{"id":1310,"date":"2015-07-11T08:25:25","date_gmt":"2015-07-11T08:25:25","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1310"},"modified":"2015-07-11T08:25:25","modified_gmt":"2015-07-11T08:25:25","slug":"patrick-modiano-premio-nobel-de-2014","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1310","title":{"rendered":"Patrick Modiano, Pr\u00eamio Nobel de 2014"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 estou me acostumando, todos os meses de outubro, a esperar o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Os vencedores dos \u00faltimos anos, de maneira geral, s\u00e3o escritores dos quais eu nunca tinha ouvido falar: Mo Yan, Alice Munro, Tomas Transt\u00f6rmer, Herta M\u00fcller. Sempre tenho curiosidade de conhecer alguma coisa dos vencedores mas, na maioria das vezes, a pregui\u00e7a vence (dos citados acima, li alguns romances de Herta M\u00fcller &#8211; alguns excelentes, outros nem tanto).<\/p>\n<p>Coisa diferente aconteceu com o vencedor deste ano, Patrick Modiano (do qual tamb\u00e9m nunca tinha ouvido falar). <!--more-->Logo que li as primeiras not\u00edcias sobre o autor me interessei de cara: os seus livros, em geral, contam hist\u00f3rias que se passam na ocupa\u00e7\u00e3o nazista da Fran\u00e7a, frequentemente sobre pessoas que colaboraram com os alem\u00e3es &#8211; um assunto tabu at\u00e9 hoje para os franceses, e que sempre me despertou curiosidade. O pai de Patrick Modiano era, provavelmente, judeu &#8211; e que conseguiu escapar de campos de concentra\u00e7\u00e3o possivelmente por ter colaborado com os nazistas. A d\u00favida sobre o car\u00e1ter e a vida do pai \u00e9 um tema recorrente na obra de Modiano (assim como a morte, ainda na inf\u00e2ncia, do seu irm\u00e3o mais novo).<\/p>\n<p>Assim que tive as primeiras not\u00edcias do Nobel, fui rapidamente at\u00e9 \u00e0 Estante Virtual para comprar alguns livros antes que os pre\u00e7os disparassem (o que efetivamente aconteceu: j\u00e1 tem romance de Modiano valendo 150 reais no site). Comprei tr\u00eas na Estante Virtual, ainda com os pre\u00e7os razo\u00e1veis. E baixei no Kindle Suspended sentences, uma edi\u00e7\u00e3o com tr\u00eas romances de Modiano em ingl\u00eas (um dos quais j\u00e1 tinha comprado em franc\u00eas). Somando isso \u00e0s minhas f\u00e9rias, j\u00e1 li cinco livros de Modiano &#8211; o que n\u00e3o chega a ser uma coisa t\u00e3o espetacular, dado que os romances dele quase sempre s\u00e3o curtos, como os de outro escritor de l\u00edngua francesa que tamb\u00e9m admiro, o belga Georges Simenon (interessante notar que as obras dos dois t\u00eam outro ponto em comum, al\u00e9m da brevidade: a precis\u00e3o geogr\u00e1fica nas descri\u00e7\u00f5es das hist\u00f3rias, muitas vezes passadas em Paris).<\/p>\n<p>Os cinco livros de Modiano que li &#8211; Chien de printemps, Les boulevards de ceinture, Villa triste, Remise de peine e Fleurs de ruine &#8211; t\u00eam muitos pontos em comum. S\u00e3o escritos em primeira pessoa por um personagem masculino que tenta se lembrar de acontecimentos e, principalmente, de uma pessoa marcante em sua juventude: o fot\u00f3grafo Jansen de Chien de printemps; o pai do narrador em Les boulevards de ceinture; a namorada Yvonne, em Villa Triste; a esp\u00e9cie de tutora Annie, em Remise de peine (Suspended sentences, na vers\u00e3o em ingl\u00eas); e o mendigo\/nobre\/comiss\u00e1rio de bordo (opa) Pacheco (ou Lambert) de Fleurs de ruine (Flowers of ruin, na vers\u00e3o em ingl\u00eas). Como comenta o tradutor Mark Polizzotti na excelente introdu\u00e7\u00e3o de Suspended sentences, o narrador n\u00e3o \u00e9 o centro das hist\u00f3rias: ele tenta apreender o que est\u00e1 acontecendo, mas normalmente h\u00e1 tantos pontos obscuros quanto claros nas suas lembran\u00e7as. E d\u00e1-lhe descri\u00e7\u00f5es de ruas, terrenos, casas. O tempo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 linear: acontecimentos recentes e antigos se revezam \u00e0 medida que a hist\u00f3ria \u00e9 contada: se o leitor se distrai, j\u00e1 nem sabe bem em que \u00e9poca se passa o que est\u00e1 sendo descrito. Al\u00e9m disso, ocorr\u00eancias important\u00edssimas na hist\u00f3ria muitas vezes s\u00e3o contadas de passagem &#8211; quase como se fossem secund\u00e1rias. As hist\u00f3rias do pai e do irm\u00e3o (citadas acima), tamb\u00e9m aparecem, com mais ou menos detalhe, em alguns dos cinco livros.<\/p>\n<p>Modiano j\u00e1 disse que tem a impress\u00e3o de estar escrevendo o mesmo livro h\u00e1 45 anos. Em apenas cinco hist\u00f3rias, tive uma impress\u00e3o parecida. E quer saber de uma coisa? Se bem me conhe\u00e7o, n\u00e3o vou sossegar enquanto n\u00e3o ler todos estes livros &#8220;iguais&#8221; de Modiano &#8211; um escritor (j\u00e1 deu para perceber) raro, original, profundo &#8211; e genial.<\/p>\n<p><em>(publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/blogs\/patrick-modiano.html\" target=\"_blank\">blog do Mondo Bacana<\/a> em 2014)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 estou me acostumando, todos os meses de outubro, a esperar o Pr\u00eamio Nobel de Literatura. Os vencedores dos \u00faltimos anos, de maneira geral, s\u00e3o escritores dos quais eu nunca tinha ouvido falar: Mo Yan, Alice Munro, Tomas Transt\u00f6rmer, Herta M\u00fcller. Sempre tenho curiosidade de conhecer alguma coisa dos vencedores mas, na maioria das vezes, a pregui\u00e7a vence (dos citados acima, li alguns romances de Herta M\u00fcller &#8211; alguns excelentes, outros nem tanto). Coisa diferente aconteceu com o vencedor deste ano, Patrick Modiano (do qual tamb\u00e9m nunca tinha ouvido falar).<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1311,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[202],"class_list":["post-1310","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-patrick-modiano","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1310","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1310"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1310\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1312,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1310\/revisions\/1312"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}