“Confissões”, de Santo Agostinho
Religião

“Confissões”, de Santo Agostinho

1 de julho de 2018 0

Comecei a ler e parei no meio “Confissões”, de Santo Agostinho, não só uma, mas duas vezes. Não sei se é bem só por isso, mas eu me irritava a cada vez que o santo, na tradução, chamava Deus de “vós”. Ao contrário dos católicos, tanto protestantes quanto judeus não se referem a Deus utilizando a segunda pessoa do plural: eu, particularmente, acho que o “vós” deixa a coisa toda muito artificial, e muito provavelmente esta não era a intenção do santo quando se referia a Deus em seu “Confissões”. (Lembro, a propósito, de uma tradução do clássico “O sobrinho de Rameau”, de Denis Diderot, em que o “vous”, francês, era traduzido por “vós”. Tendo lido o original em francês, sei que esta diferença na tradução muda de maneira importante o significado da obra: tudo o que era falado de maneira direta, divertida e objetiva no original tornou-se pomposo e artificial na tradução.) Enfim, ao saber que seria publicada uma nova tradução de “Confissões”, pela Penguin-Companhia das Letras (416 páginas), e que nela Deus seria chamado de “tu”, resolvi tentar de novo o livro  – e consegui acabar a leitura desta vez.

É difícil mensurar a importância de Santo Agostinho na cultura ocidental. Conforme um artigo de Contardo Calligaris na Folha de São Paulo, ele basicamente “criou a culpa cristã frente ao sexo”. Considerado santo pelos católicos, sua filosofia foi fundamental para a criação da “doutrina da graça”, seguida pelos protestantes.

Especificamente quanto a “Confissões”, segundo o prefácio da edição da Penguin-Companhia das Letras, escrito por Lorenzo Mammí (também tradutor da edição), o livro é inclassificável. Para ele,

“Tanto do ponto de vista literário quanto do filosófico, a obra não corresponde a nenhum padrão conhecido. Tampouco, em que pese sua enorme influência, criou descendentes diretos. Seu duplo estatuto de obra-prima literária e texto fundamental do pensamento filosófico mais atrapalha que ajuda sua definição. A ausência de modelos e o excesso de chaves de leitura deixam o leitor e o tradutor perplexos.”

Até mais ou menos a metade do livro, “Confissões” é um livro de memórias, considerada inclusive a primeira autobiografia da civilização ocidental; já a segunda metade do livro se concentra em filosofia e religião.

No livro Santo Agostinho detalha sua conversão do maniqueísmo (filosofia religiosa segundo a qual existem duas forças equivalentes no Universo, uma boa e outra má) para o catolicismo, sua dificuldade em vencer o desejo sexual (ele pedia o seguinte a Deus: “concede-me castidade e continência, mas não agora”), a importância da mãe – católica – na sua vida, sua relação com amigos como Alípio, que viria a ser bispo de Tagaste (cidade atualmente situada na Argélia).

Em termos mais especificamente espirituais, duas passagens me chamaram especialmente a atenção: a primeira, quando o santo critica aqueles que se indignam pelo fato de Deus permitir aos justos da época dos patriarcas Moisés, Abraão, Isaac, Jacó e Davi algo que não era mais permitido aos justos do seu tempo: aqui o santo indica que Deus permite que usos e costumes morais se modifiquem com o passar dos anos; a segunda, quando Santo Agostinho cita que Deus transmite no seu “ouvido interior” aspectos importantes de filosofia e teologia.

Que bela relação com Deus, hein?

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