{"id":1275,"date":"2015-07-07T20:59:23","date_gmt":"2015-07-07T23:59:23","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1275"},"modified":"2022-06-05T14:41:49","modified_gmt":"2022-06-05T17:41:49","slug":"hitler-tem-sangue-mongol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1275","title":{"rendered":"Hitler tem sangue mongol?"},"content":{"rendered":"<p>Quando assassinou o jornalista Fritz Gerlich na Noite dos Longos Punhais, a Gestapo mandou para a sua vi\u00fava os seus \u00f3culos ensanguentados. Os \u00f3culos de algu\u00e9m que enxergou demais. Esta imagem aterradora \u00e9 apresentada no livro Para entender Hitler (Ed. Record, 2002), do jornalista Ron Rosenbaum.<!--more--><\/p>\n<p>No livro citado acima tamb\u00e9m se pode ler este trecho:<\/p>\n<blockquote><p>A foto tem a capacidade de chocar: Adolf Hitler casando-se com uma noiva negra. Mais de seis d\u00e9cadas depois, esta extraordin\u00e1ria fotomontagem da imagem de Hitler, de cartola e casaca, de bra\u00e7os dados com uma noiva negra, numa cena de \u00eaxtase nupcial, apareceu na primeira p\u00e1gina de um dos principais jornais de Munique, esta representa\u00e7\u00e3o jocosa de Hitler &#8211; num contexto de decapita\u00e7\u00e3o, miscigena\u00e7\u00e3o, sexo transgressor e violenta desfigura\u00e7\u00e3o &#8211; ainda desprende uma aura de temeridade, de perigo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta descri\u00e7\u00e3o de uma fotomontagem\u00a0 &#8211; que eu n\u00e3o vi, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma reprodu\u00e7\u00e3o no livro e n\u00e3o consegui achar nenhuma reprodu\u00e7\u00e3o na internet &#8211; me \u00e9 profundamente assustadora, e meu objetivo aqui \u00e9 tentar entender o porqu\u00ea disso. Para come\u00e7ar \u00e9 necess\u00e1rio explicar quem era o jornalista cuja morte foi descrita no primeiro par\u00e1grafo.<\/p>\n<p>Personalidade contradit\u00f3ria, Fritz Gerlich foi um cr\u00edtico acerbo de Hitler &#8211; apesar de ser conservador. Praticamente retirado do esquecimento gra\u00e7as ao livro de Ron Rosenbaum, ele era o editor do jornal anti-hitlerista Der Gerade Weg entre os anos de 1923 a 1933 &#8211; ano em que ele e seus colaboradores foram ca\u00e7ados pelos nacional-socialistas e enviados a campos de concentra\u00e7\u00e3o, poucos meses ap\u00f3s a chegada de Hitler ao poder. Existem ind\u00edcios de que a Gestapo, antes de mandar Gerlich para Dachau (onde seria assassinado), retirou do prelo um exemplar explosivo de seu jornal, que esclareceria definitivamente a rumorosa morte do grande amor de Hitler, sua sobrinha Geli Raubal (h\u00e1 quem diga que este exemplar, nunca mais encontrado, provaria que Raubal fora assassinada pelo pr\u00f3prio Hitler).<\/p>\n<p>Voltemos ent\u00e3o \u00e0 foto descrita acima: ela apareceu na capa de uma edi\u00e7\u00e3o do Der Gerade Weg de julho de 1932, cuja manchete principal era &#8220;HITLER TEM SANGUE MONGOL?&#8221;. No artigo escrito com este t\u00edtulo Fritz Gerlich usa as teorias raciais dos nacional-socialistas contra o pr\u00f3prio Hitler. Inicialmente ele comenta que aquela fotomontagem (que ele diz, cinicamente, que fora mandada por um leitor) o fez pensar que, afinal de contas, havia uma semelhan\u00e7a inesperada entre a &#8220;noiva&#8221; negra de Hitler e o pr\u00f3prio Hitler. A partir disto Gerlich usa a tese do principal &#8220;bi\u00f3logo racial&#8221; do Reich para provar, levando em conta descri\u00e7\u00f5es de narizes de v\u00e1rias ra\u00e7as, que o nariz de Hitler n\u00e3o era o de um ariano e sim o de um eslavo &#8211; mas de um tipo bastardo de eslavo, formado pela mistura, ap\u00f3s a invas\u00e3o huna de mong\u00f3is, com o tipo sangu\u00edneo original eslavo (o pr\u00f3prio nome Hitler tem uma certa origem eslava). O que deixava isto ainda mais grave era que, para os nacional-socialistas, o nariz \u00e9 o sintoma mais importante na ascend\u00eancia social de uma pessoa. Neste artigo ir\u00f4nico e explosivo ainda havia mais: segundo o principal ide\u00f3logo nazista, Rosenberg, o tra\u00e7o sociol\u00f3gico mais importante dos arianos \u00e9 a sua independ\u00eancia e a sua liberdade, tanto que, segundo ele, os duques germ\u00e2nicos n\u00e3o tinham grande poder sobre seu pr\u00f3prio povo. Ainda segundo Rosenberg, os asi\u00e1ticos, como G\u00eangis Khan, s\u00e3o desp\u00f3ticos e ditatoriais. Isto \u00e9 o suficiente para que Gerlich conclua que Hitler n\u00e3o s\u00f3 tinha sangue, mas tamb\u00e9m a alma mongol, j\u00e1 que no seu partido a \u00fanica vontade que existia era a dele, que ele nunca precisava explicar o que fazia, e que os seus seguidores tinham de obedec\u00ea-lo sem qualquer informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conforme o autor de Para Entender Hitler explica, Fritz Gerlich absolutamente n\u00e3o acreditava nestas teorias absurdas de supremacia por causa do formato do nariz. O que ele quis foi provocar profundamente Hitler, colocando a nu a fragilidade de sua pr\u00f3pria teoria racial: como classificar uma pessoa como racialmente superiora se o pr\u00f3prio F\u00fchrer n\u00e3o se coadunava nestes tra\u00e7os raciais &#8220;ideais&#8221;? E Gerlich realmente provocou Hitler, conforme provam seus \u00f3culos ensanguentados.<\/p>\n<p>O autor de Para Entender Hitler, Ron Rosenbaum, al\u00e9m de jornalista, \u00e9 formado em literatura inglesa pela Universidade de Yale. E \u00e9, realmente, com maestria que ele joga com palavras e imagens. Em seu livro ele fala diversas vezes de uma certa estranheza de Hitler &#8211; mas n\u00e3o deixa claro se esta estranheza \u00e9 dele mesmo (uma forma velada de se referir ao dem\u00f4nio?) ou de suas fei\u00e7\u00f5es pouco arianas. Em outros momentos do livro o autor fala de mist\u00e9rios da vida de Hitler que provavelmente jamais ser\u00e3o esclarecidos (como a edi\u00e7\u00e3o de Der Gerade Weg retirada do prelo pela Gestapo que esclareceria a morte de Geli Raubal). Em outros trechos ainda ele comenta segredos terr\u00edveis\u00a0 da obscura fam\u00edlia de Hitler, ou analisa o profundo \u00f3dio de Hitler, quase como se fosse um sentimento al\u00e9m da compreens\u00e3o humana. Este clima pr\u00f3ximo ao sobrenatural permeia boa parte do livro. Mesmo o jornal de Fritz Gerlich \u00e9 mostrado como algo quase esquecido, secreto, como se fosse um segredo de uma seita obscura.<\/p>\n<p>J\u00e1 a descri\u00e7\u00e3o da fotomontagem (cuja imagem, repito, n\u00e3o aparece no livro e eu nunca vi) \u00e9, por si s\u00f3, surrealista ao modo de um pesadelo: afinal, imaginar Hitler casando com uma negra assusta como um palha\u00e7o assassino de criancinhas. Esta analogia \u00e9 v\u00e1lida porque, casando com uma negra, ele passa a ter uma imagem n\u00e3o racista e quase simp\u00e1tica. Mas, exatamente como o palha\u00e7o assassino, esta roupagem agrad\u00e1vel \u00e9 apenas mais um estratagema que o Mal utiliza ao atrair suas v\u00edtimas indefesas para, ent\u00e3o, tortur\u00e1-las e execut\u00e1-las. A diferen\u00e7a entre os dois est\u00e1 no fato de que, ao contr\u00e1rio do palha\u00e7o do pesadelo, Hitler assassina criancinhas (e jornalistas que enxergam demais) no mundo real. O que o faz ainda\u00a0mais assustador.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2001 &#8211; \u00a0j\u00e1 consegui obter a fotomontagem comentada acima na internet, e \u00e9 a imagem que acompanha o texto)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando assassinou o jornalista Fritz Gerlich na Noite dos Longos Punhais, a Gestapo mandou para a sua vi\u00fava os seus \u00f3culos ensanguentados. Os \u00f3culos de algu\u00e9m que enxergou demais. Esta imagem aterradora \u00e9 apresentada no livro Para entender Hitler (Ed. 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