{"id":1779,"date":"2015-10-09T01:35:18","date_gmt":"2015-10-09T01:35:18","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1779"},"modified":"2015-10-06T01:39:24","modified_gmt":"2015-10-06T01:39:24","slug":"fernando-pessoa-multi-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1779","title":{"rendered":"Fernando Pessoa: Multi-homem"},"content":{"rendered":"<p>Quando vivo (nasceu em Lisboa e 13 de Junho de 1888 faleceu na mesma cidade a 30 de Novembro de 1935), o poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa s\u00f3 conseguiu, fora algumas colet\u00e2neas de poemas em ingl\u00eas, publicar um livro chamado &#8220;Mensagem&#8221;, que era uma glorifica\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is portugueses do passado, ao modo de Cam\u00f5es. Por outro lado, atualmente sua obra \u00e9 cada vez mais valorizada pelo mundo todo. Em 1994, por exemplo, o famoso cr\u00edtico norte americano Harold Bloom incluiu o poeta portugu\u00eas em seu C\u00e2none Ocidental, livro que nomeava os autores ocidentais mais importantes de todos os tempos \u2013 uma lista, ali\u00e1s, pol\u00eamica, que inclu\u00eda os ingleses Jane Austen e Charles Dickens, mas que exclu\u00eda o grande romancista franc\u00eas Honor\u00e9 Balzac. Recentemente, o Pr\u00eamio Nobel Jos\u00e9 Saramago apontou Pessoa como uma de suas tr\u00eas maiores influ\u00eancias liter\u00e1rias, ao lado do argentino Jorge Luis Borges e do tcheco Franz Kafka. A gigantesca import\u00e2ncia de um dos maiores poetas de l\u00edngua portuguesa de todos os tempos, compar\u00e1vel a Cam\u00f5es, n\u00e3o faz sen\u00e3o crescer com o tempo.<!--more--><\/p>\n<p>A obra de Fernando Pessoa \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 de grande qualidade liter\u00e1ria como \u00e9 multifacetada e, sob certos aspectos, tamb\u00e9m misteriosa. A maior parte de seus escritos \u2013 diferentemente de &#8220;Mensagem&#8221;, citado acima &#8211; foram assinados por heter\u00f4nimos, autores fict\u00edcios que chegam a constituir uma &#8220;personalidade&#8221; pr\u00f3pria (o criador dos heter\u00f4nimos chama-se &#8220;ort\u00f4nimo&#8221;). S\u00e3o quatro os mais importantes heter\u00f4nimos de Fernando Pessoa: Ricardo Reis, \u00c1lvaro de Campos, Alberto Caeiro e o &#8220;semi-heter\u00f4nimo&#8221; Bernardo Soares.<\/p>\n<p>\u00c1lvaro de Campos &#8220;nasceu&#8221; em 1890, e &#8220;era&#8221; engenheiro. Foi o \u00fanico dos heter\u00f4nimos de Fernando Pessoa que mudou de estilo liter\u00e1rio durante sua &#8220;vida&#8221;: come\u00e7ou decadentista e terminou escrevendo poemas futuristas, que louvam a vida industrial, o movimento da modernidade, o barulho das grandes cidades. Um dos mais importantes \u2013 sen\u00e3o o mais importante \u2013 dos poemas de Pessoa \u00e9 assinado por \u00c1lvaro de Campos e \u00e9 chamado <i>Tabacaria<\/i>. Um poema pessimista (<i>&#8220;Falhei em tudo. Como n\u00e3o fiz prop\u00f3sito nenhum, talvez tudo fosse nada.&#8221;; &#8220;Que sei eu do que sei, eu que n\u00e3o sei o que sou?&#8221; ; &#8220;Serei sempre <\/i>o que n\u00e3o nasceu para isso<i>. Serei sempre<\/i> o que n\u00e3o tinha qualidades<i>.&#8221;<\/i>), complexo na rela\u00e7\u00e3o do autor com seus semelhantes (<i>&#8220;O homem saiu da Tabacaria (metendo tro\u00e7o na algibeira das cal\u00e7as?). \/ Ah, conhe\u00e7o-o; \u00e9 o Esteves sem metaf\u00edsica&#8221;<\/i>) e, afinal, bel\u00edssimo (<i>&#8220;N\u00e3o sou nada. \/ Nunca serei nada. \/ N\u00e3o posso querer ser nada. \/ \u00c0 parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.&#8221;<\/i>).<\/p>\n<p>Ricardo Reis tem ano de &#8220;nascimento&#8221; (1937), mas n\u00e3o de morte: pelo fato de Pessoa n\u00e3o ter &#8220;matado&#8221; sua criatura, o j\u00e1 citado Jos\u00e9 Saramago escreveu todo um romance, o excepcional <i>O ano da morte de Ricardo Reis<\/i>, contando a hist\u00f3ria da volta do poeta, que era m\u00e9dico e morava no Brasil, para Portugal (como se pode perceber desde o t\u00edtulo do livro, Saramago acabou por &#8220;matar&#8221; o heter\u00f4nimo). &#8220;Disc\u00edpulo&#8221; de outro heter\u00f4nimo que ser\u00e1 comentado mais adiante, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, segundo Maria Alice Galhoz, tem &#8220;a ren\u00fancia de quem atingiu os p\u00edncaros de humana lucidez e abstrai seus conceitos de imperman\u00eancia e s\u00edmbolos da contempla\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria de uma natureza que o homem iguala \u00e0 essencialidade ideal de que lhe basta&#8221;. Esta forma de contempla\u00e7\u00e3o pode ser observada em poemas como &#8220;Cada coisa tem seu tempo&#8221; (<i>&#8220;Cada coisa tem seu tempo. \/ N\u00e3o florescem no inverno os arvoredos, \/ Nem pela primavera \/ T\u00eam branco frio os campos. \/\/ \u00c0 noite, que entra, n\u00e3o pertence, L\u00eddia, \/ O mesmo ardor que o dia nos pedia. \/ Com mais sossego amemos \/ A nossa incerta vida.&#8221;<\/i>) e &#8220;Segue o teu destino&#8221; (<i>&#8220;Segue o teu destino, \/ Rega as tuas plantas, \/ Ama as tuas rosas. \/ O resto \u00e9 a sombra \/ De \u00e1rvores alheias. \/\/ A realidade \/ Sempre \u00e9 mais ou menos \/ Do que n\u00f3s queremos. \/ Iguais a n\u00f3s-pr\u00f3prios.&#8221;<\/i>).<\/p>\n<p>&#8220;Escritor&#8221; de um livro que tem import\u00e2ncia cada vez mais reconhecida pelo p\u00fablico e pelos estudiosos, o fragment\u00e1rio <i>O livro do desassossego<\/i>, esp\u00e9cie de &#8220;autobiografia sem fatos&#8221; composta por reminisc\u00eancias, pensamentos e observa\u00e7\u00f5es mais ou menos esparsas, Bernardo Soares era considerado pelo pr\u00f3prio Fernando Pessoa como um &#8220;semi-heter\u00f4nimo&#8221;, j\u00e1 que \u2013 especula-se \u2013 h\u00e1 muito do pr\u00f3prio poeta em Bernardo Soares. Isto pode ser mostrado, por exemplo, neste trecho: <i>&#8220;Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem \u00e9 eu? O que \u00e9 este intervalo que h\u00e1 entre mim e mim?&#8221;<\/i>, em que o &#8220;semi-heter\u00f4nimo&#8221; pode ser o pr\u00f3prio Pessoa &#8220;se perdendo&#8221; entre tantos heter\u00f4nimos&#8230; Se bem que no grande poeta portugu\u00eas o mist\u00e9rio sempre vence. N\u00e3o seria tudo isto fingimento? Afinal de contas, o pr\u00f3prio Fernando Pessoa assinou o famos\u00edssimo &#8220;Autopsicografia&#8221; (<i>&#8220;O poeta \u00e9 um fingidor. \/ finge t\u00e3o completamente \/ Que chega a fingir que \u00e9 dor \/ A dor que deveras sente.&#8221;<\/i>)<\/p>\n<p>Todos os trechos reproduzidos acima foram retirados da \u00f3tima colet\u00e2nea organizada por Luiz Ruffato, &#8220;Quando fui outro&#8221; (Alfaguara, 221 p\u00e1ginas), cuja leitura, obviamente, \u00e9 mais do que recomendada. Prova da pujan\u00e7a liter\u00e1ria e editorial de Fernando Pessoa \u00e9 o lan\u00e7amento de mais duas de suas obras por outras editoras: <i>Poemas Completos de Alberto Caeiro<\/i> foi lan\u00e7ado pela Hedra (168 p\u00e1ginas) e <i>O banqueiro anarquista<\/i>, pela Jos\u00e9 Olympio (80 p\u00e1ginas).<\/p>\n<p>Ler o livro editado pela Hedra \u00e9 uma excelente oportunidade de conhecer profundamente o \u00fanico heter\u00f4nimo importante de Fernando Pessoa que ainda n\u00e3o tinha sido descrito aqui, Alberto Caeiro. Ele &#8220;nasceu&#8221; em 1889 e &#8220;faleceu&#8221; em 1915, e era adepto de uma linha filos\u00f3fico-po\u00e9tica vagamente descrita como &#8220;sensacionismo&#8221;. Ele n\u00e3o acredita em nada que n\u00e3o seja a pura Natureza: <i>&#8220;O \u00fanico sentido \u00edntimo das coisas \/ \u00c9 elas n\u00e3o terem sentido \u00edntimo nenhum.&#8221; <\/i>; <i>&#8220;H\u00e1 metaf\u00edsica em n\u00e3o pensar em nada.&#8221; <\/i>; <i>&#8220;Eu n\u00e3o tenho filosofia: tenho sentidos&#8230; \/ Se falo na Natureza n\u00e3o porque saiba o que ela \u00e9, \/ Mas porque a amo, e amo-a por isso, \/ Porque quem ama nunca sabe o que ama \/ Nem sabe porque ama, nem o que \u00e9 amar&#8230;&#8221;<\/i> Uma das poesias mais famosas \u2013 e belas &#8211; de Alberto Caeiro compara o famoso Tejo com o rio de sua aldeia: <i>&#8220;O Tejo \u00e9 mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, \/ Mas o Tejo n\u00e3o \u00e9 mais belo que o rio que corre pela minha aldeia \/ Porque o Tejo n\u00e3o \u00e9 o rio que corre pela minha aldeia.&#8221;<\/i><\/p>\n<p>Finalmente, o pequeno conto que \u00e9 &#8220;O banqueiro anarquista&#8221; traz um paradoxo desde o seu t\u00edtulo: afinal, \u00e9 sabido que o anarquista, de modo geral, sequer aceita a propriedade privada (&#8220;Propriedade \u00e9 roubo!&#8221;, j\u00e1 dizia o famoso Proudhon), enquanto que o banqueiro \u00e9 um dos maiores s\u00edmbolos do capitalismo. O conto de Fernando Pessoa \u00e9 um di\u00e1logo em que o tal &#8220;banqueiro anarquista&#8221; tenta convencer seu interlocutor, atrav\u00e9s de um sem-n\u00famero de sofismas, de como ele conseguia ser as duas coisas <i>ao mesmo tempo<\/i>. Interessante, um tanto divertido, mas mais recomendado para os f\u00e3s de carteirinha do poeta portugu\u00eas do que para o p\u00fablico em geral.<\/p>\n<p><em>(publicado na Revista Dominical do Jornal O Estado do Paran\u00e1, de 12 de novembro de 2006)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando vivo (nasceu em Lisboa e 13 de Junho de 1888 faleceu na mesma cidade a 30 de Novembro de 1935), o poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa s\u00f3 conseguiu, fora algumas colet\u00e2neas de poemas em ingl\u00eas, publicar um livro chamado &#8220;Mensagem&#8221;, que era uma glorifica\u00e7\u00e3o dos her\u00f3is portugueses do passado, ao modo de Cam\u00f5es. Por outro lado, atualmente sua obra \u00e9 cada vez mais valorizada pelo mundo todo. Em 1994, por exemplo, o famoso cr\u00edtico norte americano Harold Bloom incluiu o poeta portugu\u00eas em seu C\u00e2none Ocidental, livro que nomeava os autores ocidentais mais importantes de todos os tempos \u2013 uma lista, ali\u00e1s, pol\u00eamica, que inclu\u00eda os ingleses Jane Austen e Charles Dickens, mas que exclu\u00eda o grande romancista franc\u00eas Honor\u00e9 Balzac. Recentemente, o Pr\u00eamio Nobel Jos\u00e9 Saramago apontou Pessoa como uma de suas tr\u00eas maiores influ\u00eancias liter\u00e1rias, ao lado do argentino Jorge Luis Borges e do tcheco Franz Kafka. A gigantesca import\u00e2ncia de um dos maiores poetas de l\u00edngua portuguesa de todos os tempos, compar\u00e1vel a Cam\u00f5es, n\u00e3o faz sen\u00e3o crescer com o tempo.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1781,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[265],"class_list":["post-1779","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-fernando-pessoa","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1779"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1779\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1782,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1779\/revisions\/1782"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1781"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}