{"id":2080,"date":"2015-11-23T15:13:18","date_gmt":"2015-11-23T15:13:18","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2080"},"modified":"2015-11-23T15:13:18","modified_gmt":"2015-11-23T15:13:18","slug":"o-paradoxo-entre-bach-e-o-nu-metal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2080","title":{"rendered":"O paradoxo entre Bach e o Nu Metal"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><del><\/del>&#8220;Existem v\u00e1rias refer\u00eancias que levam a crer que o nu metal ser\u00e1 o verdugo de nossa gera\u00e7\u00e3o. Incompreendido e atacado, Bach tamb\u00e9m foi por seus contempor\u00e2neos&#8221;<br \/>\n(Marcos Fernandes adivinhando o tema de uma coluna minha)<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando o meu grande amigo Marcos Fernandes criou uma sugest\u00e3o de lay-out para a p\u00e1gina incial deste site, abaixo do nome de cada participante ele escreveu uma frase que corresponderia a uma coluna pass\u00edvel de ser escrita pelo autor. Conhecedor da minha opini\u00e3o, e sabedor do meu gosto por nu-metal e por Bach, o Marcos escreveu de maneira brilhante a &#8220;minha&#8221; frase e o &#8220;meu&#8221; t\u00edtulo &#8211; que s\u00e3o os que encabe\u00e7am este texto. Desde que os li penso em escrever algo a respeito.<!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o lembro exatamente quando escutei, pela primeira vez, uma banda de nu-metal (corruptela de new metal). Provavelmente foi num clipe do Korn na MTV. Aquele contraste entre o descontra\u00eddo visual dos integrantes da banda, quase igual ao de rappers, com o vocal e a intrumenta\u00e7\u00e3o graves e pesad\u00edssimos me pareceu terrivelmente desagrad\u00e1vel. S\u00f3 o que eu conseguia pensar \u00e9 que eles n\u00e3o tinham nenhum humor. Mais tarde, ouvi o cd Three dollar bill do Limp Bizkit e a impress\u00e3o se manteve. Na mesma \u00e9poca, assisti na MTV um show onde v\u00e1rias bandas de nu-metal tocavam, e quando vi a cara de Serj Tankian do System of A Down s\u00f3 consegui pensar: este sujeito simp\u00e1tico e igual ao Juarez Machado n\u00e3o pode (n\u00e3o pode!) tocar este som t\u00e3o agressivo. O contraste entre a alegria esfuziante de Tankian e o peso da m\u00fasica me parecia t\u00e9trico como um filme de terror.<\/p>\n<p>Lembro pouco da primeira vez que tive contato com o nu-metal, e menos ainda da \u00e9poca em que comecei a mudar de opini\u00e3o. Eu sei que, mais ou menos um ano ap\u00f3s os primeiros e infrut\u00edferos contatos, eu comecei a virar f\u00e3 do g\u00eanero (o que continuo sendo at\u00e9 hoje). Bem diferente do meu amigo Marcelo Costa, que disse aqui que as bandas mais criativas da atualidade s\u00e3o Radiohead, Mercury Rev, Flaming Lips e Wilco, para mim a inova\u00e7\u00e3o da atualidade no rock est\u00e1 nas bandas de nu-metal. As bandas deste estilo t\u00eam &#8211; de forma exacerbada, exagerada &#8211; caracter\u00edsticas que s\u00e3o quase sempre consideradas louv\u00e1veis numa banda de rock: for\u00e7a, energia, pegada, estas coisas. Ao ouvir uma boa banda de nu-metal &#8211; obviamente, como sempre, h\u00e1 varia\u00e7\u00e3o na qualidade das bandas &#8211; tem-se a impress\u00e3o de que se est\u00e1 sendo sacudido, tal \u00e9 a pot\u00eancia das m\u00fasicas. O principal objetivo do estilo, inclusive, parece mais fazer barulho e ser intenso do que propriamente ser mel\u00f3dico, numa radicaliza\u00e7\u00e3o extrema do &#8220;conceito&#8221; rock and roll. Mesmo com estas qualidades poucos g\u00eaneros s\u00e3o t\u00e3o desprezados pela cr\u00edtica &#8211; apesar do enorme sucesso do estilo entre o p\u00fablico adolescente (o que tamb\u00e9m ocorreu com outra grande banda, o Black Sabbath dos anos 70, conforme comentei aqui). Nos pr\u00f3ximos par\u00e1grafos vou apresentar alguns argumentos se contrapondo \u00e0s principais cr\u00edticas contra o estilo. (Antes de prosseguir, permitam-me uma pequena digress\u00e3o: o fato de eu gostar igualmente de m\u00fasica erudita e de m\u00fasica pop me permite, quem sabe, um distanciamento maior em rela\u00e7\u00e3o a cada um destes g\u00eaneros &#8211; ao mesmo tempo que me dificulta a discuss\u00e3o, no sentido da igualdade de conhecimento, com especialistas em cada estilo.)<\/p>\n<p>\u00c9 ineg\u00e1vel que grande n\u00famero de detratores do estilo usam contra o nu-metal argumentos em tudo semelhantes \u00e0queles que as gera\u00e7\u00f5es mais velhas utilizam contra o rock &#8211; todo o rock. Vulgaridade (ou superficialidade) \u00e9 um. Falta de melodia \u00e9 outro. \u00c9 como se uma gera\u00e7\u00e3o simplesmente fosse surda \u00e0s tentativas de express\u00e3o da gera\u00e7\u00e3o posterior. Foi assim com a \u00f3pera, que era vulgar perante a m\u00fasica de concerto. Posteriormente aconteceu o mesmo com o jazz, que era vulgar perante a m\u00fasica cl\u00e1ssica &#8211; e, claro, algo semelhante acontece com o rock, que at\u00e9 hoje \u00e9 considerado vulgar perante grande parte dos amantes de m\u00fasica erudita e dos aficcionados por jazz. Os novos estilos trazem novos elementos na m\u00fasica, com os quais as pessoas que cresceram ouvindo estilos anteriores n\u00e3o est\u00e3o acostumadas &#8211; e, por isto, muitas vezes tendem tendem simplesmente a depreciar. E qual seria o novo elemento do nu-metal? Os acordes graves e intensos, muitas vezes repetitivos. Bandas como System of a Down, Papa Roach e Limp Bizkit se baseiam muito mais em notas graves no baixo e na guitarra do que os demais grupos de rock &#8211; e \u00e9 isto que as torna t\u00e3o estranhas aos ouvidos desacostumados. A inclus\u00e3o de elementos do hip-hop tem sua import\u00e2ncia e \u00e9 muito interessante &#8211; mas s\u00e3o os acordes graves, intensos e \u00e0s vezes repetitivos mesmo que fazem a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Um outro argumento, segundo o qual o nu-metal carece de originalidade, parece mais s\u00f3lido que os anteriores. Nenhuma das bandas anteriores ao estilo (\u00e0s quais eu tive acesso) e que, segundo se diz, j\u00e1 faziam algo igual ao nu-metal h\u00e1 muito tempo &#8211; Ministry, Faith No More, Sepultura -, me pareceu, simultaneamente, ter todos os elementos do g\u00eanero: rock pesad\u00edssimo e \u00e0s vezes repetitivo, ritmo um tanto lento, predomin\u00e2ncia de acordes graves e intensos, elementos de hip-hop, vocal berrado ou apenas agressivo. Apesar disto, \u00e9 imposs\u00edvel negar que o nu-metal tenha, sim, sofrido grande influ\u00eancia de bandas que vieram antes &#8211; como sempre acontece, ali\u00e1s. E \u00e9 neste ponto que tenho que defender uma outra id\u00e9ia: a de que a originalidade, na arte, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante. A grandeza de um artista reside muito mais na sua for\u00e7a interior, na sua maneira de se expressar, do que se ele veio antes ou depois de outro artista do mesmo g\u00eanero. Tenho para mim que grandes inovadores da m\u00fasica &#8211; por exemplo, Beethoven, Charlie Parker e o Velvet Underground &#8211; ficaram para posteridade n\u00e3o tanto por sua originalidade, mas principalmente por sua pr\u00f3pria grandeza. Tanto \u00e9 assim que exemplos de artistas n\u00e3o t\u00e3o originais e de qualidade indiscut\u00edvel s\u00e3o in\u00fameros: Mozart nasceu 24 anos depois de Haydn, pertence ao mesmo estilo &#8211; o clacissismo -, mas \u00e9 universalmente reconhecido como o maior dos dois; h\u00e1 muito do Beethoven dos \u00faltimos quartetos na obra camer\u00edstica de Brahms, e nem por isto Brahms deixa de ser um dos maiores compositores de todos os tempos; os Beatles dos primeiros discos eram em tudo semelhantes ao rock que se fazia na \u00e9poca &#8211; mas praticamente s\u00f3 eles mesmos \u00e9 que ainda s\u00e3o escutados com interesse art\u00edstico, e n\u00e3o hist\u00f3rico; mesmo o Nirvana, considerada geralmente a maior banda dos anos 90, era sucesso de p\u00fablico e de cr\u00edtica muito mais por causa de sua for\u00e7a art\u00edstica do que por causa da sua &#8211; discut\u00edvel &#8211; originalidade. E assim, inesperadamente, este texto termina com mais um paralelo (ou paradoxo, como diria Marcos Fernandes) entre Bach e o nu-metal: o alem\u00e3o, autor de A Arte da Fuga e da Oferenda Musical e que hoje \u00e9 considerado o maior compositor de todos os tempos, foi tamb\u00e9m o \u00faltimo grande compositor do barroco, um estilo que j\u00e1 existia muito antes dele &#8211; tanto \u00e9 assim que, quando era vivo, n\u00e3o s\u00f3 sua obra era considerada de pouco valor, como tamb\u00e9m ultrapassada.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Existem v\u00e1rias refer\u00eancias que levam a crer que o nu metal ser\u00e1 o verdugo de nossa gera\u00e7\u00e3o. Incompreendido e atacado, Bach tamb\u00e9m foi por seus contempor\u00e2neos&#8221; (Marcos Fernandes adivinhando o tema de uma coluna minha) Quando o meu grande amigo Marcos Fernandes criou uma sugest\u00e3o de lay-out para a p\u00e1gina incial deste site, abaixo do nome de cada participante ele escreveu uma frase que corresponderia a uma coluna pass\u00edvel de ser escrita pelo autor. Conhecedor da minha opini\u00e3o, e sabedor do meu gosto por nu-metal e por Bach, o Marcos escreveu de maneira brilhante a &#8220;minha&#8221; frase e o &#8220;meu&#8221; t\u00edtulo &#8211; que s\u00e3o os que encabe\u00e7am este texto. 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