{"id":1923,"date":"2015-11-01T01:22:51","date_gmt":"2015-11-01T01:22:51","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1923"},"modified":"2015-10-30T01:28:24","modified_gmt":"2015-10-30T01:28:24","slug":"rapidos-comentarios-sobre-livros-lidos-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1923","title":{"rendered":"R\u00e1pidos coment\u00e1rios sobre livros lidos \u2013 7"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7amos pelo melhor: Summertime, do Pr\u00eamio Nobel de 2003 J.M. Coetzee (Viking &#8211; a edi\u00e7\u00e3o brasileira se chama Ver\u00e3o, e foi publicada pela Companhia das Letras) \u00e9 o terceiro volume das &#8220;mem\u00f3rias&#8221; do autor, e trata de vida de Coetzee na \u00c1frica do Sul, no in\u00edcio dos anos setenta. O livro composto por uma s\u00e9rie de entrevistas, feitas por um jovem jornalista, com pessoas que conheceram Coetzee, inclusive uma brasileira pela qual Coetzee esteve apaixonado.\u00a0 Uma das muitas coisas inusitadas em Summertime \u00e9 que, no livro, Coetzee j\u00e1 est\u00e1 morto, o que na realidade n\u00e3o aconteceu &#8211; o grande escritor est\u00e1 vivinho da silva. Outro exemplo \u00e9 que, no in\u00edcio dos aos setenta, o autor estava casado e com filhos, enquanto que em Summertime ele \u00e9 celibat\u00e1rio e vive com o pai.<\/p>\n<p>A partir desta premissa falsa, torna-se claro que Coetzee, propositadamente, escreveu uma obra que \u00e9 um h\u00edbrido de fic\u00e7\u00e3o e realidade &#8211; e o leitor fica sem saber onde come\u00e7a uma e termina outra.<\/p>\n<p>Summertime mostra um Coetzee estranho, solit\u00e1rio e calado. Uma das mulheres entrevistadas diz que ele passa a sensa\u00e7\u00e3o de ser &#8220;de madeira&#8221;, de t\u00e3o frio que \u00e9; em outro trecho \u00e9 dito que ele \u00e9 o tipo de pessoa que &#8220;n\u00e3o causa nenhuma impress\u00e3o dos outros&#8221;; a brasilera, por quem Coetzee sofre uma paix\u00e3o avassaladora e pat\u00e9tica, se irrita profundamente com ele; e a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o do autor que parece mal resolvida \u00e9 com sua prima de primeiro grau, que parece ainda ter mais do que uma queda por ele.<\/p>\n<p>Em Summertime, os depoimentos n\u00e3o chegam a se contradizer, mas frequentemente temos a sensa\u00e7\u00e3o de ver o autor muito de longe, como se fosse impossivel chegar no &#8220;Coetzee real&#8221;. \u00c9 esta sensa\u00e7\u00e3o geral de mist\u00e9rio e esquisitice que faz com que Summertime possa ser considerada, sem exagero, uma obra-prima.<!--more--><\/p>\n<hr \/>\n<p>Para quem est\u00e1 acostumado com o alt\u00edssimo padr\u00e3o liter\u00e1rio das obras de Philip Roth, O Fantasma Sai de Cena (Companhia das Letras) n\u00e3o chega a ser uma decep\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um pouco abaixo do que se espera. O romance conta a hist\u00f3ria da velhice de Nathan Zuckerman, um escritor judeu, personagem que j\u00e1 aparecera em outras obras do autor.<\/p>\n<p>A velhice \u00e9 um peso terr\u00edvel para Zuckerman. Impotente devido a um tratamento na pr\u00f3stata, ele se apaixona por Amy, uma jovem escritora casada residente em Nova Iorque que quer trocar de resid\u00eancia temporariamente com o escritor &#8211; que mora sozinho no campo. Zuckerman se apaixona perdidamente por Amy, e a descri\u00e7\u00e3o crua de seu sofrimento por ter um amor imposs\u00edvel, j\u00e1 que sua impot\u00eanca n\u00e3o tem cura, por uma mulher casada, \u00e9 o ponto alto do livro.<\/p>\n<p>Philip Roth decepciona um pouco na hist\u00f3ria paralela que descreve no em O Fantasma Sai de Cena: Zuckerman \u00e9 um grande f\u00e3 de um autor (fict\u00edcio) esquecido, E. I. Lonoff, que \u00e9 objeto de uma biografia sensacionalista a ser escrita por um jovem jornalista, Kliman. As pesadas tintas com as quais Roth descreve os interesses escusos de Kliman ao tentar contar a vida de Lonoff s\u00e3o excessivamente manique\u00edstas\u00a0 para os padr\u00f5es de Philip Roth (parece que ele est\u00e1 gritando o tempo todo &#8220;vejam como o jornalismo e a sociedade est\u00e3o corrompidos!!!&#8221;). A gente espera mais dele, n\u00e9?<\/p>\n<hr \/>\n<p>Confesso que nunca fui muito com a cara de Rudyard Kipling. Sempre ouvi falar que ele era um escritor que defendia os interesses imperialistas da Inglaterra na \u00cdndia e isto, por si s\u00f3, me fazia crer que ele era um escritor menor. Pobre ilus\u00e3o preconceitusa. O Homem que Queria Ser Rei e Outras Hist\u00f3rias (Cl\u00e1ssicos Abril Cole\u00e7\u00f5es) \u00e9 uma maravilha: lendo o livro, entramos no terreno do fant\u00e1stico, do ins\u00f3lito, do espetacular. Sim, ele \u00e9 favor\u00e1vel mesmo ao imperialismo ingl\u00eas na \u00cdndia, mas isto \u00e9 um detalhe insignificante perto da grandeza liter\u00e1ria da obra.<\/p>\n<p>Entre os muitos pontos altos deste espetacular livro de contos, poderia destacar O Homem que Queria ser Rei, que conta a hist\u00f3ria de dois malandros que assumem o poder numa terra distante; Mowgli, o Menino-Lobo, sobre um rapaz que domina os animais; \u00c0 Beira do Abismo, pugente hist\u00f3ria de amantes fracassados; Wee Willie Winkie, descri\u00e7\u00e3o v\u00edvida de um menino ador\u00e1vel; e o triste No Fim do Caminho.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Tamb\u00e9m de contos \u00e9 Putas Asesinas (Anagrama &#8211; existe uma edi\u00e7\u00e3o brasileira cujo t\u00edtulo \u00e9 Putas Assassinas, publicada pela Companhia das Letras), de Roberto Bola\u00f1o, autor do espetacular 2666, j\u00e1 comentado por aqui.<\/p>\n<p>Putas Asesinas \u00e9 o segundo livro do autor que eu leio, e como fiquei extremamente impressionado com 2666, comecei o livro com as melhores expectativas. Fiquei no meio termo entre o impressionado e o decepcionado.<\/p>\n<p>Alguns contos lembram 2666, pela tem\u00e1tica: Encuentro com Enrique Lihn \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o de um sonho; Dentista conta a hist\u00f3ria de um estranho personagem, um \u00f3timo escritor jovem que mora numa favela; Fotos \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o da leitura de um livro no meio do deserto. Outros contos s\u00e3o \u00f3timos, pungentes: El Ojo Silva \u00e9 sobre a triste hist\u00f3ria de crian\u00e7as eunucos na \u00cdndia; \u00daltimos Entardeceres em La Tierra \u00e9 sobre uma viagem de pai e filho. J\u00e1 Vagabundo Em Francia y B\u00e9lgica conta, com maestria, uma bacana hist\u00f3ria de vagabundagem.<\/p>\n<p>Em outros contos, por\u00e9m, as hist\u00f3rias s\u00e3o frouxas, e Bola\u00f1o n\u00e3o consegue despertar muito interesse no leitor. E por isto minha meia decep\u00e7\u00e3o com Putas Asesinas.<\/p>\n<p><em>(publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/blogs\/livros-lidos-recentemente-3.html\">blog do Mondo Bacana<\/a>\u00a0em 2010)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7amos pelo melhor: Summertime, do Pr\u00eamio Nobel de 2003 J.M. Coetzee (Viking &#8211; a edi\u00e7\u00e3o brasileira se chama Ver\u00e3o, e foi publicada pela Companhia das Letras) \u00e9 o terceiro volume das &#8220;mem\u00f3rias&#8221; do autor, e trata de vida de Coetzee na \u00c1frica do Sul, no in\u00edcio dos anos setenta. O livro composto por uma s\u00e9rie de entrevistas, feitas por um jovem jornalista, com pessoas que conheceram Coetzee, inclusive uma brasileira pela qual Coetzee esteve apaixonado.\u00a0 Uma das muitas coisas inusitadas em Summertime \u00e9 que, no livro, Coetzee j\u00e1 est\u00e1 morto, o que na realidade n\u00e3o aconteceu &#8211; o grande escritor est\u00e1 vivinho da silva. Outro exemplo \u00e9 que, no in\u00edcio dos aos setenta, o autor estava casado e com filhos, enquanto que em Summertime ele \u00e9 celibat\u00e1rio e vive com o pai. A partir desta premissa falsa, torna-se claro que Coetzee, propositadamente, escreveu uma obra que \u00e9 um h\u00edbrido de fic\u00e7\u00e3o e realidade &#8211; e o leitor fica sem saber onde come\u00e7a uma e termina outra. Summertime mostra um Coetzee estranho, solit\u00e1rio e calado. Uma das mulheres entrevistadas diz que ele passa a sensa\u00e7\u00e3o de ser &#8220;de madeira&#8221;, de t\u00e3o frio que \u00e9; em outro trecho \u00e9 dito que ele \u00e9 o tipo de pessoa que &#8220;n\u00e3o causa nenhuma impress\u00e3o dos outros&#8221;; a brasilera, por quem Coetzee sofre uma paix\u00e3o avassaladora e pat\u00e9tica, se irrita profundamente com ele; e a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o do autor que parece mal resolvida \u00e9 com sua prima de primeiro grau, que parece ainda ter mais do que uma queda por ele. Em Summertime, os depoimentos n\u00e3o chegam a se contradizer, mas frequentemente temos a sensa\u00e7\u00e3o de ver o autor muito de longe, como se fosse impossivel chegar no &#8220;Coetzee real&#8221;. \u00c9 esta sensa\u00e7\u00e3o geral de mist\u00e9rio e esquisitice que faz com que Summertime possa ser considerada, sem exagero, uma obra-prima.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1924,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[133,131,119,277],"class_list":["post-1923","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-j-m-coetzee","tag-philip-roth","tag-roberto-bolano","tag-rudyard-kipling","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1923","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1923"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1923\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1925,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1923\/revisions\/1925"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1924"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1923"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1923"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1923"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}