{"id":1194,"date":"2015-06-23T05:57:41","date_gmt":"2015-06-23T05:57:41","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1194"},"modified":"2015-06-23T06:01:14","modified_gmt":"2015-06-23T06:01:14","slug":"georg-trakl-poeta-austriaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1194","title":{"rendered":"Georg Trakl, poeta austr\u00edaco"},"content":{"rendered":"<p>Existem escritores que marcam uma \u00e9poca de nossa vida e depois s\u00e3o meio que esquecidos. Outros marcam de maneira um pouco mais profunda: por mais que os deixemos de lado por uma \u00e9poca, acabamos retornando a eles mais cedo ou mais tarde. J\u00e1 com o poeta austr\u00edaco Georg Trakl, comigo, a coisa vai um pouco mais longe: sou meio obcecado pela sua poesia desde que li um verbete sobre ele na antiga Enciclop\u00e9dia Abril, a\u00ed pelo in\u00edcio dos anos 80. Mais de trinta anos depois, continuo lendo e relendo seus poemas, procurando tudo o que consigo encontrar de e sobre Trakl em sebos, na internet, onde for poss\u00edvel. Criei at\u00e9 uma p\u00e1gina na internet (<a href=\"http:\/\/l.facebook.com\/l.php?u=http%3A%2F%2Fgeorgtrakl.diaryland.com%2F&amp;h=AAQHMjU0B&amp;enc=AZN3ZuQI7NUCPCeN5afJQU8AA8BnkVtv8BZX-qUPIW3CI6armnxu9b7JP7V-Licq26YPQGbiTAeeJfwj6PxbvO701NKh_2ZH6hgJuB9MNWa7hDx9MuRx3ozoIYOI6Qh8F5Wn8sDY1i6k_pkqDzJd0-oxpIchdklln1DdwuHMUw__9Q&amp;s=1\" target=\"_blank\">http:\/\/georgtrakl.diaryland.com<\/a>\u00a0&#8211; que abandonei h\u00e1 alguns anos e que infelizmente est\u00e1\u00a0com s\u00e9rios problemas de formata\u00e7\u00e3o) s\u00f3 para guardar as coisas que encontro sobre o poeta por a\u00ed. Minha \u00faltima aventura com Trakl \u00e9 ler uma edi\u00e7\u00e3o de suas poesias completas em espanhol, duas p\u00e1ginas por dia e com dicion\u00e1rio &#8211; ainda estou no come\u00e7o da &#8220;aventura&#8221;.<!--more--><\/p>\n<p>Nascido em Salzburgo, na \u00c1ustria, em 3 de fevereiro de 1887 (fazia anivers\u00e1rio no mesmo dia que eu), Trakl tinha ser\u00edssimos problemas mentais e emocionais &#8211; era depressivo e esquizofr\u00eanico, e possivelmente teve um caso incestuoso com a irm\u00e3. Era viciado em drogas desde a adolesc\u00eancia e passou a ter acesso facilitado a elas quando se formou em farm\u00e1cia. E foi com uma overdose de coca\u00edna que Trakl de suicidou em 3 de novembro de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, com apenas 27 anos de idade: ele era oficial farmac\u00eautico, e a guerra conseguiu abalar ainda mais seu complicad\u00edssimo quadro mental. Segundo o verbete da Enciclop\u00e9dia Abril supracitado, Georg Trakl, que tinha nascido sob o signo de Aqu\u00e1rio, se suicidou sob o signo de Escorpi\u00e3o &#8211; o \u00fanico animal capaz de se suicidar. Sua obra completa cabe, sem maiores apertos, em cerca de 200 p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo Ludwig Wittgenstein dizia que n\u00e3o entendia a poesia do austr\u00edaco, mas que ela o deslumbrava &#8211; tanto que chegou a doar parte das suas economias a um grupo de escritores entre os quais Trakl estava inclu\u00eddo. \u00c9 f\u00e1cil concordar com Wittgenstein: nem sempre se consegue compreender o que o austr\u00edaco queria dizer, mas isso n\u00e3o importa.<\/p>\n<p>Um aspecto importante da poesia de Georg Trakl est\u00e1 na grande beleza que ele cria com imagens absolutamente inesperadas. Por exemplo, a utiliza\u00e7\u00e3o do azul, o amarelo, o p\u00farpura e o dourado em objetos ou seres que n\u00e3o costumam ser destas cores (&#8220;Pombas azuis \/ bebem de noite o suor gelado \/ que corre da fronte cristalina de \u00c9lis. \/ Eternamente ressoa \/ nos muros negros o vento solit\u00e1rio de Deus&#8221; ; &#8220;Terr\u00edvel \u00e9 o decl\u00ednio da humana gera\u00e7\u00e3o \/ Nesta hora, os olhos de quem a ele assiste enchem-se \/ Do ouro das suas estrelas&#8221; ; &#8220;Juntaram-se em fonte as imagens noturnas das l\u00e1grimas \/ Olhar dourado do princ\u00edpio, escura paci\u00eancia do fim&#8221; ; &#8220;A figura azul do Homem passava pela sua lenda&#8221;)<\/p>\n<p>A putrefa\u00e7\u00e3o e a morte tamb\u00e9m s\u00e3o aspectos importantes da sua poesia (&#8220;Oh, t\u00e3o cheios de imund\u00edcie e vermes os seus cabelos, \/ quando ele l\u00e1 fica, com p\u00e9s prateados, \/ e aqueles mortos saem de quartos desertos&#8221; ; &#8220;Do tapete surgem ossadas dos t\u00famulos, \/ o sil\u00eancio das cruzes desmoronadas na colina \/ o cheiro doce do incenso no purp\u00fareo vento noturno&#8221;), assim como a loucura (&#8220;Os degraus da loucura em quartos negros, \/ as sombras dos velhos sob a porta aberta&#8221;), as drogas (&#8220;Abrem-se azuis os olhos papoula de um anjo&#8221;) e a paix\u00e3o incestuosa pela irm\u00e3 (&#8220;Das tuas p\u00e1lpebras Deus fez arcos. \/ Estrelas procuram \u00e0 noite, filha de sexta-feira santa, \/ Na tua fronte, os arcos&#8221;).<\/p>\n<p>\u00c0s vezes o melhor \u00e9 nem comentar nada (&#8220;Uma can\u00e7\u00e3o \u00e0 guitarra, que soa numa taberna estranha, \/ Os sabugueiros bravos al\u00e9m, um dia de Novembro h\u00e1 muito passado, \/ Passos familiares na escada ao crep\u00fasculo, o aspecto de traves crestadas, \/ Uma janela aberta em que ficou uma esperan\u00e7a doce &#8211; \/ Indiz\u00edvel \u00e9 tudo isto, \u00f3 Deus, que abalado se cai de joelhos&#8221;): melhor \u00e9 s\u00f3 ler mesmo.<\/p>\n<p>A foto que acompanha este texto \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o de um selo austr\u00edaco comemorativo ao grande poeta, cuja obra \u00e9 mais e mais estudada \u00e0 medida que os anos passam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(texto escrito no final de 2014)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existem escritores que marcam uma \u00e9poca de nossa vida e depois s\u00e3o meio que esquecidos. Outros marcam de maneira um pouco mais profunda: por mais que os deixemos de lado por uma \u00e9poca, acabamos retornando a eles mais cedo ou mais tarde. J\u00e1 com o poeta austr\u00edaco Georg Trakl, comigo, a coisa vai um pouco mais longe: sou meio obcecado pela sua poesia desde que li um verbete sobre ele na antiga Enciclop\u00e9dia Abril, a\u00ed pelo in\u00edcio dos anos 80. Mais de trinta anos depois, continuo lendo e relendo seus poemas, procurando tudo o que consigo encontrar de e sobre Trakl em sebos, na internet, onde for poss\u00edvel. Criei at\u00e9 uma p\u00e1gina na internet (http:\/\/georgtrakl.diaryland.com\u00a0&#8211; que abandonei h\u00e1 alguns anos e que infelizmente est\u00e1\u00a0com s\u00e9rios problemas de formata\u00e7\u00e3o) s\u00f3 para guardar as coisas que encontro sobre o poeta por a\u00ed. Minha \u00faltima aventura com Trakl \u00e9 ler uma edi\u00e7\u00e3o de suas poesias completas em espanhol, duas p\u00e1ginas por dia e com dicion\u00e1rio &#8211; ainda estou no come\u00e7o da &#8220;aventura&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1195,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[88],"class_list":["post-1194","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-georg-trakl","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1194"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1201,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1194\/revisions\/1201"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1195"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}