{"id":1166,"date":"2015-06-18T05:28:15","date_gmt":"2015-06-18T05:28:15","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1166"},"modified":"2015-06-18T05:32:03","modified_gmt":"2015-06-18T05:32:03","slug":"a-apresentacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1166","title":{"rendered":"A apresenta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o, eu n\u00e3o poderia ir. Por mais que ela chorasse, por mais que esperneasse, eu n\u00e3o poderia ir na apresenta\u00e7\u00e3o de fim-de-ano da minha filha. E ela estava chorando, ela estava esperneando.<\/p>\n<p>Antes que me chamem de insens\u00edvel, deixe-me explicar: minha filha tinha pego um forte resfriado, que a impedira de ir \u00e0s aulas durante duas semanas. O dia em que ela retornou \u00e0s aulas foi exatamente o dia da apresenta\u00e7\u00e3o: os alunos passariam a tarde toda ensaiando e, ent\u00e3o, fariam a apresenta\u00e7\u00e3o. \u00c0s quatro e meia da tarde. Eu tinha que trabalhar naquele hor\u00e1rio pavoroso. Ser\u00e1 que o pessoal do Col\u00e9gio Sion n\u00e3o sabe que os pais trabalham durante a tarde?<!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o dava. Minha filha que chorasse. Se ela n\u00e3o quisesse fazer parte da apresenta\u00e7\u00e3o, ir\u00edamos traz\u00ea-la de volta para casa. A professora dela a convenceu a ficar &#8211; e pronto. Ela iria se apresentar, iria ensaiar&#8230; e eu n\u00e3o veria nada. N\u00e3o tinha mesmo jeito.<\/p>\n<p>Surpreendentemente o meu trabalho do turno da tarde estava mais tranquilo que o normal e eu poderia sair. Eu n\u00e3o gosto muito de sair cedo, mas \u00f3timo. A m\u00e3e da minha filha tamb\u00e9m, inesperadamente, p\u00f4de sair mais cedo que o normal e, \u00e0s quatro e quinze da tarde, est\u00e1vamos no Col\u00e9gio Sion para assistir a apresenta\u00e7\u00e3o de final de ano dos alunos do Jardim II.<\/p>\n<p>Chegando l\u00e1, havia uma pequena confus\u00e3o de professores, pais, audit\u00f3rios e salas. Ap\u00f3s caminharmos meio sem rumo pelos corredores do Col\u00e9gio, finalmente chegamos na sala do Jardim II, onde seria a apresenta\u00e7\u00e3o dos alunos. Era uma sala estreita e comprida, e as cadeiras formavam duas filas voltadas para o quadro negro, permitindo um espa\u00e7o razo\u00e1vel para os alunos se apresentarem. A boa parte dos pais (como eu) foram reservadas cadeiras de crian\u00e7a, estranhamente confort\u00e1veis, dado o seu tamanho diminuto.\u00a0Assim que nos instalamos, fiquei sabendo que nossa filha nos tinha visto enquanto pass\u00e1vamos pelo corredor (eu n\u00e3o tinha percebido isto).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma pequena espera o espet\u00e1culo finalmente come\u00e7ou. N\u00e3o sei se os alunos ensaiaram quando da aus\u00eancia da minha filha. Provavelmente n\u00e3o. Eles, de forma geral, se apresentaram de forma completamente atabalhoada e desorganizada &#8211; por mais que uns dois ou tr\u00eas meninos, que tinham umas falas maiores, at\u00e9 que n\u00e3o tenham se sa\u00eddo mal. Um deles chegou, deitou, outro ent\u00e3o veio, falou algo sobre o esp\u00edrito do Natal e tal. N\u00e3o lembro bem. Depois entraram umas meninas, que ficaram paradas, em pose de bailarina (ser\u00e1 que era isto?). Os meninos que apareceram no come\u00e7o do espet\u00e1culo ent\u00e3o tocaram com uma esp\u00e9cie de varinha de cond\u00e3o as &#8220;bailarinas&#8221;, que come\u00e7aram a rodar, de forma quase que completamente ca\u00f3tica e sem a menor sincronia. De bailarinas elas tinham praticamente s\u00f3 mesmo as roupas. Depois deste in\u00edcio confuso todos os alunos se perfilaram e cantaram, desafinadamente, uma (ou duas?) can\u00e7\u00e3o de Natal. O espet\u00e1culo, finalmente, terminara.<\/p>\n<p>Provavelmente eu nem estaria contando aqui esta hist\u00f3ria se n\u00e3o fosse o olhar de felicidade da minha filha. Santa Teresa de Jesus dizia que o verdadeiro \u00eaxtase espiritual est\u00e1 bastante distante da histeria, e eu nunca tinha visto uma felicidade t\u00e3o separada de qualquer tipo de afoba\u00e7\u00e3o como o da minha filha naquela tarde. N\u00f3s, adultos, estamos acostumados a ver alegrias esfuziantes e quase hist\u00e9ricas, como a de um torcedor que pula e grita quando seu time faz um gol numa final de campeonato contra seu mais aguerrido advers\u00e1rio, ou quando algum ganha uma grande quantidade de dinheiro e berra de felicidade. O olhar da minha filha n\u00e3o tinha nada desta alegria que faz a pessoa ter vontade de pular e de gritar. Era apenas uma alegria que n\u00e3o precisava demonstrar nada, n\u00e3o precisava gritar nada, n\u00e3o precisava falar nada. Ela errava quase todos os passos da dan\u00e7a, sorrindo imensamente e nos olhando com um olhar de imensa felicidade. (Mais tarde ela chegou a nos perguntar: &#8220;voc\u00eas estavam brincando comigo quando falaram que n\u00e3o vinham, s\u00f3 para fazer surpresa pra mim, n\u00e9?&#8221; Concordamos, claro.)<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 minha rea\u00e7\u00e3o (eu fiquei com uma cara ser\u00edssima durante todo o espet\u00e1culo, tentando disfar\u00e7ar as l\u00e1grimas que, por mais que me esfor\u00e7asse, insistiam em escorrer em grande quantidade pelo meu rosto), posso garantir que esta n\u00e3o teve import\u00e2ncia nenhuma.<\/p>\n<p><em>(texto escrito em 2002)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o, eu n\u00e3o poderia ir. Por mais que ela chorasse, por mais que esperneasse, eu n\u00e3o poderia ir na apresenta\u00e7\u00e3o de fim-de-ano da minha filha. E ela estava chorando, ela estava esperneando. Antes que me chamem de insens\u00edvel, deixe-me explicar: minha filha tinha pego um forte resfriado, que a impedira de ir \u00e0s aulas durante duas semanas. O dia em que ela retornou \u00e0s aulas foi exatamente o dia da apresenta\u00e7\u00e3o: os alunos passariam a tarde toda ensaiando e, ent\u00e3o, fariam a apresenta\u00e7\u00e3o. \u00c0s quatro e meia da tarde. Eu tinha que trabalhar naquele hor\u00e1rio pavoroso. 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