{"id":1121,"date":"2015-06-11T22:44:55","date_gmt":"2015-06-12T01:44:55","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1121"},"modified":"2018-06-13T23:43:25","modified_gmt":"2018-06-14T02:43:25","slug":"delirios-virgem-louca-o-esposo-infernal-de-uma-temporada-no-inferno-traducao-de-rimbaud","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1121","title":{"rendered":"Del\u00edrios: Virgem Louca &#8211; O Esposo Infernal, de &#8220;Uma temporada no Inferno&#8221; (tradu\u00e7\u00e3o de Rimbaud)"},"content":{"rendered":"<p>Ou\u00e7amos a confiss\u00e3o de uma companheira de inferno:<\/p>\n<p><!--more-->&#8220;Oh divino Esposo, meu Senhor, n\u00e3o recuse a confiss\u00e3o da mais triste de suas criadas. Estou perdida. Estou b\u00eabada. Estou impura. Que vida!<\/p>\n<p>&#8220;Me perdoe, divino Senhor, me perdoe! Ah! Perd\u00e3o! Quantas l\u00e1grimas! E espero ainda muitas l\u00e1grimas, mais tarde!<\/p>\n<p>&#8220;Mais tarde, eu conhecerei o divino Esposo! Eu nasci submissa a Ele. &#8211; O outro pode me derrotar agora!<\/p>\n<p>&#8220;Agora estou na parte inferior do mundo! \u00d3 minhas amigas! &#8230; N\u00e3o, n\u00e3o minhas amigas&#8230; Nunca del\u00edrios ou torturas semelhantes\u2026 Que idiota!<\/p>\n<p>&#8220;Ah! Eu sofro, eu choro. Eu sofro verdadeiramente. No entanto, tudo me \u00e9 permitido, sob o peso do desprezo dos mais desprez\u00edveis cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8220;Enfim, fa\u00e7amos esta confid\u00eancia, ainda que a repitamos vinte outras vezes, &#8211; t\u00e3o melanc\u00f3lica, t\u00e3o insignificante!<\/p>\n<p>&#8220;Eu sou escrava do esposo infernal, aquele que perdeu as virgens loucas. \u00c9 bem este diabo. N\u00e3o \u00e9 um espectro, n\u00e3o \u00e9 um fantasma. Mas eu, que perdi a sabedoria, que estou condenada e morta para mundo, &#8211; eles n\u00e3o v\u00e3o me matar! &#8211; Como descrever para voc\u00ea! Eu n\u00e3o sei nem falar mais. Estou em luto, choro, tenho medo. Um pouco de frescor, Senhor, se v\u00f3s quereis, se v\u00f3s quereis verdadeiramente!<\/p>\n<p>&#8220;Eu sou vi\u00fava &#8230; &#8211; Eu era vi\u00fava &#8230; &#8211; mas sim, eu era muito s\u00e9ria antigamente, e eu n\u00e3o nasci para virar esqueleto! &#8230; &#8211; Ele era quase uma crian\u00e7a&#8230; Suas iguarias misteriosas me seduziram. Esqueci todo meu dever humano para segui-lo. Que vida! A vida de verdade est\u00e1 ausente. N\u00f3s n\u00e3o estamos no mundo. Eu sei aonde ele vai, \u00e9 necess\u00e1rio. E muitas vezes ele se prevalece disso contra mim, a pobre alma. O dem\u00f4nio! &#8211; \u00e9 um dem\u00f4nio, voc\u00ea sabe, n\u00e3o \u00e9 um homem.<\/p>\n<p>&#8220;Ele diz: \u2018eu n\u00e3o gosto de mulheres. O amor tem que ser reinventado, como se sabe. Elas s\u00f3 podem querer uma posi\u00e7\u00e3o segura. Obtida esta posi\u00e7\u00e3o, cora\u00e7\u00e3o e beleza s\u00e3o colocados de lado: s\u00f3 resta o frio desprezo, o alimento do casamento dos dias de hoje. Ou ent\u00e3o vejo mulheres com sinais de felicidade, das quais, eu, eu poderia fazer boas companheiras, devoradas imediatamente por brutamontes sens\u00edveis como fogueiras&#8230;\u2018<\/p>\n<p>&#8220;Eu o escuto fazendo da inf\u00e2mia uma gl\u00f3ria, da crueldade um charme: &#8216;Eu sou de uma ra\u00e7a distante: meus antepassados \u200b\u200beram escandinavos: eles traspassaram as pr\u00f3prias costelas, bebiam seu pr\u00f3prio sangue. &#8211; Eu me farei cortes por todo o corpo, me tatuarei, quero me tornar hediondo como um mongol: voc\u00ea vai ver, eu vou gritar nas ruas. Eu quero me tornar um louco de raiva. Nunca me mostre joias, eu vou rastejar e me contorcer sobre o tapete. Minha riqueza, gostaria de v\u00ea-la manchada de sangue por toda parte. Eu nunca vou trabalhar\u2026\u2019 Muitas noites, seu dem\u00f4nio se apoderando de mim, n\u00f3s nos rolamos, eu estava lutando com ele! &#8211; \u00c0s noites, frequentemente, b\u00eabado, ele se coloca em ruas ou casas para me assustar mortalmente. \u2013 \u2018Realmente v\u00e3o me cortar o pesco\u00e7o; ser\u00e1 nojento.\u2019 Oh! estes dias em que ele quer caminhar com um ar criminoso!<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes ele fala em um patois suavizado, da morte que traz arrependimento, das afli\u00e7\u00f5es que existem com certeza, dos trabalhos dolorosos, das partidas que dilaceram os cora\u00e7\u00f5es. Nos casebres onde nos embebed\u00e1vamos, ele chorava pensando naqueles \u00e0 nossa volta, gado da mis\u00e9ria. Ele levantava os b\u00eabados nas ruas escuras. Ele tinha a piedade de uma m\u00e3e malvada para com seus filhinhos. &#8211; Ele tinha a gentileza de menininha no catecismo. &#8211; ele fingia saber tudo, com\u00e9rcio, arte, medicina. &#8211; Eu o seguia, \u00e9 preciso!<\/p>\n<p>\u201cEu via toda a decora\u00e7\u00e3o com a qual, em esp\u00edrito, ele se cercava; roupas, len\u00e7\u00f3is, m\u00f3veis: eu lhe emprestava armas, um outro aspecto. Eu via tudo o que lhe tocava, como ele gostaria de t\u00ea-lo criado. Quando ele me parecia estar com o esp\u00edrito inerte, eu o seguia em a\u00e7\u00f5es estranhas e complicadas, distantes, boas ou m\u00e1s: eu estava segura de jamais entrar em seu mundo. Ao lado de seu querido corpo adormecido, quantas horas eu velei, querendo entender por que ele queria tanto se evadir da realidade. Jamais um homem fez semelhante juramento. Eu reconhecia, &#8211; sem temer por ele &#8211; que ele poderia ser um s\u00e9rio perigo para a sociedade. \u00a0&#8211; Quem sabe ele tenha segredos para mudar a vida? N\u00e3o, s\u00f3 o que ele faz \u00e9 procur\u00e1-los, me respondia. Enfim, sua\u00a0 caridade est\u00e1 enfeiti\u00e7ada, e sou prisioneira dela. Nenhuma outra alma ter\u00e1 for\u00e7a suficiente, &#8211; for\u00e7a de desespero! &#8211; para suport\u00e1-la, &#8211; para ser protegida e amada por ele. Al\u00e9m disso, eu n\u00e3o me imaginava com outra alma: v\u00ea-se seu Anjo, jamais o Anjo de outro, &#8211; eu acho. Eu estava em sua alma como em um pal\u00e1cio que foi esvaziado para que n\u00e3o fosse poss\u00edvel ver uma pessoa t\u00e3o pouco nobre quanto voc\u00ea: isso \u00e9 tudo. Ai de mim! Eu dependia dele tamb\u00e9m. Mas o que ele queria com a minha exist\u00eancia mon\u00f3tona e covarde? Ele n\u00e3o me fazia melhor, se ele n\u00e3o me matava! tristemente divergente, eu lhe digo \u00e0s vezes: &#8216;Eu te compreendo&#8217;. Ele dava de ombros.<\/p>\n<p>&#8220;Ent\u00e3o, a minha dor se renova sem parar, e me encontrando perdida em seus olhos, &#8211; como em todos os olhos que teriam querido me fixar, se eu n\u00e3o tivesse sido condenada para sempre ao esquecimento de todos! &#8211; eu tinha mais e mais fome de sua bondade. Com seus beijos e abra\u00e7os fraternos, era bem um c\u00e9u, um c\u00e9u escuro, onde eu entrava, e onde eu queria ser deixada, pobre, surda, muda, cega. Eu j\u00e1 estava me habituando. Eu nos via como duas crian\u00e7as boas, livres para passear no Para\u00edso de tristeza. N\u00f3s est\u00e1vamos de acordo. Bem emocionados, n\u00f3s trabalh\u00e1vamos juntos. Mas, depois de uma car\u00edcia penetrante, ele dizia: &#8216;Como vai lhe parecer engra\u00e7ado, quando eu me for, tudo por que voc\u00ea passou. Quando voc\u00ea n\u00e3o tiver mais meus bra\u00e7os em torno do seu pesco\u00e7o, nem meu cora\u00e7\u00e3o para voc\u00ea descansar, nem esta boca sobre os seus olhos. Porque ser\u00e1 preciso que eu me v\u00e1, muito longe, um dia. Ent\u00e3o eu deverei ajudar outros: \u00e9 o meu dever. Embora quase nunca\u00a0apetitoso &#8230;, querida alma &#8230;&#8217; Imediatamente eu pressenti, ele tendo ido, eu presa de vertigem, precipitada para a sombra a mais terr\u00edvel: a morte. Eu o fazia prometer que n\u00e3o me deixasse. Ele a fez vinte vezes, esta promessa de amante. Isto era t\u00e3o fr\u00edvolo como quando eu lhe dizia: &#8216;Eu entendo voc\u00ea&#8217;.<\/p>\n<p>&#8220;Ah, eu nunca tive ci\u00fames dele. Ele n\u00e3o vai me deixar, eu acho. O que passar a ser? Ele n\u00e3o tem um conhecimento; ele n\u00e3o trabalhar\u00e1 jamais. Ele quer viver son\u00e2mbulo. S\u00f3s, sua bondade e caridade lhe dariam direitos no mundo real? Por instantes, eu esque\u00e7o a situa\u00e7\u00e3o de dar d\u00f3\u00a0onde ca\u00ed: ele vai me tornar forte, n\u00f3s viajaremos, n\u00f3s ca\u00e7aremos nos desertos, n\u00f3s vamos dormir em cal\u00e7adas de cidades desconhecidas, sem cuidados, sem penas. Ou vou me acordar, e as leis e os costumes ter\u00e3o se modificado &#8211; gra\u00e7as a seu poder m\u00e1gico, &#8211; o mundo, mantendo-se o mesmo, vai me deixar para os meus desejos, alegrias, indiferen\u00e7as. Oh! a vida de aventuras que existe nos livros infantis, para me recompensar, eu tenho sofrido tanto, voc\u00ea vai me dar? Ele n\u00e3o pode. Eu n\u00e3o sei o seu ideal. Ele disse ter arrependimentos, esperan\u00e7as: isto n\u00e3o deve ter nada a ver comigo. Ele conversa com Deus? Talvez eu devesse me voltar para Deus. Estou nas profundezas do abismo, e esqueci\u00a0como orar.<\/p>\n<p>&#8220;Se ele explicasse suas tristezas, eu as compreenderia mais que suas zombarias? Ele me ataca, passa horas me fazendo sentir vergonha de tudo o que j\u00e1 p\u00f4de me importar\u00a0no mundo, e fica indignado se eu choro.<\/p>\n<p>&#8220;&#8216;- Voc\u00ea v\u00ea este jovem elegante, entrando em sua bela e calma casa : o nome dele \u00e9 Duval, Dufour, Armand, Maurice, que sei eu? Uma mulher se devotou\u00a0 a amar este idiota perverso: ela morreu, certamente \u00e9 uma santa no c\u00e9u agora. Voc\u00ea vai me fazer morrer como fez morrer aquela mulher. Este \u00e9 o nosso destino, cora\u00e7\u00f5es caridosos &#8230; Ai de mim!&#8217; Havia dias em que todos os homens lhe pareciam brinquedos de del\u00edrios grotescos: ele ria de maneira hedionda, durante muito tempo. &#8211; Ent\u00e3o ele retomou suas maneiras de jovem m\u00e3e, de irm\u00e3 amada. Se ele fosse menos selvagem, n\u00f3s ser\u00edamos salvos! Mas sua do\u00e7ura \u00e9 tamb\u00e9m mortal. Eu lhe estou submissa. &#8211; Ah! Eu sou louca!<\/p>\n<p>&#8220;Um dia talvez ele vai desaparecer maravilhosamente; mas \u00e9 preciso que eu saiba, se ele deve subir ao c\u00e9u, que eu assista um pouco da ascens\u00e3o do meu namorado!\u201d<\/p>\n<p>Estranho casal!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ou\u00e7amos a confiss\u00e3o de uma companheira de inferno:<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":683,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[106],"class_list":["post-1121","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-traducoes","tag-rimbaud","post_format-post-format-image"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1121","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1121"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1121\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1126,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1121\/revisions\/1126"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/683"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1121"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1121"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1121"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}