{"id":1073,"date":"2015-06-16T08:20:49","date_gmt":"2015-06-16T08:20:49","guid":{"rendered":"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1073"},"modified":"2015-06-16T12:51:04","modified_gmt":"2015-06-16T12:51:04","slug":"o-autografo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/?p=1073","title":{"rendered":"O aut\u00f3grafo"},"content":{"rendered":"<p>Do meu lado, no check-in do aeroporto de Cumbica, em S\u00f3 Paulo, uma mala. Foi a primeira coisa que vi. Ela estava cheia de etiquetas, cada uma representando um aeroporto em uma diferente parte do mundo. O dono da mala era um portugu\u00eas gordo, cansado, suado &#8211; meio desanimado de tanto viajar, acredito.<!--more--><\/p>\n<p>A lembran\u00e7a seguinte que tenho do ocorrido \u00e9, estando j\u00e1 um pouco longe do check-in, olhar para o lado e ver, a uma certa dist\u00e2ncia, um grupo razoavelmente grande de pessoas. Pude ouvir um pouco o que eles falavam, e achei que eram portugueses. Fixei o olhar e vi que que tinha uma mulher no meio deles. Olhei para a Val\u00e9ria, do meu lado, e falei:<\/p>\n<p>&#8211; Val\u00e9ria, acho que ali est\u00e1 a Teresa Salgueiro.<\/p>\n<p>Era imposs\u00edvel acreditar. A cantora que havia embalado meu sono durante, pelo menos, uns seis meses\u00a0 &#8211; eu colocava a fita que tinha com os Madredeus (descrita\u00a0<a href=\"http:\/\/fabriciomuller.com.br\/wp\/2015\/06\/13\/\">aqui<\/a>), todas as noites, para dormir. A minha cantora preferida desde a primeira vez que a vi, numa propaganda da TV Cultura. A expressiva e bela Teresa Salgueiro, ali, na minha frente.<\/p>\n<p>N\u00e3o era f\u00e1cil ser f\u00e3 dos Madredeus naquela \u00e9poca. Eu s\u00f3 tinha um \u00fanico disco da banda, Existir, que comprei, at\u00e9 hoje n\u00e3o sei como (nem o pessoal dos Madredeus sabia que tinham lan\u00e7ado um disco deles por aqui), numa loja de discos em Curitiba aonde s\u00f3 fui umas tr\u00eas vezes. E tinha aquela fita de v\u00eddeo, gasta de tanto ser vista. Ainda n\u00e3o tinha acessado a internet (o ano era 1995). N\u00e3o sabia nada sobre a banda &#8211; nem quantos discos, nem quando come\u00e7aram, nada.<\/p>\n<p>E a Teresa Salgueiro, ali, pertinho, pedindo para me dar um aut\u00f3grafo.<\/p>\n<p>&#8211; Vai l\u00e1, Fabricio, pede um aut\u00f3grafo pra ela &#8211; a Val\u00e9ria sugeriu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, estou com vergonha.<\/p>\n<p>Mais alguns passos para frente. Parei. Meia volta.<\/p>\n<p>&#8211; Val\u00e9ria, vou pedir um aut\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Tinha ido num congresso (de radares meteorol\u00f3gicos), e o \u00fanico papel dispon\u00edvel era o da lista de participantes. Seria aquele mesmo. A caneta, eu tinha na bolsa.<\/p>\n<p>A Teresa Salgueiro falava sem parar, num extremo bom humor. Cheguei perto, respirei fundo, e apontei para ela:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 cantora, n\u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Teresa Salgueiro?<\/p>\n<p>&#8211; Sim.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea pode me dar um aut\u00f3grafo?<\/p>\n<p>E entreguei para ela o papel improvisado e a caneta.<\/p>\n<p>&#8211; Para quem?<\/p>\n<p>&#8211; Como?<\/p>\n<p>&#8211; O nome, para quem?<\/p>\n<p>&#8211; Ah, Fabricio Muller.<\/p>\n<p>E assim ela escreveu o meu aut\u00f3grafo para Fabr\u00edcio Miller. Em seguida come\u00e7ou a se formar um grupo em torno de mim, e o empres\u00e1rio da banda me perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 portugu\u00eas?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, brasileiro.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 foi para Portugal?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, conhe\u00e7o a banda de um especial da TV Cultura.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o falei que era a minha cantora preferida. N\u00e3o falei que tinha gravado o especial, veja s\u00f3, por causa de direitos autorais. N\u00e3o falei que mal sabia como estava conseguindo balbuciar algumas palavras naquele momento.<\/p>\n<p>E a alegria do empres\u00e1rio era evidente. Eu via potenciais cifr\u00f5es brasileiros nos olhos dele.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea conhece algum disco da banda?<\/p>\n<p>\u00c9 claro que eu n\u00e3o lembrava o nome do disco. Mal lembrava meu pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 um com uns neg\u00f3cios de circo na capa&#8230;<\/p>\n<p>Come\u00e7aram a citar alguns nomes de discos, at\u00e9 que a Teresa Salgueiro falou:<\/p>\n<p>&#8211; Existir?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 esse &#8211; respondi.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que aumentava o interesse dos portugueses por mim, aumentava tamb\u00e9m meu medo de ser um f\u00e3 chato &#8211; eu lembrava de depoimentos de v\u00e1rios artistas falando do qu\u00e3o inconvenientes alguns f\u00e3s acabavam sendo. Eu preferia qualquer coisa a ser inconveniente para a Teresa Salgueiro. Despedi-me rapidamente, fiz meia-volta e fui-me embora.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s este encontro, os Madredeus lan\u00e7aram um disco &#8211; O Para\u00edso &#8211; onde a Teresa Salgueiro canta:<\/p>\n<blockquote><p>Volta no vento<\/p>\n<p>Por favor<\/p><\/blockquote>\n<p>E tamb\u00e9m canta:<\/p>\n<blockquote><p>Andorinha de asa negra aonde vais?<\/p>\n<p>Que andas a voar t\u00e3o alta<\/p>\n<p>Leva-me ao c\u00e9u contigo, v\u00e1<\/p>\n<p>Qu&#8217;eu l\u00e1 de cima digo adeus ao meu amor<\/p>\n<p>A Andorinha<\/p>\n<p>da Primavera<\/p>\n<p>Ai quem me dera tamb\u00e9m voar<\/p>\n<p>Que bom que era<\/p>\n<p>A Andorinha<\/p>\n<p>na Primavera<\/p>\n<p>tamb\u00e9m voar<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c0s vezes eu penso, meio de brincadeira,\u00a0que estes versos (e mais outros aqui e ali) do disco O Para\u00edso foram feitos para mim. Ainda mais que, segundo a Val\u00e9ria, a Teresa Salgueiro ficou com os olhos arregalados o tempo todo me olhando, enquanto fiquei junto do grupo de portugueses &#8211; e eu mal lembro disso, pois estava muito nervoso.<\/p>\n<p>Brincadeiras \u00e0 parte, quando lembro do aut\u00f3grafo atualmente eu fico impressionado com a minha pr\u00f3pria imaturidade naquela \u00e9poca. A imagem de &#8220;criatura celestial&#8221; que a Teresa Salgueiro tinha para mim desapareceu instantaneamente. Muito baixinha, mal vestida, com um rosto absolutamente comum, a grande cantora portuguesa &#8211; minha preferida at\u00e9 hoje e, provavelmente, at\u00e9 sempre &#8211; \u00e9 um ser humano como eu ou voc\u00ea.<\/p>\n<p>Uma descoberta tardia para um senhor de vinte e oito anos (a minha idade em 1995), pois n\u00e3o?<\/p>\n<p><em>(texto escrito\u00a0em 2003)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do meu lado, no check-in do aeroporto de Cumbica, em S\u00f3 Paulo, uma mala. 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