{"id":1854,"date":"2015-10-23T20:25:57","date_gmt":"2015-10-23T23:25:57","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1854"},"modified":"2019-06-02T22:36:50","modified_gmt":"2019-06-03T01:36:50","slug":"joao-gilberto-em-curitiba-232002","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1854","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Gilberto em Curitiba (2\/3\/2002)"},"content":{"rendered":"<p>Bem, n\u00e3o foi como o show do Morrissey, n\u00e9? Grande coisa, qual show seria?<!--more--><\/p>\n<p>Acontece que um ba\u00fa de recorda\u00e7\u00f5es se abriu na minha cabe\u00e7a quando eu vi (onde foi mesmo?) que o Jo\u00e3o Gilberto viria fazer um show em Curitiba. Ele mesmo, o criador da bossa-nova, o sujeito que ouvi durante muitas e muitas e muitas horas durante alguns anos. Por mais que nos anos mais recentes eu tenha ouvido o camarada menos tempo, n\u00e3o deixei de comprar seus cds e nem deixei de mandar uma carta reclamando para o jornalista Alvaro Pereira Jr. quando ele incluiu o grande Jo\u00e3o Gilberto numa lista (de resto genial) de \u201c50 coisas mais chatas do mundo\u201d.<\/p>\n<p>Quem \u00e9 Jo\u00e3o Gilberto, qual o segredo dele? \u00c9 verdade que ele criou um estilo extremamente popular, a bossa nova. Acorde dissonantes de jazz em sambas brasileiros. Mas Jo\u00e3o Gilberto n\u00e3o lotaria o Teatro Gua\u00edra em 2 de mar\u00e7o de 2002, por mais que os ingressos fossem muito caros (de 50 a 70 reais), apenas por ter criado um estilo. Na verdade, al\u00e9m dele ter criado a bossa nova, ele \u00e9 sempre \u00fanico. Esta originalidade dele \u00e9 t\u00e3o incontest\u00e1vel que mesmo cr\u00edticos conservadores como Jos\u00e9 Ramos Tinhor\u00e3o reconhecem o seu valor. Os raros que reclamam (como o supracitado Alvaro e o Carlos Heitor Cony) nem chegam a ser levados a s\u00e9rio. O seu ritmo e as suas inflex\u00f5es de voz nas can\u00e7\u00f5es mais alegres, a profundidade de sua voz naquelas mais tristes, o seu viol\u00e3o simplesmente indescrit\u00edvel o fazem, com justi\u00e7a, o grande cantor brasileiro de todos os tempos segundo a cr\u00edtica (segundo o p\u00fablico ningu\u00e9m tira este trono do Roberto Carlos &#8211; e o meu cora\u00e7\u00e3o se divide entre os dois).<\/p>\n<p>No dia do show, a tens\u00e3o de todos os presentes no Teatro Gua\u00edra era grande. Todos com medo que algum engra\u00e7adinho resolvesse cantar junto com Jo\u00e3o Gilberto (o que ele odeia), ou que tocasse algum celular desavisado, ou que algum outro engra\u00e7adinho pedisse alguma m\u00fasica, ou que o cantor n\u00e3o gostasse da ac\u00fastica ou do ar condicionado. Ou se Jo\u00e3o Gilberto tocaria mesmo.<\/p>\n<p>Eu cheguei quase uma hora antes no teatro &#8211; Jo\u00e3o Gilberto nunca tinha vindo aqui, sabe-se l\u00e1 se ele vai voltar um dia, n\u00e9? Pouco depois da hora do in\u00edcio, nove da noite, esperamos um pouco, as luzes se apagaram e uma voz anunciou o show&#8230; a\u00ed come\u00e7amos a temer pelo pior: quase meia hora esperando com as luzes apagadas. Depois de um in\u00edcio de revolta por parte do p\u00fablico, chega o cantor, e os aplausos foram intensos, mais intensos ainda que eu esperava. Jo\u00e3o Gilberto fala \u201cboa noite\u201d senta-se e come\u00e7a a cantar \u201cCanta Brasil\u201d e eu fiquei arrepiado. Pouco depois veio minha m\u00fasica preferida dele, Insensatez, com um andamento um pouco diferente mas lindo.<\/p>\n<p>E o show foi se desenrolando, com muita tens\u00e3o e prazer por parte dos ouvintes. A voz dele parecia ainda melhor que nas grava\u00e7\u00f5es recentes, um pouco mais alta. Quanto ao viol\u00e3o, o andamento para um lado e a voz para o outro, o banquinho e o viol\u00e3o sem nenhum acompanhamento me faziam lembrar o grande bluesman Robert Johnson, de quem tamb\u00e9m sou grande f\u00e3: outro estilo, outro tipo de can\u00e7\u00e3o, outra l\u00edngua mas com algumas outras coisas em comum al\u00e9m da genialidade incontest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Aquele clima pesado, onde s\u00f3 se ouviam da plat\u00e9ia algumas tosses esparsas e os aplausos intensos no final de cada can\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7ou a se desanuviar quando, no intervalo entre duas can\u00e7\u00f5es o cantor falou que leu \u201cno jornalzinho daqui\u201d (a Gazeta do Povo do dia do show assustou a todos, dizendo o qu\u00e3o exigente Jo\u00e3o Gilberto era) que ele <em>era chato, que era exigente, que era isto, que era aquilo, mas que n\u00e3o era nada disto<\/em>. Entretanto, continuou ele, o ar condicionado estava endurecendo as cordas. No pr\u00f3ximo intervalo Jo\u00e3o Gilberto brincou que iria fazer uma can\u00e7\u00e3o <em>em homenagem ao ar condicionado<\/em>, cantarolou esta <em>can\u00e7\u00e3o<\/em> um pouco e ainda citou que seria uma par\u00f3dia como aquela do Falc\u00e3o, <em>I`m not dog no<\/em>. Ele ainda se queixou do cheiro de cigarros, que, segundo ele, vinha das coxias&#8230;<\/p>\n<p>Mas estas ironias contra o ar condicionado e contra os cigarros pareciam mais coisa de algu\u00e9m que n\u00e3o quer perder a fama de mau. Na verdade, Jo\u00e3o Gilberto estava com um enorme bom humor. Logo em seguida, ele lamentou n\u00e3o ter levado a carta que uma crian\u00e7a tinha levado para ele no hotel, pedindo uma m\u00fasica. A m\u00fasica era Trevo de Quatro Folhas, e, depois de executada, o cantor ainda pediu desculpas pois n\u00e3o a cantava h\u00e1 muitos anos. Depois desta m\u00fasica, Jo\u00e3o Gilberto tocou outra, e o Teatro Gua\u00edra ouve a voz de uma crian\u00e7a, um menino, que diz <em>obrigado<\/em>. Jo\u00e3o Gilberto arregala os olhos, para tudo e pergunta: <em>quem falou?<\/em>. O menino repetiu: <em>Obrigado<\/em>. O cantor diz <em>obrigado<\/em> e canta Trevo de Quatro Folhas de novo, e ainda agradece a plat\u00e9ia (que tinha adorado a nova execu\u00e7\u00e3o) por ter tido paci\u00eancia com ele. Jo\u00e3o Gilberto realmente n\u00e3o parece t\u00e3o mau quanto se diz!<\/p>\n<p>E assim o show foi indo, mais tranquilo. Durante Chega de Saudade ainda se ouviu um cantarolar mais forte da plat\u00e9ia (eu n\u00e3o abri a boca, claro). Quando terminou, j\u00e1 estavam todos felizes. Mas o melhor ainda estava por vir.<\/p>\n<p>O show tinha, at\u00e9 ali, durado mais ou menos uma hora e meia. O bis durou cerca de 25 minutos, e foi uma descontra\u00eddo que ningu\u00e9m esperava. O menino, a segunda estrela da noite, pediu Samba de Uma Nota S\u00f3 e Lobo Bobo (na verdade, ele pediu <em>lobo mau<\/em>, e diversas pessoas na plat\u00e9ia corrigiram para Lobo Bobo; Jo\u00e3o Gilberto, que parece entender de crian\u00e7as, n\u00e3o corrigiu o menino, falou: <em>Lobo Mau<\/em> e tocou Lobo Bobo&#8230;) Diversas pessoas pediram m\u00fasicas e foram atendidas, e normalmente m\u00fasicas que n\u00e3o eram grandes sucessos de Jo\u00e3o Gilberto, o que demonstrou que a plat\u00e9ia era realmente composta, em sua maioria, por pessoas que conheciam profundamente a obra do grande cantor. Por sorte Sampa, pedida, n\u00e3o foi executada!<\/p>\n<p>[esta p\u00e1gina \u00e9 dedicada \u00e0 minha filha que, apesar de n\u00e3o ter ido, exigiu que eu fosse ao show de terno e gravata (creio que eu era o \u00fanico l\u00e1 vestido assim, fora o Jo\u00e3o Gilberto)]<\/p>\n<p><em>(texto escrito\u00a0em 11 de mar\u00e7o de 2002)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem, n\u00e3o foi como o show do Morrissey, n\u00e9? 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