{"id":2074,"date":"2015-11-21T00:24:19","date_gmt":"2015-11-21T00:24:19","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2074"},"modified":"2015-11-21T02:44:52","modified_gmt":"2015-11-21T02:44:52","slug":"solaris-de-andrei-tarkovski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=2074","title":{"rendered":"&#8220;Solaris&#8221;, de Andrei Tarkovski"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>&#8220;Os jovens adoram Tarkosvki por que confundem lentid\u00e3o com profundidade&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<p>Logo ap\u00f3s ter escrito, numa coluna anterior,\u00a0que o Paulo Francis era um jornalista que fazia sucesso por fazer cr\u00edticas destrutivas, recebi um e-mail onde o Rodrigo James (tamb\u00e9m colaborador deste site) dizia que eu n\u00e3o deveria comparar o Alvaro Pereira J\u00fanior e o Diogo Mainardi com o Paulo Francis pois este \u00faltimo <em>sabia do que falava<\/em>. A frase acima, sobre o diretor de cinema russo Andrei Tarkovski (1932-1986), e que me foi citada recentemente pela minha amiga I\u00e1skara, \u00e9 uma prova inequ\u00edvoca de que freq\u00fcentemente o Francis era certeiro em seus coment\u00e1rios.<!--more--><\/p>\n<p><em>Solaris<\/em>, lan\u00e7ado em 1972 e objeto de uma refilmagem recente com George Clooney, \u00e9, como todos os filmes de Tarkovski, de uma lentid\u00e3o exasperante (apesar de ser mais \u00e1gil que <em>Stalker<\/em> ou <em>Sacrif\u00edcio<\/em>, por exemplo). O filme tem quase tr\u00eas horas e conta a hist\u00f3ria de Cris Kelvin (vivido por Donatas Babionis), um astronauta russo que tem a miss\u00e3o de desativar uma esta\u00e7\u00e3o espacial no planeta Solaris, onde eventos estranhos est\u00e3o acontecendo. Chegando l\u00e1 ele descobre que acontecimentos esquisitos s\u00e3o estes: as pessoas mais presentes no pensamento de quem visita a esta\u00e7\u00e3o se materializam e assumem vida pr\u00f3pria. Quem aparece diante de Cris Kelvin \u00e9 Hari, sua bela esposa j\u00e1 falecida, a qual o tinha abandonado ap\u00f3s uma discuss\u00e3o com a sogra, m\u00e3e do astronauta. Este ent\u00e3o tem um t\u00f3rrido romance com sua esposa materializada, e o restante do filme trata do seu drama, j\u00e1 que ele est\u00e1 apaixonado por uma &#8220;Hari&#8221; ef\u00eamera\u00a0 &#8211; j\u00e1 que ela s\u00f3 existe quando est\u00e1 pr\u00f3xima dele e ainda sob a a\u00e7\u00e3o dos raios de Solaris &#8211; e quase fantasmag\u00f3rica.<\/p>\n<p>O par\u00e1grafo acima praticamente resume <em>todo<\/em> o filme Solaris, que, conforme exposto acima, tem quase tr\u00eas horas de dura\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade que este resumo parece muito curto, mas outro filme de Tarkovski,<em>Sacrif\u00edcio<\/em>, pode ser resumido numa frase: &#8220;um homem tem rela\u00e7\u00f5es sexuais com uma bruxa para evitar que o mundo seja destru\u00eddo&#8221;. Bem como dizia Paulo Francis, Tarkovski n\u00e3o \u00e9 profundo. Se formos comparar os seus enredos com os dos filmes de Ingmar Bergman por exemplo &#8211; com quem \u00e9 freq\u00fcentemente equiparado -, os do diretor russo parecem vindos de um filme B.<\/p>\n<p>Apesar de tudo isto, Tarkovski fascina. Seus filmes mostram um mundo em lenta decomposi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o freq\u00fcentes longas tomadas de goteiras, de lugares sujos, de lixo. Em <em>Solaris<\/em> a esta\u00e7\u00e3o espacial tem coisas velhas jogadas em toda parte, e os objetos est\u00e3o sempre dispostos de maneira desorganizada. \u00c9 um filme de ficc\u00e7\u00e3o cient\u00edfica sem nenhum efeito especial: embora se passe num futuro distante, todas as pessoas usam roupas contempor\u00e2neas o tempo todo, e nenhum equipamento parece muito moderno. A sua forma de filmar \u00e9 not\u00e1vel: os longos <em>closes<\/em> parecem captar o pensamento das personagens; as tomadas lentas, quase paradas, aumentam terrivelmente a tens\u00e3o do enredo; elipses (elimina\u00e7\u00e3o de cenas subentendidas) tamb\u00e9m s\u00e3o freq\u00fcentes, tornando ainda maior a sensa\u00e7\u00e3o de estranheza. Tarkovski \u00e9 praticamente o criador de uma nova est\u00e9tica, exasperante e fascinante ao mesmo tempo. Assim como em Limite, de M\u00e1rio Peixoto a maneira de contar \u00e9 mais importante do que a hist\u00f3ria em si.<\/p>\n<p>Assim, involuntariamente Paulo Francis acabou &#8220;acertando no que n\u00e3o viu&#8221;: n\u00e3o s\u00f3 os jovens gostam de Tarkovski por que acham que lentid\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de profundidade, mas tamb\u00e9m por que s\u00e3o freq\u00fcentemente receptivos a novas formas de olhar o mundo.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os jovens adoram Tarkosvki por que confundem lentid\u00e3o com profundidade&#8221; Logo ap\u00f3s ter escrito, numa coluna anterior,\u00a0que o Paulo Francis era um jornalista que fazia sucesso por fazer cr\u00edticas destrutivas, recebi um e-mail onde o Rodrigo James (tamb\u00e9m colaborador deste site) dizia que eu n\u00e3o deveria comparar o Alvaro Pereira J\u00fanior e o Diogo Mainardi com o Paulo Francis pois este \u00faltimo sabia do que falava. A frase acima, sobre o diretor de cinema russo Andrei Tarkovski (1932-1986), e que me foi citada recentemente pela minha amiga I\u00e1skara, \u00e9 uma prova inequ\u00edvoca de que freq\u00fcentemente o Francis era certeiro em seus coment\u00e1rios.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":2075,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[53],"tags":[287],"class_list":["post-2074","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema","tag-andrei-tarkovski","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=2074"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2077,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/2074\/revisions\/2077"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/2075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=2074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=2074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=2074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}