“The Witches – Salem, 1692”, de Stacy Schiff
História

“The Witches – Salem, 1692”, de Stacy Schiff

4 de abril de 2018 0

Betty Parris, de nove anos, e Abigail Williams, de onze, respectivamente a filha e a sobrinha do Pastor Samuel Parris, começaram a se contorcer “em posições estranhas”, a jogar coisas pelo quarto, a gritar e emitir sons desconexos. O ano era 1692 e a cidade, Salem, no Massachusetts. Num tempo em que não havia quem duvidasse da existência de Satã, a cidade começou a entrar em pânico com o sofrimento das meninas – pior do que isso, outras duas garotas, de doze anos, passaram a ter os mesmos sintomas: Ann Putnam, Jr., de doze anos, e Elizabeth Hubbard, de dezoito.

As meninas denunciaram que estavam sendo vítimas de bruxaria, comprimidas e perfuradas por pregos e alfinetes de modo sobrenatural: a primeira denunciada foi a escrava de origem indígena Tituba, de idade incerta. Esta, depois de uma negação inicial, não só descreveu a bruxaria perpetrada com detalhes, como denunciou ainda Sarah Good, de 39 anos, Sarah Osborne, de 49, como coparticipantes dos feitiços.

As meninas continuaram a denunciar outros supostos bruxos e a justiça da época lhes deu ouvidos: no final de um ano, vinte pessoas tinham sido executadas (dezenove por enforcamento, uma por pressão de uma coluna de pedras) e cinco outras – entre as quais duas crianças – morreram na prisão. Em 1693 o governador de Massachusetts, William Phips, que não tinha dado muita atenção para o caso até então, cancelou todas as punições das supostas bruxarias, acabando com os enforcamentos.

O famoso julgamento das Bruxas de Salem é o tema do livro “The Witches – Salem, 1692”, da escritora americana de não-ficção Stacy Schiff (Little, Brown & Company, 498 páginas). Dada a profusão de detalhes, acontecimentos e personagens apresentados na obra, não é um livro de leitura fácil, mas sua leitura é recompensadora.

O que fica para o leitor, por incrível que pareça, não é exatamente o choque com uma cultura e uma mentalidade tão diferentes da nossa – afinal, quem imagina, nos dias de hoje, alguém ser enforcado por ter sido acusado por crianças de bruxaria, e sem nenhuma prova que não fosse sobrenatural, ainda por cima? O que espanta, mesmo, é esta matança ter ocorrido: condenações à morte por bruxaria eram muito raras nos Estados Unidos (ainda colônia americana), e simplesmente pararam completamente depois do caso de Salem, tal o trauma que este causou já a partir de 1693. Não é à toa que uma das teorias – que achei na Wikipédia e não no livro de Stacy Schiff – defende que, na época, houve uma intoxicação por esporão-de-centeio, um fungo que se extrai alcaloides na produção de produtos medicinais, incluindo o LSD.

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