{"id":1911,"date":"2015-10-30T01:11:25","date_gmt":"2015-10-30T04:11:25","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1911"},"modified":"2016-03-15T21:40:55","modified_gmt":"2016-03-16T00:40:55","slug":"rapidos-comentarios-sobre-livros-lidos-6-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1911","title":{"rendered":"R\u00e1pidos coment\u00e1rios sobre livros lidos \u2013 6"},"content":{"rendered":"<p>Restif de la Bretonne (1734-1806) era um escritor franc\u00eas que viveu numa \u00e9poca extremamente conturbada na Fran\u00e7a, e \u00e9 representante do &#8220;Segundo Iluminismo&#8221; (fim do s\u00e9culo XVIII). Sua obra, extremamente vasta, e frequentemente autobiogr\u00e1fica, fez com que ele fosse apelidado de &#8220;Rousseau da sarjeta&#8221;. Este apelido engloba sua preocupa\u00e7\u00e3o social e seu gosto pelo sexo e pela pornografia.<!--more--><\/p>\n<p>Um dos \u00faltimos livros do autor, &#8220;Anti-Justine&#8221; (L&amp;PM Editores) \u00e9 uma obra que pretende se contrapor ao &#8220;Justine&#8221;, de Sade &#8211; famoso por misturar, sempre, sexo com dor e sofrimento. Para Restiff de la Bretonne, ao contr\u00e1rio, o sexo deve ser motivo de alegria. Mas ele n\u00e3o precisava exagerar: em &#8220;Anti-Justine&#8221;, pais fazem sexo com filhas, e todos adoram o incesto cometido &#8211; o que \u00e9 absolutamente irreal e, nem preciso acrescentar, desaconselh\u00e1vel. De todo modo, a overdose de sexo sujo e expl\u00edcito que \u00e9 o livro como um todo tem partes realmente agrad\u00e1veis &#8211; e outras muito engra\u00e7adas, de modo involunt\u00e1rio.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Li recentemente as duas mais recentes enc\u00edclicas do Papa Bento XVI, &#8220;Caritas in Veritate&#8221; e &#8220;Spe Salvi&#8221;. Nenhuma das duas \u00e9 t\u00e3o boa quando &#8220;Deus caritas est&#8221;, a outra enc\u00edclica do Papa (que li assim que foi lan\u00e7ada, em 2005), mas s\u00e3o excelentes obras deste te\u00f3logo refinad\u00edssimo que \u00e9 Bento XVI.<\/p>\n<p>&#8220;Caritas in veritate&#8221; (que pode ser lida no <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html) discorre com detalhes sobre a teoria social da Igreja. O Papa n\u00e3o \u00e9 contra o capitalismo - muito pelo contr\u00e1rio - mas insta os empres\u00e1rios para que sejam mais caridosos e justos. \u00c9 a fun\u00e7\u00e3o dele, claro, e ningu\u00e9m pode ser contr\u00e1rio a isto. Mas n\u00e3o chega a ser uma leitura apaixonante. Muito melhor \u00e9 &quot;Spe salvi&quot; (que pode ser lida no site do Vaticano:http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.html), que trata de um assunto que o Papa conhece melhor, a esperan\u00e7a crist\u00e3. O modo profundamente respeitoso e com conhecimento de causa com o qual ele cita fil\u00f3sofos descrentes (como Adorno, Bacon e Horkheimer) e a teologia de outras religi\u00f5es (como o protestantismo e o juda\u00edsmo antigo), al\u00e9m da descri\u00e7\u00e3o interessant\u00edssima de detalhes hist\u00f3ricos (como os t\u00famulos do in\u00edcio do cristianismo) fazem de &quot;Spe salvi&quot; uma leitura profundamente enriquecedora - tanto espiritual quanto culturalmente. Existe um certo tipo de literatura em que o narrador conta tudo em primeira pessoa e, de maneira circular, volta todo o tempo para um acontecimento ou uma ideia. Fazem parte deste tipo de narrativa o &quot;Kaddish: para uma crian\u00e7a n\u00e3o nascida&quot;, de\" target=\"_blank\">aqui<\/a>) discorre com detalhes sobre a teoria social da Igreja. O Papa n\u00e3o \u00e9 contra o capitalismo &#8211; muito pelo contr\u00e1rio &#8211; mas insta os empres\u00e1rios para que sejam mais caridosos e justos. \u00c9 a fun\u00e7\u00e3o dele, claro, e ningu\u00e9m pode ser contr\u00e1rio a isto. Mas n\u00e3o chega a ser uma leitura apaixonante.<\/p>\n<p>Muito melhor \u00e9 &#8220;Spe salvi&#8221; (que pode ser lida no <a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20071130_spe-salvi_po.htm\">site do Vaticano<\/a>), que trata de um assunto que o Papa conhece melhor, a esperan\u00e7a crist\u00e3. O modo profundamente respeitoso e com conhecimento de causa com o qual ele cita fil\u00f3sofos descrentes (como Adorno, Bacon e Horkheimer) e a teologia de outras religi\u00f5es (como o protestantismo e o juda\u00edsmo antigo), al\u00e9m da descri\u00e7\u00e3o interessant\u00edssima de detalhes hist\u00f3ricos (como os t\u00famulos do in\u00edcio do cristianismo) fazem de &#8220;Spe salvi&#8221; uma leitura profundamente enriquecedora &#8211; tanto espiritual quanto culturalmente.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Existe um certo tipo de literatura em que o narrador conta tudo em primeira pessoa e, de maneira circular, volta todo o tempo para um acontecimento ou uma ideia. Fazem parte deste tipo de narrativa o &#8220;Kaddish: para uma crian\u00e7a n\u00e3o nascida&#8221;, de Imre Kert\u00e9sz (Imago), que comentei aqui recentemente, e &#8220;Amuleto&#8221; (Anagrama &#8211; a edi\u00e7\u00e3o nacional, de mesmo nome, \u00e9 da Companhia das Letras).<\/p>\n<p>Se em &#8220;Kaddish&#8230;&#8221; o fato que sempre volta \u00e0 baila \u00e9 a impossibilidade de ter filhos depois de Auschwitz, em &#8220;Amuleto&#8221;, a narradora Auxilio Lacouture &#8211; a &#8220;m\u00e3e dos poetas do M\u00e9xico&#8221;, uma pessoa que n\u00e3o tem trabalho fixo e se encosta aqui e ali &#8211; \u00e9 obcecada por ter ficado presa no banheiro da Faculdade de Filosofia e Letras, ao mesmo tempo em que o pr\u00e9dio \u00e9 tomado pelas tropas militares, em 1968 &#8211; na mesma \u00e9poca em que houve o famoso massacre de Tlatelolco. Confesso que n\u00e3o sou um apreciador deste tipo de narrativa, que me parece mais cansativa que outra coisa.<\/p>\n<p>De todo modo, &#8220;Amuleto&#8221; tem uma boa quantidade de cenas fortes, que valem a leitura do livro: o metaf\u00f3rico final; a rela\u00e7\u00e3o de Auxilio com seu filho, que adorava desenhar; o encontro do poeta Arturo Belano com o &#8220;Rei dos Homossexuais&#8221; da Col\u00f4nia Guerrero.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Se eu tinha ficado chateado de ter comentado sobre &#8220;R\u00e9volutions&#8221;, de Le Cl\u00e9zio, que era o pior livro do autor Pr\u00eamio Nobel de 2008 que eu tinha lido at\u00e9 ent\u00e3o, agora \u00e9 com o maior prazer que recomendo a leitura deste excepcional &#8220;Hasard suivi de Angoli Mala&#8221; (Gallimard &#8211; n\u00e3o tem edi\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, at\u00e9 onde sei). O livro \u00e9 composto de duas novelas: a segunda, &#8220;Angoli Mala&#8221;, que fala sobre um menino \u00edndio que sofre horrores entre traficantes nas florestas da Am\u00e9rica Central e do Sul, \u00e9 mais curta e menos interessante. Mas \u00e9 &#8220;Hasard&#8221; (cuja tradu\u00e7\u00e3o seria algo como &#8220;destino&#8221;) \u00e9 que \u00e9 a obra-prima.<\/p>\n<p>A novela conta a hist\u00f3ria de Nassima, uma jovem negra e de cora\u00e7\u00e3o puro, cuja fam\u00edlia vem das Antilhas, e de sua rela\u00e7\u00e3o com Moguer, cineasta de sucesso, amargo, perseguido pelos fantasmas do passado &#8211; pode ter assassinado uma menina, com quem havia tido rela\u00e7\u00f5es sexuais -, e que passa meses a fio andando de barco pelos oceanos.<\/p>\n<p>Le Cl\u00e9zio faz uma literatura de boas inten\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes resvalando para o kitsch. \u00c9 comum ele idealizar povos e pessoas &#8211; o autor demonstra uma grande piedade e carinho pelos povos oprimidos, por exemplo, e parece realmente acreditar no mito do &#8220;bom selvagem&#8221;. Ao mesmo tempo, suas descri\u00e7\u00f5es de personagens, acontecimentos e paisagens s\u00e3o agudas, precisas, profundas. Por baixo de todo o verniz politicamente correto, reside um autor maior.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que este seu lado &#8220;puro&#8221; faz com que parte na cr\u00edtica n\u00e3o goste dele &#8211; o chato do Daniel Piza, do Estad\u00e3o, por exemplo, o chamou de &#8220;chat\u00e3o&#8221;. N\u00e3o importa. Le Cl\u00e9zio \u00e9 realmente grande.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Outro grande autor \u00e9 J.M. Coetzee, j\u00e1 citado aqui algumas vezes. O seu &#8220;Diary of a bad year&#8221; (Vintage &#8211; a edi\u00e7\u00e3o brasileira se chama &#8220;Di\u00e1rio de um ano ruim&#8221;, e \u00e9 da Companhia das Letras) \u00e9, na verdade, tr\u00eas livros &#8220;paralelos&#8221;. Na parte de cima de cada p\u00e1gina s\u00e3o apresentados ensaios que o personagem principal do livro, um autor chamado simplesmente &#8220;C.&#8221; &#8211; provavelmente o pr\u00f3prio Coetzee &#8211; est\u00e1 escrevendo. Na primeira parte de &#8220;Diary&#8230;&#8221; os ensaios s\u00e3o escritos para uma colet\u00e2nea de de v\u00e1rios autores e, na segunda, eles s\u00e3o de cunho mais pessoal, e sua elabora\u00e7\u00e3o foi proposta por sua secret\u00e1ria, Anya, por quem &#8220;C.&#8221; \u00e9 perdidamente apaixonado. A parte de baixo de cada p\u00e1gina de &#8220;Diary&#8230;&#8221; fala da rela\u00e7\u00e3o da secret\u00e1ria com &#8220;C.&#8221; e, na parte do meio de boa parte das p\u00e1ginas o personagem principal \u00e9 o noivo de &#8220;C.&#8221; \u00a0&#8211; que tenta dar um golpe no escritor.<\/p>\n<p>A maior parte da cr\u00edtica preferiu os ensaios, que falam de diversos assuntos, como a guerra do Iraque, a matem\u00e1tica, Bach, a Al-Qaeda, a gripe avi\u00e1ria, ser fotografado, e por a\u00ed vai. Realmente, o refinamento do racioc\u00ednio de &#8220;C.&#8221; \u00e9 extraordin\u00e1rio &#8211; mesmo discordando do que ele escreve, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o admirar sua capacidade de persuas\u00e3o e a originalidade de suas opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas eu mesmo preferi a hist\u00f3ria das partes de baixo das p\u00e1ginas de &#8220;Diary&#8230;&#8221;. A descri\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de Anya com seu noivo e com &#8220;C.&#8221; \u00e9 admir\u00e1vel, e a maneira como ela vai ficando cada vez mais importante &#8211; e mais brilhante em todos os sentidos &#8211; na narrativa, ao mesmo tempo em que os dois homens v\u00e3o desaparecendo na hist\u00f3ria, \u00e9 coisa de mestre.<\/p>\n<p><em>(publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/blogs\/livros-lidos-recentemente-4.html\">blog do Mondo Bacana<\/a> em 2010)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Restif de la Bretonne (1734-1806) era um escritor franc\u00eas que viveu numa \u00e9poca extremamente conturbada na Fran\u00e7a, e \u00e9 representante do &#8220;Segundo Iluminismo&#8221; (fim do s\u00e9culo XVIII). Sua obra, extremamente vasta, e frequentemente autobiogr\u00e1fica, fez com que ele fosse apelidado de &#8220;Rousseau da sarjeta&#8221;. Este apelido engloba sua preocupa\u00e7\u00e3o social e seu gosto pelo sexo e pela pornografia.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1912,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[179,276,133,117,333,275],"class_list":["post-1911","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-bento-xvi","tag-imre-kertesz","tag-j-m-coetzee","tag-j-m-g-le-clezio","tag-literatura-erotica","tag-restif-de-la-bretonne","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1911"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1911\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1920,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1911\/revisions\/1920"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1912"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}