{"id":1183,"date":"2015-06-27T05:12:05","date_gmt":"2015-06-27T05:12:05","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1183"},"modified":"2015-06-22T05:23:31","modified_gmt":"2015-06-22T05:23:31","slug":"you-can-see-the-gladness-in-their-eyes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1183","title":{"rendered":"You can see the gladness in their eyes"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea pode ver a alegria nos olhos deles. Esta frase eu li numa Spin que saiu em torno de 1992-1993, e ela versava sobre a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico a um show do L7. <!--more-->Est\u00e1vamos no \u00e1pice do movimento grunge, o L7 estava no auge do sucesso, era mais ou menos esperado que o p\u00fablico ficasse feliz em assistir a um show do grupo.<\/p>\n<p>Na verdade, esta frase s\u00f3 ficou marcada para mim em\u00a0sua vers\u00e3o integral: &#8220;s\u00f3 existe algo parecido no culto de Morrissey &#8211; voc\u00ea pode ver a alegria nos olhos deles&#8221;. A alegria nos olhos do p\u00fablico do Morrissey. \u00c9 isso. Quando do seu show em Curitiba em 2000, eu mesmo fiquei impressionado com a felicidade de todos no final do espet\u00e1culo, conforme mostrei numa resenha publicada na Gazeta do Povo. A revista inglesa Vox escreveu o seguinte a respeito de um show dele em Motherwell, Inglaterra: <em>no other musician &#8220;enjoys&#8221; this level of fervour and obsession. There is nothing else like it anywhere. For one night only, Motherwell is the centre of the pop world<\/em>.<\/p>\n<p>Exageros \u00e0 parte, existem fortes indica\u00e7\u00f5es de que, pelo menos na m\u00fasica atual, n\u00e3o h\u00e1 realmente nada parecido com o culto de Morrissey. Quem costuma ler publica\u00e7\u00f5es sobre m\u00fasica tem grandes chances de saber a situa\u00e7\u00e3o atual do cantor: sem gravadora h\u00e1 cinco anos, sem novo disco lan\u00e7ado desde 1997, Morrissey fez uma tourn\u00e9e em 2002 em diversos locais do globo, quase sempre com lota\u00e7\u00e3o esgotada. S\u00f3 por estes motivos o sucesso de suas apresenta\u00e7\u00f5es recentes j\u00e1 \u00e9 inesperado, mas a isto some-se o fato de que v\u00e1rias de suas atitudes parecem coisa de quem quer dificultar a pr\u00f3pria carreira. Por exemplo, as setlists de seus shows s\u00e3o estranhas, contemplando em sua maior parte can\u00e7\u00f5es mais ou menos obscuras de sua carreira solo. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o faz praticamente nenhuma autopromo\u00e7\u00e3o: d\u00e1 pouqu\u00edssimas entrevistas (nas quais n\u00e3o fala bem de ningu\u00e9m e se queixa de tudo e de todos) e nem faz propaganda de campanhas de ajuda humanit\u00e1ria e\/ou ecol\u00f3gica (fora o vegetarianismo). Ali\u00e1s, muito pelo contr\u00e1rio, nos \u00faltimos anos ele apareceu na grande imprensa de forma quase sempre negativa (seja pela campanha difamat\u00f3ria da NME, que o acusou irresponsavelmente de racismo, ou pelo rumoroso processo que o baterista dos Smiths moveu contra ele).<\/p>\n<p>Apesar de tudo isto, o p\u00fablico comparece em grande n\u00famero a seus shows. Mais do que isto, uma quantidade consider\u00e1vel de seus f\u00e3s costuma assistir a mais de uma apresenta\u00e7\u00e3o em suas tourn\u00e9es, viajando enormes dist\u00e2ncias para assistir seu \u00eddolo. O que o seu p\u00fablico quer, o leitor j\u00e1 deve ter percebido onde quero chegar, \u00e9 sentir alegria. A alegria que podemos ver nos olhos deles.<\/p>\n<p>Mas a imagem do Morrissey n\u00e3o \u00e9 a do cantor dos deprimidos, dos inseguros? No \u00e9 dele a letra de <em>Heaven knows I&#8217;m miserable now<\/em> (O c\u00e9u sabe que estou deprimido agora)? De <em>Maladjusted<\/em> (Desajustado)? De <em>He Cried<\/em> (Ele chorou)? N\u00e3o \u00e9 ele que canta <em>I am a poor freezingly cold soul \/ So far from where \/ I intended to go<\/em> (Eu sou uma pobre alma congelada \/ t\u00e3o distante\u00a0 de onde \/ eu quero chegar)? No \u00e9 ele que canta <em>If you&#8217;re so funny \/ Then why are you on your own tonight? \/ And if you&#8217;re so clever \/ Then why are you on your own tonight? \/ If you&#8217;re so very entertaining \/ Then why are you on your own tonight? \/ If you&#8217;re so very good-looking \/ Why do you sleep alone tonight? \/ I know&#8230; \/ &#8216;Cause tonight is just like any other night \/ That&#8217;s why you&#8217;re on your own tonight \/ With your triumphs and your charms \/ While they&#8217;re in each other&#8217;s arms&#8230;?<\/em> Como um sujeito que canta este tipo de coisa pode trazer alegria a seus f\u00e3s?<\/p>\n<p>Eu creio que este n\u00e3o \u00e9 um aspecto suficientemente comentado quando o assunto \u00e9 Morrissey. As resenhas escritas por a\u00ed quase sempre notamo lado da depress\u00e3o de suas letras, mas quase nunca notam o lado da reden\u00e7\u00e3o. Ou, ainda: os cr\u00edticos frequentemente reparam na tristeza, mas poucas vezes notam a alegria levada a quem o escuta. Na verdade, estou sendo ironicamente injusto: quando, numa resenha ou numa cr\u00edtica, o jornalista d\u00e1 voz a algum f\u00e3 do cantor, a\u00ed sim n\u00f3s podemos ter uma ideia do quanto Morrissey (de uma maneira inesperada para quem conhece suas letras superficialmente) entende, consola e d\u00e1 apoio a quem o escuta. Quase sempre os f\u00e3s citam o quanto Morrissey faz bem para eles, o quanto ele lhes d\u00e1 apoio nas tristezas e nas dificuldades da vida. E raramente o jornalista\u00a0 leva a s\u00e9rio este aspecto dos seus admiradores.<\/p>\n<p>Mas, pelo visto, esta incompreens\u00e3o de grande parte da m\u00eddia \u00e9 um problema menor para os f\u00e3s &#8211; como eu.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2002)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea pode ver a alegria nos olhos deles. 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