{"id":1868,"date":"2015-10-22T03:16:41","date_gmt":"2015-10-22T03:16:41","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1868"},"modified":"2015-10-22T03:40:07","modified_gmt":"2015-10-22T03:40:07","slug":"michel-de-montaigne-o-primeiro-blogueiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1868","title":{"rendered":"Michel de Montaigne, o primeiro blogueiro"},"content":{"rendered":"<p>Quando pensei em escrever o texto sobre a edi\u00e7\u00e3o da Companhia das Letras de \u201cOs ensaios\u201d de Montaigne (uma sele\u00e7\u00e3o com cerca de 600 p\u00e1ginas, composta por um ter\u00e7o da obra total), a primeira coisa que me veio \u00e0 cabe\u00e7a foi o t\u00edtulo: \u201cMichel de Montaigne, o primeiro blogueiro\u201d. Ideia genial, pensei. At\u00e9 que fui procurar no Google para ver se algu\u00e9m tinha tido essa mesma ideia genial. E muitos a tiveram. Muitos mesmo. Em v\u00e1rias l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Tudo bem. N\u00e3o foi t\u00e3o genial assim.<!--more--><\/p>\n<p>De todo modo, por que Michel de Montaigne (1533-1592) \u00e9 considerado o primeiro blogueiro? Conforme a excelente introdu\u00e7\u00e3o, escrita por Erich Auerbach, o escritor tinha duas caracter\u00edsticas (negativas) que chamam a aten\u00e7\u00e3o: \u201ca falta de especializa\u00e7\u00e3o e de m\u00e9todo cient\u00edfico\u201d. Ainda segundo a introdu\u00e7\u00e3o,<\/p>\n<blockquote><p>\u201cMontaigne permanece leigo mesmo onde parece compreender alguma coisa \u2013 em pedagogia, por exemplo. \u00c9 dif\u00edcil acreditar que ele quisesse aprofundar-se seriamente numa das mat\u00e9rias de que trata casualmente. E, seja como for, suas realiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o dizem respeito a nenhuma delas. Ainda hoje \u00e9 dif\u00edcil definir em que consistem, e \u00e9 quase incompreens\u00edvel que tenham alcan\u00e7ado repercuss\u00e3o em sua \u00e9poca.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Em outras palavras: como bom blogueiro, sua especialidade era ser palpiteiro.<\/p>\n<p>Era m<span style=\"line-height: 1.5\">uito rico, e l\u00e1 pelas tantas se\u00a0recolheu para pensar sobre a vida: conforme\u00a0a contracapa da edi\u00e7\u00e3o,<\/span><\/p>\n<blockquote><p>\u201cherdeiro de uma fortuna deixada pelo av\u00f4, um comerciante de peixes abastado, Montaigne foi alfabetizado em latim e tamb\u00e9m prefeito de Bordeaux. A certa altura, retirou-se para ler, meditar e escrever sobre praticamente tudo.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Em seu livro, os assuntos v\u00e3o se sucedendo meio que de maneira aleat\u00f3ria, e frequentemente em um mesmo ensaio h\u00e1 algumas mudan\u00e7as de tema\u00a0sem um objetivo aparente: tantos s\u00e3o os assuntos\u00a0que \u00e9 dif\u00edcil fazer um \u201cresumo\u201d da obra como um todo. Outra caracter\u00edstica importante de \u201cOs ensaios\u201d \u00e9 a maneira pela qual o autor\u00a0mistura coment\u00e1rios de interesse geral com aspectos de sua vida \u00edntima: em \u201cSobre tr\u00eas versos de Virg\u00edlio\u201d, por exemplo, Montaigne n\u00e3o s\u00f3 discorre\u00a0corajosamente sobre sua vida sexual, como \u2013 de maneira um tanto inesperada para algu\u00e9m do s\u00e9culo XVI \u2013 sugere que as mulheres devem ter a mesma liberdade que os homens neste aspecto. Em alguns ensaios o autor\u00a0comenta sobre a sua escolha religiosa: em tempos de Reforma Protestante, o escritor decidiu-se firmemente pelo catolicismo. Por outro lado, na maioria dos ensaios \u2013 de\u00a0car\u00e1ter laico \u2013 a mentalidade religiosa parece totalmente ausente: por exemplo, seus ensaios sobre a morte (em que a possibilidade da continuidade da vida post mortem\u00a0praticamente n\u00e3o \u00e9 aventada) e o arrependimento (em que ele comenta que apenas a consci\u00eancia, e n\u00e3o a religi\u00e3o, deve definir se ele deve ou n\u00e3o se arrepender \u00a0de alguma atitude que tomou), n\u00e3o parecem escritos por um crente. Em alguns textos, sobressai a modernidade do pensamento de Montaigne em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua \u00e9poca: por exemplo, ele n\u00e3o acreditava na medicina \u2013 o que \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel para algu\u00e9m de nosso s\u00e9culo,\u00a0dados os procedimentos m\u00e9dicos\u00a0descritos por ele; do mesmo modo, ele critica as terr\u00edveis torturas a que os prisioneiros eram submetidos e as decis\u00f5es da Justi\u00e7a baseados em argumentos sobrenaturais, como bruxaria ou mau-olhado. Muito interessante para o leitor brasileiro \u00e9 o refinado ensaio sobre seu encontro com \u00edndios brasileiros em Rouen.<\/p>\n<p>De maneira um tanto pretensiosa, a\u00a0contracapa da edi\u00e7\u00e3o da Companhia das Letras apresenta o seguinte trecho:\u00a0\u201cesta sele\u00e7\u00e3o de ensaios oferece ao leitor brasileiro um panorama abrangente do pensamento (\u2026) de Montaigne, sem que se precise recorrer aos tr\u00eas volumes de sua obra completa\u201d. Realmente, com a edi\u00e7\u00e3o resumida \u00e9 tem-se\u00a0uma no\u00e7\u00e3o bastante \u201cabrangente\u201d da maneira de pensar de Montaigne. Por outro lado, n\u00e3o tenho d\u00favida de que a edi\u00e7\u00e3o de \u201cOs ensaios\u201d da Companhia das Letras deixou muita, mas muita coisa legal de lado. Afinal de contas, ler Montaigne \u00e9 sempre delicioso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando pensei em escrever o texto sobre a edi\u00e7\u00e3o da Companhia das Letras de \u201cOs ensaios\u201d de Montaigne (uma sele\u00e7\u00e3o com cerca de 600 p\u00e1ginas, composta por um ter\u00e7o da obra total), a primeira coisa que me veio \u00e0 cabe\u00e7a foi o t\u00edtulo: \u201cMichel de Montaigne, o primeiro blogueiro\u201d. Ideia genial, pensei. At\u00e9 que fui procurar no Google para ver se algu\u00e9m tinha tido essa mesma ideia genial. E muitos a tiveram. Muitos mesmo. Em v\u00e1rias l\u00ednguas. Tudo bem. 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