{"id":1801,"date":"2015-10-13T00:34:23","date_gmt":"2015-10-13T00:34:23","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1801"},"modified":"2015-10-13T00:38:28","modified_gmt":"2015-10-13T00:38:28","slug":"1801","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1801","title":{"rendered":"List of the lost"},"content":{"rendered":"<div>Morrissey n\u00e3o facilita as coisas. Com a carreira que teve, seja nos Smiths seja como cantor solo, poderia facilmente ter recebido o t\u00edtulo de \u201csir\u201d das m\u00e3os da Rainha Elizabeth, como Paul McCartney e Mick Jagger. Mas ele chama a monarquia inglesa de \u201cfascista\u201d. Ele poderia fazer shows s\u00f3 com grandes sucessos, mas \u00e9 mais f\u00e1cil descobrir pra onde vai o d\u00f3lar ano que vem do que saber que m\u00fasicas ele vai cantar em cada turn\u00ea. Ele poderia ter voltado com os Smiths e encher est\u00e1dios mundo afora. Mas prefere encher teatros com sua carreira solo. Depois do sucesso de sua Autobiografia, ele poderia ter feito que nem eu e ter tentado escrever um romance no mesmo estilo dos de Ian McEwan (ou de Javier Mar\u00edas, ou de Am\u00f3s Oz, ou de Jonathan Franzen, n\u00e3o importa). Neste caso ele provavelmente teria escrito um bom livro, e as cr\u00edticas se dividiriam (como aconteceu com sua Autobiografia, ali\u00e1s): alguns iriam chamar seu romance de obra-prima, outros o chamariam de \u201clixo\u201d (como, ali\u00e1s, tamb\u00e9m acontece com a maioria de seus discos solo). Mas n\u00e3o. Ele escreveu \u201cList of the lost\u201d.<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>\n<p>O livro j\u00e1 come\u00e7a de maneira esquisita:<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cEzra, Nails, Harri, Justy. Voc\u00ea teria que escavar com vigor e profundidade para descobrir quatro nomes t\u00e3o pouco usuais.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div>\n<p>Algumas p\u00e1ginas mais tarde a piada continua, quando Ezra descobre Eliza:<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<blockquote><p>\u201cNa luz fraca ele tinha encontrado Eliza \u2013 a similaridade de seus nomes! &#8230;aquele &#8216;e&#8217; aquele &#8216;z&#8217;!\u201d<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<div>\n<p>\u201cList of lost\u201d conta a hist\u00f3ria dos quatro supracitados, que fazem parte de um revezamento de atletismo: eles t\u00eam vinte anos, vivem na Boston dos anos 70, e est\u00e3o prestes a participar da grande corrida de suas vidas, que ser\u00e1 televisionada para todo o pa\u00eds. Durante um passeio no bosque, eles encontram um mendigo que faz um longo e estranho discurso. Quando Ezra (Pound, como o famoso poeta) se sente amea\u00e7ado, d\u00e1 um soco nele e o mata: s\u00f3 que o indigente era o pr\u00f3prio diabo, que lan\u00e7a uma maldi\u00e7\u00e3o contra Ezra e os demais \u2013 incluindo a\u00ed Eliza \u2013, que v\u00e3o morrendo, um a um, de maneira tr\u00e1gica. No meio do romance ainda aparece um fantasma de uma mulher para Ezra, que lhe pede para dar um enterro para seu filho, cujo cad\u00e1ver tinha sido escondido pelo seu assassino &#8211; o de\u00e3o do col\u00e9gio onde todos estudavam.<\/p>\n<p>\u00c9 engra\u00e7ado que nenhuma das muitas cr\u00edticas que li at\u00e9 agora (todas, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da assinada por Melissa Katsoulis no The Times, definiram o livro como sendo p\u00e9ssimo para baixo) notou que existem algumas coincid\u00eancias que parecem \u201cmais do que coincid\u00eancias\u201d entre \u201cList of the lost\u201d e \u201cGra\u00e7a infinita\u201d, a obra-prima de David Foster Wallace (cr\u00edtica <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/livros-abril-2015\/graca-infinta.html\">aqui<\/a>): os acontecimentos se passam em Boston ou nas proximidades nos dois casos; o esporte competitivo (t\u00eanis no livro de David Foster Wallace, atletismo no de Morrissey) \u00e9 parte importante em ambos os romances \u2013 com descri\u00e7\u00f5es de treinamentos, competi\u00e7\u00f5es e cenas de vesti\u00e1rio; finalmente, os dois livros terminam com um personagem no hospital.<\/p>\n<p>De todo modo, \u201cList of the lost\u201d \u00e9 muito diferente de \u201cGra\u00e7a infinita\u201d. O livro \u00e9 escrito num ingl\u00eas empolado e cheio de alitera\u00e7\u00f5es (\u00e9 engra\u00e7ado lembrar que o importante cr\u00edtico liter\u00e1rio Terry Eagleton comentou <a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/books\/2013\/nov\/13\/autobiography-by-morrissey-review\">aqui<\/a>\u00a0que Morrissey tinha escrito uma autobiografia t\u00e3o brilhante que poderia ganhar o importante Booker Prize caso cuidasse mais de suas alitera\u00e7\u00f5es&#8230;) Os acontecimentos se sucedem de maneira atropelada: a morte da m\u00e3e do personagem Harri, a pr\u00f3pria morte dele e o seu enterro acontecem de modo r\u00e1pido e sem transi\u00e7\u00e3o, e o leitor fica meio sem saber como um acontecimento se sucedeu a outro. N\u00e3o h\u00e1 praticamente nenhuma profundidade psicol\u00f3gica: como exemplos, quando o personagem Dibbs substitui Harri &#8211; que \u00e9 o primeiro a morrer \u2013 no revezamento, os demais membros do grupo o tratam de maneira cruel e aparentemente injustificada; o amor entre Eliza e Ezra \u00e9 esquem\u00e1tico, e n\u00e3o se sabe direito o que um sente pelo outro; o treinador Reims tem uma hist\u00f3ria tr\u00e1gica, \u00e9 cruel, mas tamb\u00e9m \u00e9 indeciso e estranho. A partir disso, os personagens n\u00e3o causam praticamente nenhuma empatia no leitor.<\/p>\n<p>Como se viu acima no resumo do livro, a hist\u00f3ria \u00e9 estranh\u00edssima, e aparentemente Morrissey n\u00e3o teve nenhuma inten\u00e7\u00e3o de trazer uma mensagem impl\u00edcita com ele. Por outro lado, do nada aparecem as costumeiras impreca\u00e7\u00f5es do cantor (e escritor) contra os poderosos (desta vez, nem Churchill escapou), contra o consumo de carne, a favor do feminismo: \u00e0s vezes parece que estamos lendo o blog True-to-you &#8211; que \u00e9 o meio da internet pelo qual Morrissey se comunica. N\u00e3o s\u00f3 o narrador faz discursos pol\u00edticos, como alguns personagens \u2013 notadamente Eliza \u2013 tamb\u00e9m o fazem (ali\u00e1s, o discurso do mendigo, citado acima, \u00e9 de uma estranheza \u00edmpar).<\/p>\n<p>O fato de ter uma hist\u00f3ria estranha com personagens sem profundidade psicol\u00f3gica fez com que que \u201cList of the lost\u201d me lembrasse <a href=\"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/2015\/09\/25\/romances-de-diogo-mainardi\/\">os \u00f3timos romances<\/a> de Diogo Mainardi. Mas este livro de Morrissey \u2013 do qual eu gostei muito, \u00e9 preciso acrescentar &#8211; n\u00e3o se parece com nada. Quem sabe seja redescoberto no futuro \u2013 quem sabe n\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem sabe ele seja lembrado como mais uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica de Morrissey, o cara que n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para o que os outros v\u00e3o dizer.<\/p>\n<p><em>(publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/livros-outubro-2015\/list-of-the-lost.html\">Mondo Bacana<\/a> em 5 de outubro de 2015)<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morrissey n\u00e3o facilita as coisas. Com a carreira que teve, seja nos Smiths seja como cantor solo, poderia facilmente ter recebido o t\u00edtulo de \u201csir\u201d das m\u00e3os da Rainha Elizabeth, como Paul McCartney e Mick Jagger. Mas ele chama a monarquia inglesa de \u201cfascista\u201d. Ele poderia fazer shows s\u00f3 com grandes sucessos, mas \u00e9 mais f\u00e1cil descobrir pra onde vai o d\u00f3lar ano que vem do que saber que m\u00fasicas ele vai cantar em cada turn\u00ea. Ele poderia ter voltado com os Smiths e encher est\u00e1dios mundo afora. Mas prefere encher teatros com sua carreira solo. Depois do sucesso de sua Autobiografia, ele poderia ter feito que nem eu e ter tentado escrever um romance no mesmo estilo dos de Ian McEwan (ou de Javier Mar\u00edas, ou de Am\u00f3s Oz, ou de Jonathan Franzen, n\u00e3o importa). Neste caso ele provavelmente teria escrito um bom livro, e as cr\u00edticas se dividiriam (como aconteceu com sua Autobiografia, ali\u00e1s): alguns iriam chamar seu romance de obra-prima, outros o chamariam de \u201clixo\u201d (como, ali\u00e1s, tamb\u00e9m acontece com a maioria de seus discos solo). Mas n\u00e3o. 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