{"id":1697,"date":"2015-09-24T22:05:53","date_gmt":"2015-09-24T22:05:53","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1697"},"modified":"2015-09-22T22:09:37","modified_gmt":"2015-09-22T22:09:37","slug":"feriado-de-mim-mesmo-de-santiago-nazarian","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1697","title":{"rendered":"&#8220;Feriado de mim mesmo&#8221;, de Santiago Nazarian"},"content":{"rendered":"<p>O leitor n\u00e3o deve se desanimar se, ao iniciar a leitura de \u201cFeriado de mim mesmo\u201d, o terceiro romance de Santiago Nazarian (Planeta, 161 p\u00e1ginas), achar que est\u00e1 diante de um livro redundante e repetitivo. Para que se tenha uma ideia, este \u00e9 um come\u00e7o de par\u00e1grafo na terceira p\u00e1gina:<\/p>\n<blockquote><p>Ent\u00e3o os pingos eram muitos, quentes, o chuveiro. O chuveiro a pingar sobre ele. A pingar sobre sua m\u00e3o, girando a torneira. Um pouco mais quente. Um pouco mais frio. A temperatura exata, para o dia come\u00e7ar. A \u00e1gua escorrendo pelo ralo lembrou-lhe que ele precisava limpar. Lembrou-lhe que ele precisava limpar o apartamento.<\/p><\/blockquote>\n<p><!--more-->Repeti\u00e7\u00e3o de palavras, de verbos, frases curtas que fazem com que o livro pare\u00e7a n\u00e3o sair do lugar: na verdade, o que parece redund\u00e2ncia \u00e9 o in\u00edcio de uma teia narrativa muito bem estruturada e que vai fazendo com que o leitor fique cada vez mais hipnotizado \u00e0 medida que as p\u00e1ginas s\u00e3o vencidas.<\/p>\n<p>\u201cFeriado de mim mesmo\u201d conta a hist\u00f3ria de Adriano, rapaz solit\u00e1rio que quer ser escritor &#8211; mas que, enquanto o seu livro n\u00e3o toma corpo, sobrevive gra\u00e7as ao trabalho de tradutor. A sua atividade permite que ele possa fazer seu pr\u00f3prio hor\u00e1rio &#8211; o que, alias, combina perfeitamente com seu comportamento misantropo: ele tem pouqu\u00edssimos amigos, quase n\u00e3o sai de casa e, quando quer fazer sexo, arranja alguma aventura de uma noite. Este mundo enclausurado satisfaz sem maiores sobressaltos o personagem principal do romance.<\/p>\n<p>A vida ia seguindo com tranquilidade quando coisas estranhas come\u00e7am a acontecer no apartamento. O primeiro fato esquisito foi o telefonema de um rapaz desconhecido que acabou gravando na secretaria eletr\u00f4nica um voto de feliz dia dos namorados e s\u00f3 poderia ter sido engano. O problema \u00e9 que este engano come\u00e7ou a se repetir: novos recados mandados pelo mesmo desconhecido continuaram a cair na caixa postal.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a ficar feia quando apareceu uma escova de dentes n\u00e3o comprada no banheiro de Adriano. De quem ela poderia ser? O rapaz dos telefonemas estava invadindo a casa, tomando posse, colocando sua escova de dentes no banheiro?<\/p>\n<p>E o intruso estava ficando cada vez mais audacioso: um dia ele vai at\u00e9 o pr\u00e9dio onde o tradutor mora e fala com este pelo interfone, convidando-o para um almo\u00e7o. Adriano pede para que o outro espere um pouco enquanto termina de se arrumar e, quando chega ao t\u00e9rreo, o invasor j\u00e1 tinha ido embora.<\/p>\n<p>Neste ponto o rapaz solit\u00e1rio j\u00e1 est\u00e1 numa verdadeira roda-viva, j\u00e1 que o intruso vai ficando mais e mais dono da situa\u00e7\u00e3o: matando baratas, comendo peda\u00e7os do frango que tinha sido preparado, mexendo nos arquivos do micro e come\u00e7ando at\u00e9 mesmo a receber correspond\u00eancias &#8211; \u00e9 quando o tradutor fica sabendo o nome do outro: Thomas Schimidt. \u00c0s vezes Adriano chega a ver o vulto dele.<\/p>\n<p>Com a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 insustent\u00e1vel o tradutor tenta reagir: chama a pol\u00edcia para se livrar do intruso &#8211; nada conseguindo. Coloca veneno de rato no frango no forno para matar o invasor &#8211; e acaba passando mal. Adriano fica ent\u00e3o em d\u00edvida a respeito de sua pr\u00f3pria sanidade mental: seria ele mesmo o invasor? Seria ent\u00e3o o intruso uma parte dele mesmo que estava se rebelando? Ou tudo n\u00e3o passava de um plano maquiav\u00e9lico de algu\u00e9m para deix\u00e1-lo maluco?<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode continuar a contar a hist\u00f3ria a partir daqui para n\u00e3o estragar a surpresa do final.<\/p>\n<p>O tema da invas\u00e3o no apartamento j\u00e1 tinha sido desenvolvido por autores do realismo fant\u00e1stico como Julio Cort\u00e1zar no conto A casa tomada, por exemplo. Mas, ao contr\u00e1rio da hist\u00f3ria do autor argentino, em Feriado de mim mesmo, j\u00e1 que a hist\u00f3ria \u00e9 contada apenas sob o ponto de vista do personagem principal, fica-se o tempo todo na d\u00edvida se a hist\u00f3ria contada \u00e9 de cunho surrealista, ou policial, ou se \u00e9 apenas fruto da imagina\u00e7\u00e3o delirante de Adriano (o mist\u00e9rio \u00e9 sanado no final do livro).<\/p>\n<p>O romance de Santiago Nazarian (que ser\u00e1 adaptado para o cinema pela diretora Eliane Caff\u00e9, em data ainda n\u00e3o definida) pode tamb\u00e9m suscitar algumas quest\u00f5es de cunho filos\u00f3fico ou sociol\u00f3gico &#8211; sobre a solid\u00e3o num mundo interconectado, por exemplo -, mas este tipo de an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 fundamental para que se aprecie as qualidades liter\u00e1rias do livro. Afinal de contas, \u201cFeriado de mim mesmo\u201d \u00e9 um livro claustrof\u00f3bico (basta lembrar que praticamente toda a trama se desenrola no apartamento de Adriano), angustiante, e que vai ficando cada vez melhor e mais tenso \u00e0 medida que vai chegando ao seu surpreendente final. Um thriller estranho e muito bem realizado.<\/p>\n<p><em>(artigo publicado na\u00a0Revista Dominical do Jornal O Estado do Paran\u00e1 em dezembro de 2005)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O leitor n\u00e3o deve se desanimar se, ao iniciar a leitura de \u201cFeriado de mim mesmo\u201d, o terceiro romance de Santiago Nazarian (Planeta, 161 p\u00e1ginas), achar que est\u00e1 diante de um livro redundante e repetitivo. Para que se tenha uma ideia, este \u00e9 um come\u00e7o de par\u00e1grafo na terceira p\u00e1gina: Ent\u00e3o os pingos eram muitos, quentes, o chuveiro. O chuveiro a pingar sobre ele. A pingar sobre sua m\u00e3o, girando a torneira. Um pouco mais quente. 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