{"id":2119,"date":"2015-12-04T10:31:31","date_gmt":"2015-12-04T10:31:31","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2119"},"modified":"2015-12-04T10:31:31","modified_gmt":"2015-12-04T10:31:31","slug":"a-rosa-branca-e-um-amor-na-alemanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2119","title":{"rendered":"A Rosa Branca e Um Amor na Alemanha"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o adianta: por mais que a pessoa tenha crescido assistindo filmes em cinematecas e seja f\u00e3 dos chamados filmes &#8220;de arte&#8221; europeus (como eu), n\u00e3o h\u00e1 como fugir do impacto do cinema americano (em grande parte, o m\u00e9rito disto \u00e9 dos pr\u00f3prios americanos &#8211; pretendo logo falar aqui do filme\u00a0<em>Stagecoach<\/em>, de John Ford, por exemplo). Gra\u00e7as a seus filmes, n\u00f3s temos uma clara id\u00e9ia de como era a vida cotidiana nos Estados Unidos em todas as fases de sua hist\u00f3ria desde, pelo menos, o Velho Oeste no s\u00e9culo XIX &#8211; os exemplos s\u00e3o t\u00e3o numerosos que nem vale a pena citar aqui.<\/p>\n<p>Quando o assunto \u00e9 a Alemanha Nazista, por outro lado, estamos mais familiarizados com livros e document\u00e1rios que descrevem (com maior ou menor precis\u00e3o) os horrores do regime. S\u00e3o menos freq\u00fcentes filmes que tratem da vida dos alem\u00e3es do per\u00edodo de uma maneira, digamos, &#8220;\u00e0 americana&#8221; &#8211; isto \u00e9, focando primordialmente conflitos e acontecimentos de pessoas (mais ou menos) comuns, com uma linguagem (mais ou menos) linear. Num pequeno esfor\u00e7o de &#8220;mergulhar&#8221; na mentalidade e no cotidiano do povo alem\u00e3o da \u00e9poca (como \u00e9 poss\u00edvel &#8220;mergulhar&#8221; no Velho Oeste assistindo filmes do John Wayne, com todas as limita\u00e7\u00f5es, \u00e9 \u00f3bvio, impl\u00edcitas neste processo), aluguei numa locadora <em>Um Amor na Alemanha<\/em> (lan\u00e7ado em 1984), do grande diretor polon\u00eas Andrzej Wajda, e <em>A Rosa Branca<\/em> (lan\u00e7ado em 1982), do diretor alem\u00e3o Michael Verhoeven. Posso dizer que meu <em>pequeno esfor\u00e7o<\/em> foi plenamente recompensado. Os dois filmes t\u00eam a estrutura linear do grande &#8220;cinem\u00e3o&#8221; americano &#8211; isto \u00e9, s\u00e3o mais preocupados em contar bem uma hist\u00f3ria do que em elocubra\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas ou revolucionar a linguagem cinematogr\u00e1fica. Al\u00e9m disso, ambos t\u00eam personagens convincentes e roteiros bem amarrados &#8211; e claro, conforme meu objetivo incial, d\u00e3o uma bela id\u00e9ia da vida cotidiana da \u00e9poca.<!--more--><\/p>\n<p><em>Um amor na Alemanha<\/em> \u00e9 fic\u00e7\u00e3o: conta a hist\u00f3ria de uma mulher alem\u00e3, Pauline (vivida pela grande Hanna Schygulla), que, na aus\u00eancia do marido militar (que fora lutar na frente russa), tem um caso de amor com o polon\u00eas Stanislaw (Pietr Lysak) &#8211; s\u00f3 que as leis da \u00e9poca puniam com a morte poloneses que tivessem rela\u00e7\u00f5es sexuais com alem\u00e3es. <em>A Rosa Branca<\/em>, por outro lado, \u00e9 baseado no caso real dos irm\u00e3os Scholl e alguns colegas, punidos com a morte em 1943 por distribu\u00edrem panfletos contra o regime &#8211; a cena incial do filme s\u00e3o as fotos reais de todos os executados no final do processo.<\/p>\n<p>Dadas algumas semelhan\u00e7as entre os filmes, resolvi dividi-los em quatro partes cada: a primeira poderia ser chamada de <em>id\u00edlica<\/em>; a segunda, de <em>sa\u00edda da normalidade<\/em>; a terceira, de <em>desenvolvimento e repress\u00e3o<\/em>; e a quarta parte, finalmente, de<em> conclus\u00e3o<\/em> (*).<\/p>\n<p>A parte <em>id\u00edlica <\/em>dos filmes mostra como deveria ser a vida de grande parte dos alem\u00e3es <em>cumpridores de seus deveres <\/em>durante o governo nacional-socialista (antes dos bombardeios aliados). Em <em>Um Amor na Alemanha<\/em> \u00e9 mostrado o dia-a-dia de uma cidadezinha alem\u00e3, onde todos os habitantes s\u00e3o quase sempre sorridentes, saud\u00e1veis e gentis &#8211; apesar dos cupons de racionamento que t\u00eam que ter para adquirir alimentos. J\u00e1 <em>A Rosa Branca<\/em> foca incialmente uma grande fam\u00edlia de Munique (os Scholl), cujos membros moram numa grande e confort\u00e1vel casa, onde promovem ser\u00f5es culturais com m\u00fasica cl\u00e1ssica. Os membros masculinos da fam\u00edlia v\u00e3o para o front russo ou ficam em Munique estudando, enquanto que as mo\u00e7as estudam, namoram e t\u00eam sua inicia\u00e7\u00e3o sexual. Assim como em <em>Um Amor na Alemanha<\/em>, os personagens de <em>A Rosa Branca<\/em> parecem pessoas saud\u00e1veis e felizes.<\/p>\n<p>\u00c9 bem claro o momento da <em>sa\u00edda da normalidade<\/em> nos dois filmes: em <em>Um Amor na Alemanha<\/em> Pauline, dona de uma pequena venda, carente sem o marido &#8211; ausente j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios meses de casa &#8211; come\u00e7a a ter um t\u00f3rrido caso de amor com o polon\u00eas Stanislaw, que trabalha como escravo numa casa vizinha. Em <em>A Rosa Branca<\/em> Sophie Scholl finalmente descobre que seu irm\u00e3o Hans e alguns amigos eram os respons\u00e1veis por alguns virulentos panfletos contra o regime que ela tinha lido na faculdade. Logo ap\u00f3s sua descoberta Sophie surpreendentemente resolve fazer parte do pequeno grupo agitador.<\/p>\n<p>O <em>desenvolvimento<\/em> \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o do movimento no sentido da <em>sa\u00edda da &#8220;normalidade&#8221;<\/em> <em>nacional-socialista<\/em>: em <em>\u00a0A Rosa Branca<\/em> os irm\u00e3os Scholl e seus companheiros trabalham com grande coragem para distribuir o maior n\u00famero poss\u00edvel de panfletos por toda a cidade, assim como para criar novos contatos externos ao seu min\u00fasculo n\u00facleo de agita\u00e7\u00e3o, tanto na Universidade como no Ex\u00e9rcito. Enquanto isto Pauline, em <em>Um Amor na Alemanha<\/em>, fica cada vez mais apaixonada por seu polon\u00eas Stanislaw, e come\u00e7a a ser imprudente, praticamente n\u00e3o conseguindo mais esconder o seu romance do resto da popula\u00e7\u00e3o local. A <em>repress\u00e3o <\/em>vem praticamente paralela ao <em>desenvolvimento<\/em>: nesta parte admir\u00e1vel dos dois filmes, cenas do <em>desenvolvimento<\/em> se revezam com a <em>repress\u00e3o<\/em>, a qual, pouco a pouco, vai fechando todas as portas aos principais personagens dos filmes: enquanto que, em <em>A Rosa Branca<\/em>, a grande rede de dela\u00e7\u00e3o nacional-socialista vai, aos poucos, mostrando suas garras &#8211; qualquer pessoa, virtualmente, era uma delatora em potencial -, em <em>Um Amor na Alemanha<\/em> a dela\u00e7\u00e3o \u00e9 causada por um motivo s\u00f3rdido: uma vizinha delata Pauline para a SS simplesmente por que queria a sua vendinha para si.<\/p>\n<p>A <em>conclus\u00e3o<\/em> dos dois filmes, como n\u00e3o poderia deixar de ser, \u00e9 tr\u00e1gica &#8211; e em mais um detalhe estes dois admir\u00e1veis filmes se parecem: em ambos os perpetradores nazistas (a carcereira de <em>A Rosa Branca<\/em> e o coronel da SS em <em>Um Amor na Alemanha<\/em>) mostram-se profundamente desconfort\u00e1veis em ter de ajudar a executar pessoas que cometeram crimes t\u00e3o&#8230; insignificantes.<\/p>\n<p>___________________________________________<\/p>\n<p>(*) num sentido estrito, uma quinta divis\u00e3o, chamada <em>rela\u00e7\u00e3o do passado com o presente<\/em>, poderia ser criada tamb\u00e9m. Isto por que em <em>A Rosa Branca<\/em> uma &#8220;lei&#8221; para &#8220;revogar&#8221; os crimes dos Scholl (ainda n\u00e3o revogados quando do lan\u00e7amento do filme) \u00e9 &#8220;promulgada&#8221; pelo pr\u00f3prio diretor Verhoeven &#8211; resultando num efeito melodram\u00e1tico e um pouco sem sentido -, enquanto que, em <em>Um Amor na Alemanha<\/em>, toda a hist\u00f3ria \u00e9 contada na \u00e9poca atual pelo filho de Pauline, j\u00e1 adulto, que volta \u00e0 cidadezinha onde nascera para tentar esclarecer a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o adianta: por mais que a pessoa tenha crescido assistindo filmes em cinematecas e seja f\u00e3 dos chamados filmes &#8220;de arte&#8221; europeus (como eu), n\u00e3o h\u00e1 como fugir do impacto do cinema americano (em grande parte, o m\u00e9rito disto \u00e9 dos pr\u00f3prios americanos &#8211; pretendo logo falar aqui do filme\u00a0Stagecoach, de John Ford, por exemplo). Gra\u00e7as a seus filmes, n\u00f3s temos uma clara id\u00e9ia de como era a vida cotidiana nos Estados Unidos em todas as fases de sua hist\u00f3ria desde, pelo menos, o Velho Oeste no s\u00e9culo XIX &#8211; os exemplos s\u00e3o t\u00e3o numerosos que nem vale a pena citar aqui. Quando o assunto \u00e9 a Alemanha Nazista, por outro lado, estamos mais familiarizados com livros e document\u00e1rios que descrevem (com maior ou menor precis\u00e3o) os horrores do regime. S\u00e3o menos freq\u00fcentes filmes que tratem da vida dos alem\u00e3es do per\u00edodo de uma maneira, digamos, &#8220;\u00e0 americana&#8221; &#8211; isto \u00e9, focando primordialmente conflitos e acontecimentos de pessoas (mais ou menos) comuns, com uma linguagem (mais ou menos) linear. Num pequeno esfor\u00e7o de &#8220;mergulhar&#8221; na mentalidade e no cotidiano do povo alem\u00e3o da \u00e9poca (como \u00e9 poss\u00edvel &#8220;mergulhar&#8221; no Velho Oeste assistindo filmes do John Wayne, com todas as limita\u00e7\u00f5es, \u00e9 \u00f3bvio, impl\u00edcitas neste processo), aluguei numa locadora Um Amor na Alemanha (lan\u00e7ado em 1984), do grande diretor polon\u00eas Andrzej Wajda, e A Rosa Branca (lan\u00e7ado em 1982), do diretor alem\u00e3o Michael Verhoeven. Posso dizer que meu pequeno esfor\u00e7o foi plenamente recompensado. Os dois filmes t\u00eam a estrutura linear do grande &#8220;cinem\u00e3o&#8221; americano &#8211; isto \u00e9, s\u00e3o mais preocupados em contar bem uma hist\u00f3ria do que em elocubra\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas ou revolucionar a linguagem cinematogr\u00e1fica. Al\u00e9m disso, ambos t\u00eam personagens convincentes e roteiros bem amarrados &#8211; e claro, conforme meu objetivo incial, d\u00e3o uma bela id\u00e9ia da vida cotidiana da \u00e9poca.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2120,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[53],"tags":[101],"class_list":["post-2119","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema","tag-segunda-guerra-mundial","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2119"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2122,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2119\/revisions\/2122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}