Três livros de Rubem Fonseca
Literatura

Três livros de Rubem Fonseca

9 de maio de 2018 0

Quando comecei a ler “O Desempenho”, o primeiro conto do livro “Lúcia McCartney”, de Rubem Fonseca (Círculo do Livro, 256 páginas), publicado originalmente em 1967, logo percebi que não estava diante de um livro comum: a história, contada em primeira pessoa, sobre uma luta de boxe, é espetacular. O conto seguinte, que dá título o livro, sobre uma prostituta e seu cliente extremamente culto, é o melhor do livro e um dos melhores que já li. Mas “Lúcia McCartney” ainda tem mais: “O Caso de F.A.”, sobre um cliente que se apaixona por uma prostituta, é pungente e patético ao mesmo tempo; “Meu Interlocutor” é uma arrepiante história de amor e violência; a relação de clientes cultos com prostitutas, que já era um dos temas do conto que dá título ao livro, também é apresentada em outra grande história, “O Encontro e o Confronto”; o patético “A Matéria do Sonho” é outro daqueles contos, como “Lúcia McCartney”, que eu levaria para uma ilha deserta. Enfim, o livro é tão bom que a gente não se irrita com uma outra história meio boba, como “Correndo Atrás de Godfrey”, “Véspera” ou “Zoom”.

“Os Prisioneiros” (Círculo do Livro, edição conjunta com o livro comentado acima) é o livro de estreia de Rubem Fonseca, publicado originalmente em 1963. Se não pode ser comparado a “Lúcia McCartney”, tem contos muito bons, como “Duzentos e Vinte e Cinco Gramas”, em que um homem tem de assistir à autópsia da amante assassinada; “Curriculum Vitae”, sobre um sujeito que não quer saber de trabalhar; ou “Gazela”, sobre um arrependimento amoroso. O melhor conto do livro é “O Inimigo”, perturbadora história de um sujeito que vai procurar seus amigos do tempo da escola.

O terceiro livro de Rubem Fonseca comentado aqui é o romance “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” (Círculo do Livro), publicado originalmente 1988. Como em alguns contos citados acima, nesta obra há uma mistura de sexo, violência e alta cultura. O principal personagem do romance, narrado em primeira pessoa, é um cineasta que quer fazer um filme baseado no romance “A Cavalaria Vermelha”, do escritor russo Isaac Bábel. Ele está sozinho em casa numa madrugada e recebe a visita inesperada de Angélica, uma carnavalesca gorda que lhe pede que guarde um pacote – com lembrancinhas de importância apenas sentimental, segundo ela – porque está sendo perseguida. O fato é que este pacote dá um nó na vida do nosso cineasta, que passa a ser perseguido, enquanto arranja mulheres aqui e ali e tenta saber mais sobre Bábel com Gurian, um especialista russo sobre o escritor que mora no Rio de Janeiro. Sim, acontece muita coisa no livro, que nunca perde o pique e que é contado por personagem de caráter, no mínimo, duvidoso. Imperdível.

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