{"id":2083,"date":"2015-11-24T15:19:48","date_gmt":"2015-11-24T15:19:48","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2083"},"modified":"2015-11-23T15:24:03","modified_gmt":"2015-11-23T15:24:03","slug":"mute-witness","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2083","title":{"rendered":"&#8220;Mute witness&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea perguntar a v\u00e1rios f\u00e3s do Morrissey qual o seu \u00e1lbum preferido, provavelmente nenhum vai citar &#8220;Kill Uncle&#8221;, de 1991. <!--more-->Apesar dos f\u00e3s de Morrissey serem reconhecidamente mais fan\u00e1ticos que o normal (muitos praticamente n\u00e3o ouvem outra coisa) a grande maioria deles mal vai se lembrar de &#8220;Mute witness&#8221;, uma das faixas deste injustamente desprezado \u00e1lbum &#8220;Kill Uncle&#8221;. Entretanto, &#8220;Mute witness&#8221; \u00e9 uma obra-prima, uma can\u00e7\u00e3o forte, dram\u00e1tica e dif\u00edcil (esta dificuldade, possivelmente, \u00e9 o que faz esta can\u00e7\u00e3o ser t\u00e3o esquecida &#8211; \u00e9 mais f\u00e1cil dizer &#8220;ah, mais uma porcaria da carreira solo de Morrissey&#8221; do que tentar entender &#8220;Mute witness&#8221;).<\/p>\n<p>&#8220;Mute witness&#8221; conta a hist\u00f3ria de uma testemunha muda, testemunha esta que, al\u00e9m de seguir os passos de algu\u00e9m, est\u00e1 nos lugares mais improv\u00e1veis (&#8220;4 da manh\u00e3, Northside, Clapham Common, o que voc\u00ea estava fazendo l\u00e1?&#8221;, &#8220;Agora veja ela de p\u00e9 em cima da mesa, com seus pequenos bra\u00e7os balan\u00e7ando&#8221;). Esta testemunha sabe tamb\u00e9m tudo o que acontece com a pessoa que persegue (&#8220;e suas palavras silenciosas descrevem a cena da noite passada&#8221;, &#8220;ela s\u00f3 estava tentando explicar o que foi que ela viu&#8221;). \u00c9 angustiante a situa\u00e7\u00e3o desta testemunha muda: apesar do esfor\u00e7o que ela faz (&#8220;Gritando t\u00e3o alto l\u00e1 do ch\u00e3o&#8221;) s\u00f3 o que ela consegue \u00e9 causar pena (&#8220;sua pobre testemunha&#8221;, &#8220;e voc\u00ea sente tanta pena na sua alma pela sua testemunha muda, ainda testando a for\u00e7a de nossa paci\u00eancia&#8221;). A pessoa &#8220;perseguida&#8221; tem dificuldades de ouvi-la, pois s\u00e3o insistentes os sinais de que n\u00e3o s\u00f3 a testemunha faz for\u00e7a para se fazer ouvir, como a propalada &#8220;mudez&#8221; da testemunha sugere algu\u00e9m que fala mas que n\u00e3o \u00e9 ouvido. Isto aumenta a pena que sentimos da testemunha, mas certamente h\u00e1 mais. Existe algo certamente oculto na can\u00e7\u00e3o: qual o motivo que faz a &#8220;testemunha&#8221; ser t\u00e3o infeliz (pois ela o \u00e9 demais). Mas Morrissey quer deixar bem esclarecido, no final da can\u00e7\u00e3o que a testemunha OPTOU pelo seu destino (&#8220;tudo teria sido t\u00e3o mais f\u00e1cil, se pelo menos ela nunca tivesse se oferecido&#8221;) &#8211; um tema que volta na can\u00e7\u00e3o &#8220;alma matters&#8221;, de 1997 (&#8220;a escolha que eu fiz, [&#8230;], eu nunca estive t\u00e3o certo disto, \u00e9 minha vida se arruinando do jeito que escolhi&#8221;).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 melodia, ela \u00e9 repetitiva e acelerada &#8211; d\u00e1 impress\u00e3o que conseguimos sentir a ang\u00fastia da testemunha em querer se fazer entender. Ela est\u00e1 l\u00e1, tentando de tudo, gritando, berrando para ouvidos surdos.<\/p>\n<p>Bem, mas a\u00ed algu\u00e9m pode perguntar: o que faz esta m\u00fasica, afinal de contas, ser t\u00e3o especial? N\u00f3s n\u00e3o sabemos o que faz a situa\u00e7\u00e3o da testemunha ser t\u00e3o angustiante, fora a sua dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o sabemos tampouco como ela pode estar em praticamente todos os lugares &#8211; seria algum poder paranormal?<\/p>\n<p>Nada disto importa, na verdade.<\/p>\n<p>Importa saber por que os personagens de Kafka s\u00e3o perseguidos? N\u00e3o, apenas a persegui\u00e7\u00e3o importa.<\/p>\n<p>Importa saber como a Bruxa de Blair atinge suas v\u00edtimas? N\u00e3o, apenas a ang\u00fastia dos perseguidos importa.<\/p>\n<p>Aqui vemos vemos algu\u00e9m (a &#8220;testemunha muda&#8221;) querendo desesperadamente ajudar outra pessoa, mas sem nenhuma recompensa, sem nenhum retorno, sem nenhum al\u00edvio. Apenas sentimos uma pena profunda dela. E \u00e9 este sentimento que importa.<\/p>\n<p>&#8220;Agora seque suas l\u00e1grimas, minha cara (&#8230;) Seu t\u00e1xi est\u00e1 aqui, minha cara&#8221; &#8211; n\u00e3o por acaso, \u00e9 assim que esta obra-prima termina: ela precisa parar de chorar&#8230; e ir embora.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2002)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se voc\u00ea perguntar a v\u00e1rios f\u00e3s do Morrissey qual o seu \u00e1lbum preferido, provavelmente nenhum vai citar &#8220;Kill Uncle&#8221;, de 1991.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2084,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[81],"class_list":["post-2083","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-musica","tag-morrissey","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2083","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2083"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2083\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2086,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2083\/revisions\/2086"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2084"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}