em>) e sua dura\u00e7\u00e3o \u00e9 de pouco mais que dezessete minutos. O formato geral do concerto \u00e9 de uma fantasia livre, onde uns poucos temas aparecem nos tr\u00eas movimentos. Outros completamente diferentes aparecem aqui e ali durante a obra &#8211; alguns com um efeito extraordin\u00e1rio, como um tema melanc\u00f3lico que, segundo o pr\u00f3prio Villa-Lobos, <em>evocava a atmosfera mel\u00f3dica de certas can\u00e7\u00f5es populares do nordeste brasileiro<\/em>. Esta grande liberdade de express\u00e3o \u00e9 o motivo pelo qual Villa-Lobos queria batizar este Concerto de <em>Fantasia<\/em> &#8211; no que foi demovido pelo grande violonista Andr\u00e8s Segovia.<!--more--><\/p>\n<p>Bastante diferente \u00e9 a orquestra\u00e7\u00e3o do <em>lado A<\/em> do LP <em>A Dan\u00e7a das Cabe\u00e7as<\/em>, de Egberto Gismonti: ele o \u00e9 respons\u00e1vel pelo viol\u00e3o de 8 cordas, pela flauta e pela voz, enquanto que o percussionista Nan\u00e1 Vasconcelos responde pela percuss\u00e3o, pelo berimbau, pelo <em>corpo<\/em> e pela voz (no lado B, que n\u00e3o ser\u00e1 comentado aqui, Gismonti toca piano). Este<em> lado A<\/em>, apesar de ter o nome de seis faixas indicadas na contracapa, poderia ser tratado como uma \u00fanica m\u00fasica, j\u00e1 que os seus 25min15s s\u00e3o tocados sem nenhuma pausa, e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma ranhura no LP indicando o fim de uma faixa e o in\u00edcio da outra &#8211; seria algo, portanto, tamb\u00e9m como uma grande <em>Fantasia<\/em>. Existe sempre uma <em>transi\u00e7\u00e3o <\/em>no final de cada m\u00fasica, onde as caracter\u00edsticas da faixa anterior v\u00e3o desaparecendo aos poucos para dar lugar \u00e0quelas da nova.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A primeira m\u00fasica do <em>lado A<\/em> do LP <em>Dan\u00e7a das Cabe\u00e7as<\/em> chama-se <em>Quarto Mundo n.1<\/em> e inicia-se com um trinar de passarinhos &#8211; cortesia da percuss\u00e3o Nan\u00e1 Vasconcelos &#8211; que logo se mistura com uma flauta long\u00ednqua e de sonoridade oriental, parecendo um amanhecer no campo. A &#8220;faixa&#8221; seguinte,<em>Dan\u00e7a das Cabe\u00e7as &#8211;\u00a0 <\/em>tema de algum programa na TV Cultura h\u00e1 alguns anos &#8211; \u00e9 fren\u00e9tica, repetitiva e com fortes caracter\u00edsticas populares brasileiras (ressaltadas pelo berimbau de Nan\u00e1 Vasconcelos). Nesta &#8220;faixa&#8221; tanto Gismonti ao viol\u00e3o (que ele s\u00f3 vai largar na \u00faltima faixa do <em>lado A<\/em>) quanto Nan\u00e1 Vasconcelos demostram uma t\u00e9cnica apurad\u00edssima, com resultados extraordin\u00e1rios (virtuosismo nem sempre \u00e9 sin\u00f4nimo de chatice). A seguinte,<em>\u00c1guas Luminosas<\/em>, composta por um certo D.Bressane, tem uma melodia lenta, bela e melanc\u00f3lica. Pouco depois inicia <em>Celebra\u00e7\u00e3o de N\u00fapcias, <\/em>uma esp\u00e9cie de varia\u00e7\u00e3o do tema anterior. Tanto repetitiva (em seus cl\u00edmax seguidos) quanto profunda, provavelmente <em>Celebra\u00e7\u00e3o de N\u00fapcias<\/em> seja o ponto mais alto deste <em>lado A<\/em>. A &#8220;faixa&#8221; seguinte, <em>Porta Encantada<\/em>, \u00e9 uma esp\u00e9cie de radicaliza\u00e7\u00e3o da anterior: o que era repetitivo transforma-se em ca\u00f3tico, e o que era ca\u00f3tico transforma-se em um samba inseperado e desordenado. Quando esta \u00faltima acaba, <em>Quarto Mundo n.2<\/em> vem com a flauta de Gismonti tocando o mesmo tema de <em>Quarto Mundo n.1<\/em>, a primeira do <em>lado A<\/em>, numa mostra que Gismonti pensou mesmo neste lado do LP como se fosse uma s\u00f3 m\u00fasica.<\/p>\n<p>Estas duas obras admir\u00e1veis t\u00eam em comum muitos aspectos. Como semelhan\u00e7a <em>superficial<\/em> pode-se citar a dura\u00e7\u00e3o (ambas ocupam um lado inteiro de um LP), a utiliza\u00e7\u00e3o do viol\u00e3o como instrumento principal, o fato de serem eminentemente instrumentais (no <em>lado A<\/em> de Egberto Gismonti, a voz \u00e9 utilizada apenas como instrumento), e, por \u00faltimo mas n\u00e3o menos importante, ambas s\u00e3o obras de compositores brasileiros que utilizam elementos nacionais (alguns deles citados acima) para criar obras profundamente sofisticadas. Mas a real grandeza destas duas pe\u00e7as reside em sua semelhan\u00e7a mais profunda &#8211; eu me arriscaria a dizer que a <em>alma <\/em>delas \u00e9 praticamente a mesma. Tanto o <em>lado A de Dan\u00e7a das Cabe\u00e7as<\/em>, de Egberto Gismonti, quanto o <em>Concerto para viol\u00e3o e pequena orquestra<\/em>, de Villa-Lobos, t\u00eam uma beleza profundamente melanc\u00f3lica, que remonta a um Brasil antigo &#8211; ou rural &#8211; distante e triste. Dada a profunda brasilidade e, ao mesmo tempo, pung\u00eancia das duas obras, \u00e9 de se perguntar se, despidas do folclore simpl\u00f3rio de &#8220;samba, suor e cerveja&#8221;, ambas n\u00e3o captaram um aspecto pouco explorado do estado de esp\u00edrito brasileiro, melanc\u00f3lico e um tanto desesperan\u00e7ado &#8211; resultado\u00a0 tanto da heran\u00e7a portuguesa (vide o <em>fado<\/em>) quanto da tristeza de um povo sofrido.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sua orquestra requer flauta, obo\u00e9, clarinete, fagote, trompete, trompa, ou, como disse o pr\u00f3prio autor, &#8220;uma orquestra equilibrada, com recursos de timbres que n\u00e3o se sobrep\u00f5e \u00e0 sonoridade do solista&#8221;. \u00c9 assim que o Guia do Ouvinte do fasc\u00edculo Villa-Lobos da Cole\u00e7\u00e3o Gigantes da M\u00fasica, da Abril, se refere \u00e0 orquestra\u00e7\u00e3o do Concerto para Viol\u00e3o e Pequena Orquestra. A pe\u00e7a, bel\u00edssima, tem tr\u00eas movimentos (Allegro preciso, andantino e andante\/cadenza e allegro ma non troppo) e sua dura\u00e7\u00e3o \u00e9 de pouco mais que dezessete minutos. O formato geral do concerto \u00e9 de uma fantasia livre, onde uns poucos temas aparecem nos tr\u00eas movimentos. Outros completamente diferentes aparecem aqui e ali durante a obra &#8211; alguns com um efeito extraordin\u00e1rio, como um tema melanc\u00f3lico que, segundo o pr\u00f3prio Villa-Lobos, evocava a atmosfera mel\u00f3dica de certas can\u00e7\u00f5es populares do nordeste brasileiro. 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