{"id":1927,"date":"2015-11-03T01:30:49","date_gmt":"2015-11-03T01:30:49","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1927"},"modified":"2015-10-30T01:36:52","modified_gmt":"2015-10-30T01:36:52","slug":"rapidos-comentarios-sobre-livros-lidos-8","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1927","title":{"rendered":"R\u00e1pidos coment\u00e1rios sobre livros lidos \u2013 8"},"content":{"rendered":"<p>Uma pena que o primeiro livro J.M.G. Le Cl\u00e9zio, pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2008, sobre o qual escrevo seja\u00a0<em>R\u00e9volutions <\/em>(Gallimard). Sou um grande admirador do autor, e gostava de seus livros antes mesmo de ele ter recebido o Nobel. Suas obras frequentemente t\u00eam longos per\u00edodos em que nada parece acontecer, mas os finais s\u00e3o t\u00e3o bonitos que fazem com que o todo fa\u00e7a sentido. Seus livros s\u00e3o plenos de bons sentimentos e poesia &#8211; mas nunca sentimentaloides ou apelativos.<!--more--><\/p>\n<p><em>R\u00e9volutions <\/em>t\u00eam muito do que foi descrito acima, mas a hist\u00f3ria de Jean Marro, estudante franc\u00eas que foge da guerra da Arg\u00e9lia indo fazer medicina em Londres, em longos trechos \u00e9 sem sentido e autoindulgente. \u00a0Espero ter mais sorte no pr\u00f3ximo livro de Le Cl\u00e9zio, e venho contar aqui como foi.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Muito melhor \u00e9 <em>O avesso da vida<\/em>, de Philip Roth (Companhia das Letras). O romance conta,\u00a0de uma maneira ca\u00f3tica e contradit\u00f3ria,\u00a0a hist\u00f3ria do escritor judeu americano Nathan Zuckerman (presente em muitos livros de Roth). Em um cap\u00edtulo o irm\u00e3o do escritor morre, ao fazer uma opera\u00e7\u00e3o arriscada para recuperar a virilidade &#8211; ele queria fazer sexo com sua amante. No cap\u00edtulo seguinte o mesmo irm\u00e3o est\u00e1 vivo e vira um ortodoxo sionista em Israel. Depois, tudo muda de novo. E, o que \u00e9 mais incr\u00edvel, a hist\u00f3ria faz sentido.<\/p>\n<p>O juda\u00edsmo, o cristianismo, as rela\u00e7\u00f5es entre judeus e crist\u00e3os, entre sionistas e judeus moderados, entre a Di\u00e1spora e Israel &#8211; s\u00e3o muitas as discuss\u00f5es e pol\u00eamicas deste livro explosivo. Grande escritor, Philip Roth d\u00e1 voz a todos os personagens e, por mais que imaginemos de que lado ele est\u00e1 numa discuss\u00e3o, nunca \u00e9 manique\u00edsta. Ficamos sem saber quem \u00e9 o mocinho e quem \u00e9 o bandido, afinal de contas &#8211; mas acabamos a leitura mais ricos espiritualmente do que a come\u00e7amos.<\/p>\n<p>Esta falta de manique\u00edsmo tamb\u00e9m aparece em outro livro de Roth, <em>A humilha\u00e7\u00e3o <\/em>(Companhia das Letras). A novela conta a hist\u00f3ria de Simon Axler, importante ator de teatro que simplesmente perde a inspira\u00e7\u00e3o de atuar de uma hora para outra. Ele entra numa depress\u00e3o profunda, passa por uma cl\u00ednica psiqui\u00e1trica, desiste da profiss\u00e3o e vai passar seus dias sozinho, em sua casa de campo. Acaba encontrando uma mulher homossexual bem mais jovem, Pegeen, por quem se apaixona e vive um t\u00f3rrido caso de amor.<\/p>\n<p>Qual o verdadeiro car\u00e1ter de Pegeen? O que ela quer de Simon, exatamente? Os pais dela, afinal de contas, n\u00e3o t\u00eam certa raz\u00e3o em querer que a filha evite o caso com um homem t\u00e3o mais velho e que j\u00e1 viveu uma crise psiqui\u00e1trica profunda? Como sempre, nada \u00e9 f\u00e1cil quando o assunto \u00e9 Philip Roth &#8211; e Simon Axler sente isto na pele.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Menos tr\u00e1gico, mas um tanto amargo, \u00e9 <em>How to be good<\/em> (Penguin &#8211; a edi\u00e7\u00e3o brasileira se chama <em>Como ser legal<\/em>, da Rocco). No romance, Katie Carr (a narradora) \u00e9 uma m\u00e9dica num casamento em crise. Seu marido, David, \u00e9 um sujeito engra\u00e7ado e\u00a0 mal-humorado que ganha dinheiro fazendo algumas tradu\u00e7\u00f5es de manuais t\u00e9cnicos e uma coluna num jornal local chamada <em>&#8220;O homem mais mal-humorado de Holloway&#8221;<\/em>. At\u00e9 que um belo dia ele muda completamente de comportamento, quando conhece uma esp\u00e9cie de guru <em>new age <\/em>chamado GoodNews (boas not\u00edcias) e come\u00e7a a querer ser bom. David e GoodNews passam seus dias tentando mudar o mundo: doam os brinquedos dos filhos do casal, convocam uma reuni\u00e3o com o intuito de que os vizinhos criem jovens que\u00a0 vivem na rua, e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p><em>How to be good <\/em>\u00e9 um livro agridoce &#8211; \u00e0s vezes triste, \u00e0s vezes c\u00f4mico. Nick Hornby n\u00e3o chega a ser genial como Philip Roth, mas nem precisa disso. Seus livros s\u00e3o uma del\u00edcia de ler.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Quando comprei o livro, achei que <em>Entre os v\u00e2ndalos<\/em>, de Bill Buford (Companhia das Letras) fosse como <em>Di\u00e1rio de um skinhead &#8211; um infiltrado no movimento neonazista<\/em>, do jornalista espanhol Antonio Salas (Planeta). Explico: na contracapa de <em>Entre os v\u00e2ndalos <\/em>est\u00e1 escrito que Bill Buford viveu como um <em>hooligan<\/em> ingl\u00eas, se entupindo de cerveja e <em>fish&#8217;n&#8217;chips<\/em>. O problema \u00e9 que o jornalista n\u00e3o chegou a se infiltrar de fato, j\u00e1 que sempre falava para os<em>hooligans <\/em>que estava l\u00e1 para escrever sobre ele. No livro de Antonio Salas, por outro lado, o jornalista <em>realmente<\/em>se infiltrou entre os neonazistas &#8211; o que torna aterradoras as suas descri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De todo modo, <em>Entre os v\u00e2ndalos <\/em>\u00e9 impressionante. Temos uma boa descri\u00e7\u00e3o de como vivem e como pensam aqueles ingleses que costumam, como uma horda de hunos, destruir as cidades por onde passam.<em> \u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>(publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/blogs\/livro-lidos-recentemente-2.html\">blog do Mondo Bacana<\/a> em 10 de outubro de 2010)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma pena que o primeiro livro J.M.G. Le Cl\u00e9zio, pr\u00eamio Nobel de Literatura de 2008, sobre o qual escrevo seja\u00a0R\u00e9volutions (Gallimard). 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