{"id":1842,"date":"2015-10-19T19:49:33","date_gmt":"2015-10-19T22:49:33","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1842"},"modified":"2019-06-02T22:37:22","modified_gmt":"2019-06-03T01:37:22","slug":"1842","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1842","title":{"rendered":"Los Hermanos &#8211; 2002"},"content":{"rendered":"<p>O Los Hermanos \u00e9 o grupo do megassuceso Anna Julia &#8211; e se tem uma coisa que eles definitivamente n\u00e3o querem ser \u00e9 a banda da Anna Julia. Na hora de lan\u00e7ar o segundo e muitas vezes fat\u00eddico \u00e1lbum, a gravadora quis um disco com mais dez sucessos semelhantes, para vender bastante e tocar no r\u00e1dio. O Los Hermanos bateu o p\u00e9 e quis lan\u00e7ar um \u00e1lbum chamado Bloco do Eu Sozinho, j\u00e1, a partir do nome, uma mostra de que eles queriam fazer as coisas do jeito deles. A gravadora, claro, n\u00e3o gostou da brincadeira &#8211; mas tudo o que conseguiu foi alterar a mixagem do disco, que acabou saindo praticamente do jeito que o Los Hermanos queria.<!--more--><\/p>\n<p>Esta teimosia do Los Hermanos acabou tendo resultados surpreendentes. Bloco do Eu Sozinho \u00e9 o melhor disco de m\u00fasica brasileira em muito, muito tempo. Boa parte da cr\u00edtica brasileira, inclusive, acha este o melhor disco lan\u00e7ado no mundo em 2001. E isto n\u00e3o chega a ser um exagero.<\/p>\n<p>O Bloco do Eu Sozinho utiliza brilhantemente varia\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas numa mesma m\u00fasica, com um grande sentido do crescendo, al\u00e9m de empregar v\u00e1rios instrumentos pouco usuais num disco de rock. \u00c9 dram\u00e1tico \u00e0s vezes (Sentimental, a melhor do disco), \u00e9 hardcore \u00e0s vezes (T\u00e3o Sozinho), \u00e9 antiquado \u00e0s vezes (Mais uma can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma valsinha), e extremamente divertido \u00e0s vezes (Cher Antoine \u00e9 cantado em boa parte em franc\u00eas &#8211; ningu\u00e9m me convence que n\u00e3o \u00e9 o trecho de uma li\u00e7\u00e3o!). \u00c9 tenso, como escreveu brilhantemente o Jardel Sebba, e como se pode perceber facilmente em Fingi na hora rir e Todo Carnaval tem seu fim &#8211; mas, paradoxalmente, tamb\u00e9m \u00e9 repousante, gra\u00e7as \u00e0s vozes de acalanto de Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo. Sem nenhum exagero, n\u00e3o h\u00e1 uma faixa dispens\u00e1vel em Bloco do Eu Sozinho.<\/p>\n<p>As letras s\u00e3o po\u00e9ticas, complexas, maduras e profundas. Em Adeus voc\u00ea se d\u00e1 adeus \u00e0 pessoa amada para que a vida de ambos cres\u00e7am, para que a vida siga adiante. Em Veja bem, meu bem o letrista, enquanto o par viaja, arranja algu\u00e9m chamado saudade. Mais uma can\u00e7\u00e3o seria apenas mais uma m\u00fasica de algu\u00e9m que perdeu a pessoa amada por ter feito besteira &#8211; se n\u00e3o fosse t\u00e3o bem escrita. Em Sentimental Rodrigo Amarante canta De tanto eu te falar, voc\u00ea subverteu o que era um sentimento e fez dele raz\u00e3o&#8230; pra se perder no abismo que \u00e9 pensar e sentir &#8211; no final, ele sabe que n\u00e3o vai ter a amada s\u00f3 para ele, mas ele pede que deixem-no fingir&#8230; e rir. Em Assim Ser\u00e1 Marcelo Camelo canta: Sei que seu fel fenecer\u00e1 em nome de n\u00f3s dois&#8230; a chuva do c\u00e9u se encerrar\u00e1 pra ver nosso depois. Como vai ser ruim demais olhar o tempo ir sem ver seus abra\u00e7os, seu sorriso ou suas rimas de amor.<\/p>\n<p>Deste modo, foi com a melhor das expectativas que eu fui no bar Era s\u00f3 o que faltava para assistir o show do Los Hermanos, em 8 de outubro de 2002. O bar tem tr\u00eas compartimentos: algumas mesas na entrada, depois um outro compartimento meio ao ar livre com mais mesas e o bar, e, finalmente, o local para shows &#8211; min\u00fasculo, onde n\u00e3o deve caber mais do que trezentas pessoas de p\u00e9, e com um palco bem pequeno.<\/p>\n<p>Eu e a Valeria chegamos bem cedo, nove e pouco. Ficamos no primeiro recinto, jantando, e logo vimos o Marcelo Camelo ali pertinho, conversando com as pessoas! Fomos pegar um aut\u00f3grafo, que a Valeria pediu para ser dedicado para a nossa filha Teresa, que, com cinco anos, sabe quase de cor as m\u00fasicas de O Bloco do Eu Sozinho &#8211; fato este relatado ao cantor, claro, gra\u00e7as \u00e0 corujice de seus pais. Camelo me pareceu t\u00edmido, mas bem simp\u00e1tico. Depois disto, mais um tempo esperando o recinto para shows abrir, e l\u00e1 fomos eu, a Valeria e a Ana Paula (que tinha acabado de chegar, pois tinha assistido na casa de uns amigos do pai a derrota do Coritiba para o S\u00e3o Paulo no pay-per-view) correndo l\u00e1 para dentro. Conseguimos um \u00f3timo lugar, na primeira fila, encostados no palco. O show estava previsto para iniciar \u00e0s onze da noite. Na verdade o que come\u00e7ou um pouco depois deste hor\u00e1rio foi a banda de abertura, Lunnes. Bom guitarrista, \u00f3timo baterista, boa vocalista, um som meio funkeado, legal. O local, sem nenhuma ventila\u00e7\u00e3o, estava muito quente. Mas eu, al\u00e9m de estar ansioso com o in\u00edcio do show que viria a seguir, adoro calor &#8211; sem problemas, ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouco antes da uma da manh\u00e3, finalmente, come\u00e7a o show.<\/p>\n<p>A primeira m\u00fasica tocada foi A Flor, e o p\u00fablico que lotava o recinto veio abaixo. Todas as pessoas pr\u00f3ximas de mim sabiam de cor todas as m\u00fasicas da banda, ao contr\u00e1rio de mim, que s\u00f3 sabia aquelas de O Bloco do Eu Sozinho (eu tamb\u00e9m era, possivelmente, o mais velho ali dentro &#8211; francamente, s\u00f3 conseguia ficar com pena do pessoal da minha idade que n\u00e3o curte mais estas coisas&#8230;) O calor, que j\u00e1 era enorme antes, ficou ainda mais intenso depois do in\u00edcio do show (como estava bem na frente do palco, via como todos da banda suavam em bicas). Os dois cantores barbudos (Amarante e Camelo) n\u00e3o falaram muito entre as m\u00fasicas &#8211; algumas queixas a respeito do calor (isto por que s\u00e3o cariocas!), alguns coment\u00e1rios elogiosos ao p\u00fablico fan\u00e1tico, e um merchandising legal dos produtos \u00e0 venda (compramos inclusive uma camiseta para mim e um exemplar do segundo cd da banda para a Ana Paula, que n\u00e3o o conhecia). Os dois t\u00eam uma postura bem diferente no palco: enquanto Camelo \u00e9 mais tranquilo, Amarante faz caretas e gestos c\u00f4mico-dram\u00e1ticos &#8211; se n\u00e3o fosse um grande cantor, apostaria nele para uma carreira de ator. O repert\u00f3rio foi composto por praticamente um n\u00famero igual de m\u00fasicas de Los Hermanos, o primeiro \u00e1lbum (aquele da Anna Julia) e de O Bloco do Eu Sozinho &#8211; fora duas covers, de m\u00fasicas que eu n\u00e3o conhecia: segundo eles, uma da Adriana Calcanhotto e outra dos &#8220;Saltimbancos Trapalh\u00f5es&#8221; (isto mesmo). Um pouco antes das duas da manh\u00e3 o Los Hermanos, segundo Marcelo Camelo, estava chegando no momento &#8220;constrangedor&#8221; do show, aquele do bis. Ele falou que o show estava &#8220;terminando&#8221; ali, mas, para n\u00e3a fazer aquela cena fingida usual de ir at\u00e9 os camarins e voltar, ele prop\u00f4s que tocassem mais duas m\u00fasicas ali mesmo, sem precisar sair. Depois destas duas m\u00fasicas, o show acabou &#8211; Anna Julia, que estava no setlist, n\u00e3o foi executada, e nem foi pedida pela plateia, perfeitamente feliz a esta altura.<\/p>\n<p>Eu sabia que o Los Hermanos \u00e9 um grande grupo, mas ao vivo \u00e9 ainda mais surpreendente. Todos as altera\u00e7\u00f5es de ritmo, todos os crescendo, fazem ainda mais sentido ao vivo do que no \u00e1lbum. A banda \u00e9 extremamente competente &#8211; e, para mim, que estava t\u00e3o pr\u00f3ximo deles, foi f\u00e1cil ver com quanta alegria e prazer eles tocam. Apesar de eu ter preferido, obviamente, ouvir as can\u00e7\u00f5es que conhecia, tamb\u00e9m foi \u00f3timo ouvir as m\u00fasicas do primeiro \u00e1lbum. E, ainda que seja um pouco dif\u00edcil citar um &#8220;melhor momento&#8221; para o show, eu tenho plena consci\u00eancia que nunca mais vou esquecer a vers\u00e3o arrebatadora de Sentimental.<\/p>\n<p>Francamente, nunca imaginei que t\u00e3o pouco tempo depois de escrever esta p\u00e1gina do meu di\u00e1rio eu iria ver ao vivo um grupo de rock realmente extraordin\u00e1rio, no auge de sua carreira.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 10 de outubro de 2002)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Los Hermanos \u00e9 o grupo do megassuceso Anna Julia &#8211; e se tem uma coisa que eles definitivamente n\u00e3o querem ser \u00e9 a banda da Anna Julia. 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