{"id":1127,"date":"2015-06-15T01:59:59","date_gmt":"2015-06-15T01:59:59","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1127"},"modified":"2015-06-15T02:00:47","modified_gmt":"2015-06-15T02:00:47","slug":"dalton-trevisan-duas-resenhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1127","title":{"rendered":"Dalton Trevisan &#8211; duas resenhas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong>O an\u00e3o e a ninfeta<\/strong><\/p>\n<blockquote><p><em>&#8211; Me fiz de b\u00eabado entre os b\u00eabados, para ganhar os b\u00eabados.<\/em><\/p>\n<p><em>Me fiz de tudo para todos, para por todos os meios chegar a entender um s\u00f3 &#8211; ai de mim!<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>As duas linhas acima s\u00e3o a \u00edntegra do conto &#8220;O Escritor&#8221;, do novo livro de Dalton Trevisan, <em>O an\u00e3o e a ninfeta<\/em> (Editora Record, 159 p\u00e1ginas). A alus\u00e3o b\u00edblica \u00e9 clara: <em>Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior n\u00famero poss\u00edvel<\/em> (I Cor\u00edntios, 9, 29). Mas enquanto o ap\u00f3stolo Paulo queria converter os homens, Dalton Trevisan quer <em>entend\u00ea-los<\/em>. E a humanidade que o maior escritor paranaense enxerga \u00e9 cheia de v\u00edcios, torpezas e defeitos.<!--more--><\/p>\n<p>No conto que d\u00e1 o t\u00edtulo ao livro, um an\u00e3o gasta todo o seu dinheiro com prostitutas, que n\u00e3o s\u00f3 o satisfazem sexualmente, como frequentemente roubam suas roupas e o que ele tem na carteira. Em mais de uma hist\u00f3ria do livro, um velho senhor compra livros numa livraria apenas para chamar a aten\u00e7\u00e3o da balconista &#8211; que lhe d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o o que ele quer. Em &#8220;O jogo sujo do amor&#8221;, um homem bem sucedido tenta se equilibrar ente o amor da esposa e da amante, que vivem em cidades diferentes. No conto mais impressionante de todos, &#8220;O cani\u00e7o barbudo&#8221;, um esquisito e avarento herdeiro vive s\u00f3, acompanhado apenas pela empregada e por seus jornais &#8211; dos quais n\u00e3o se desfaz de jeito nenhum. &#8220;O velho poeta&#8221; conta, em primeira pessoa, o encontro do narrador (o pr\u00f3prio Dalton?) com um pretensioso e pat\u00e9tico poeta. Em &#8220;O rosto perdido&#8221;, um homem abandonado pela mulher tenta se consolar com a companhia do cachorro. At\u00e9 Inri Cristo e Maria Bueno aparecem. Ele, no pungente &#8220;O reencarnado&#8221;. Ela, num poema que tenta contar a hist\u00f3ria da santa popular de Curitiba.<\/p>\n<p>E, claro, n\u00e3o poderia faltar os personagens habituais de Dalton Trevisan: prostitutas, b\u00eabados, viciados, assassinos, miser\u00e1veis. Estes normalmente aparecem nas hist\u00f3rias curtas de &#8220;O an\u00e3o e a ninfeta&#8221;, como a chocante &#8220;Programa&#8221;, em que o curto di\u00e1logo mostra todo um universo decadente:<\/p>\n<blockquote><p><em>&#8211; Vamos, bem?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Quanto?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Dez.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Onde?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Logo ali.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; T\u00e1.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Chegamos.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Se algu\u00e9m v\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; N\u00e3o tem perigo.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Dez. Tome.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Com dente?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Hein?!<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Veja. Sem dente.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; N\u00e3o. Sim.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Qual \u00e9?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Sim. Fique.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; T\u00e1 bem.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Mas n\u00e3o morda.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o posso afirmar se Dalton Trevisan conseguiu entender a humanidade sobre a qual se debru\u00e7a, mas o carinho que ele sente por seus personagens \u00e9 sentido tamb\u00e9m pelo leitor, \u00e9 sim. Lemos &#8220;O an\u00e3o e a ninfeta&#8221; um tanto chocados, e um tanto enternecidos.<\/p>\n<p><em>(publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/livros-novembro-2011\/dalton-trevisan.html\" target=\"_blank\">Mondo Bacana<\/a> em 2011)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>33 contos escolhidos e Rita Ritinha Ritona<\/strong><\/p>\n<p>Dalton Trevisan Desde sua estr\u00e9ia em\u00a0<em>Novelas Nada Exemplares<\/em>, de 1959, um dos mais importantes escritores do pa\u00eds \u2013 o curitibano Dalton Trevisan \u2013 povoa suas hist\u00f3rias com o lado obscuro de sua cidade natal. A vida das prostitutas, dos bo\u00eamios, das mulheres abandonadas e dos enjeitados \u00e9 o tema principal de seus contos quase sempre curtos, poucas vezes passando de dez p\u00e1ginas. Segundo ele, para ter liberdade de movimento entre as pessoas que servir\u00e3o de mat\u00e9ria-prima para suas hist\u00f3rias, Trevisan leva sua vida completamente afastado da m\u00eddia. N\u00e3o d\u00e1 entrevistas, nunca vai a feiras liter\u00e1rias, n\u00e3o se deixa fotografar.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ada recentemente pela Editora Record, a compila\u00e7\u00e3o\u00a0<em>33 Contos Escolhidos<\/em>(272 p\u00e1ginas) \u00e9 uma excelente introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 obra deste autor important\u00edssimo. Dispostas em ordem cronol\u00f3gica e escolhidas pelo pr\u00f3prio Dalton, as hist\u00f3rias do livro mostram uma Curitiba bastante diferente daquela da propaganda oficial. A capital do Paran\u00e1, na vis\u00e3o do escritor, \u00e9 a cidade das prostitutas do Passeio P\u00fablico, dos maridos ad\u00falteros que voltam para casa b\u00eabados de madrugada, dos casais que se odeiam, dos jovens viciados em\u00a0<em>crack<\/em>.<\/p>\n<p>Sob pena de cometer alguma injusti\u00e7a, fica at\u00e9 dif\u00edcil escolher os melhores contos em uma colet\u00e2nea de t\u00e3o alto n\u00edvel liter\u00e1rio. De todo o modo, entre os pontos altos indiscut\u00edveis pode-se apontar o arrependimento de Nelsinho, o famoso &#8220;Vampiro de Curitiba&#8221;<em>[na verdade, apenas um marido ad\u00faltero e tarado]<\/em>\u00a0em \u201cA Noite da Paix\u00e3o\u201d; a fant\u00e1stica noite de aventuras dos bo\u00eamios em \u201cEsta Noite Nunca Mais\u201d; a ao mesmo tempo pungente e angustiante conversa de amigos de \u201cO Quinto Cavalheiro do Apocalipse\u201d; a triste hist\u00f3ria do aborto de \u201cO Menino de Natal\u201d; e a ir\u00f4nica e \u00e1cida hist\u00f3ria de uma professora feminista que se apaixona por um aluno brucutu em \u201cCapitu Sou Eu\u201d.<\/p>\n<p>Se, por um lado, a concis\u00e3o \u00e9 uma caracter\u00edstica comum de todos os 33 \u201ccontos escolhidos\u201d, por outro, as mudan\u00e7as no estilo do autor \u00e0 medida em que o tempo foi passando s\u00e3o evidentes. Os contos iniciais \u2013 os mais antigos \u2013 s\u00e3o literariamente mais elaborados apresentando, com freq\u00fc\u00eancia, frases po\u00e9ticas de efeito dram\u00e1tico ou ir\u00f4nico\u00a0<em>[alguns exemplos: &#8220;O amor \u00e9 uma corru\u00edra no jardim \u2013 de repente ela canta e muda toda a paisagem&#8221;, em \u201cA Faca no Cora\u00e7\u00e3o\u201d; &#8220;\u00d3 prazeres no leito de t\u00e3o pouca dura&#8221;, em \u201cA Doce Inimiga\u201d; &#8220;Direto ao banheiro, que \u00e1gua lavaria a imund\u00edcie da alma?&#8221;, em \u201cO Maior Tarado da Cidade\u201d]<\/em>. J\u00e1 os mais recentes possuem estrutura mais simples e linguajar mais direto.<\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica interessante da evolu\u00e7\u00e3o de Dalton \u00e9 na tem\u00e1tica. Em seus primeiros contos a Curitiba \u00e9 praticamente uma cidade do interior, com suas polaquinhas e seus bo\u00eamios que deixam suas pobres mulheres sozinhas em casa. J\u00e1 na produ\u00e7\u00e3o mais recente aparecem personagens de uma nova cidade: mo\u00e7as modernas e independentes, dependentes de\u00a0<em>crack<\/em>, evang\u00e9licos&#8230;<\/p>\n<p>E \u00e9 neste estilo, quase jornal\u00edstico e mostrando as mazelas da vida moderna, que se pode enquadrar a grande maioria das hist\u00f3rias de\u00a0<em>Rita Ritinha Ritona<\/em>\u00a0(Editora Record, 125 p\u00e1ginas), o novo lan\u00e7amento de Dalton Trevisan.<\/p>\n<p>Alguns dos contos \u2013 como \u201cO Gringo\u201d e principalmente \u201cMaria, Sua Criada\u201d, que conta a hist\u00f3ria de uma imigrante nordestina batalhadora \u2013 s\u00e3o inesperadamente belos e doces. Muito interessantes tamb\u00e9m s\u00e3o o conto que d\u00e1 t\u00edtulo ao livro, no qual uma mo\u00e7a independente literalmente se anula por causa do noivo conservador; o er\u00f3tico \u201cO Mestre e a Aluna\u201d, que mostra o relacionamento sexual intenso e controverso de um professor com sua pupila; \u201cFilho Ingrato\u201d, onde Dalton Trevisan, com oitenta anos rec\u00e9m-completados, insinua que os velhos nem sempre s\u00e3o mais dignos de respeito que os mais novos; e \u201cAdeus, Vampiro\u201d, com Nelsinho, o &#8220;Vampiro de Curitiba&#8221;, se apresentando totalmente decadente \u2013 aqui o autor revive o estilo liter\u00e1rio do in\u00edcio de sua carreira.<\/p>\n<p><em>Rita Ritinha Ritona<\/em>\u00a0tamb\u00e9m tem dois poemas: os chocantes e melanc\u00f3licos \u201cBalada das Mocinhas do Passeio\u201d e \u201cAmintas 749\u201d. J\u00e1 outros contos, entretanto, s\u00e3o secos e frios: hist\u00f3rias tristes e sem esperan\u00e7a de estupros, viciados ou presidi\u00e1rios, que mais parecem reportagens policiais do que contos de um grande escritor. Tamb\u00e9m deslocado no livro \u00e9 \u201cDuas Normalistas\u201d. Tirando a pornografia, nada sobra nele.<\/p>\n<p>No todo,\u00a0<em>Rita Ritinha Ritona<\/em>\u00a0\u00e9 um lan\u00e7amento menor dentro da vasta obra de Dalton Trevisan. O que, obviamente, n\u00e3o quer dizer que ele seja ruim Muito pelo contr\u00e1rio&#8230;<\/p>\n<p><em>(publicado no <a href=\"http:\/\/www.mondobacana.com\/edicao-41-faichecleres\/dalton-trevisan.html\">Mondo Bacana<\/a> em 2005)\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O an\u00e3o e a ninfeta &#8211; Me fiz de b\u00eabado entre os b\u00eabados, para ganhar os b\u00eabados. Me fiz de tudo para todos, para por todos os meios chegar a entender um s\u00f3 &#8211; ai de mim! As duas linhas acima s\u00e3o a \u00edntegra do conto &#8220;O Escritor&#8221;, do novo livro de Dalton Trevisan, O an\u00e3o e a ninfeta (Editora Record, 159 p\u00e1ginas). A alus\u00e3o b\u00edblica \u00e9 clara: Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior n\u00famero poss\u00edvel (I Cor\u00edntios, 9, 29). Mas enquanto o ap\u00f3stolo Paulo queria converter os homens, Dalton Trevisan quer entend\u00ea-los. E a humanidade que o maior escritor paranaense enxerga \u00e9 cheia de v\u00edcios, torpezas e defeitos.<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":1131,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[189],"class_list":["post-1127","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-literatura","tag-dalton-trevisan","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1127"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1127\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1132,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1127\/revisions\/1132"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1131"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}