“Se não entenderes eu conto de novo, pá”, de Ricardo Araújo Pereira
Literatura

“Se não entenderes eu conto de novo, pá”, de Ricardo Araújo Pereira

11 de março de 2018 0

“Veja o leitor o que pode acontecer a um cidadão incauto. A revista ‘Playboy’ manifestou o desejo de me entrevistar. Como todas as pessoas que não têm nada para dizer, gosto muito de ser entrevistado. Por isso, aceitei. E devo ter dado uma entrevista de tal forma sensual que a Playboy resolveu colocar a fotografia do meu rosto apolíneo na capa. Sim: na capa. No sítio em que costuma estar uma senhora nua, estou eu sozinho. Como sempre costuma acontecer, assim que eu entro as senhoras nuas desaparecem. Sou, portanto, a capa da revista ‘Playboy’ deste mês. Quando fui me deitar, era um pacato pai de família; quando acordei, era a Miss Dezembro. Uma coisa é eu ser um humorista; outra é a minha vida ser ridícula. Deus sabe quanto tenho tentado separar as águas, mas tem sido quase sempre em vão.”

O trecho acima, retirado da orelha do livro “Se não entenderes eu conto de novo, pá”, de Ricardo Araújo Pereira (Tinta da China, 168 páginas), é um excelente exemplo do talento do humorista português, participante do grupo “Gato Fedorento”: frequentemente autodepreciativo, extremamente engraçado, e de imenso sucesso na sua terra natal – não é todo o dia que um homem aparece na capa da “Playboy”, né? A capa em questão, já deu para perceber, é a imagem que acompanha este texto.

O livro, de crônicas, foi publicado aqui em 2012, mas só recentemente soube de sua existência, andando à toa numa livraria: sou fã de suas crônicas na Folha de São Paulo, onde ele escreve desde abril do ano passado, e não tive dúvidas em comprá-lo. Ideia feliz: “Se não entenderes eu conto de novo, pá – que fala de diversos temas, como a política portuguesa, o sexo, pessoas famosas, sua própria vida -é engraçadíssimo.

São tantos os pontos altos que fiquei em dúvida de como dar uma ideia do talento de Ricardo Araújo Pereira: resumir os melhores momentos – ainda mais comigo resumindo – não seria muito engraçado; pegar trechos aqui e ali seria bem melhor, mas as crônicas do português têm ótimos encadeamentos de ideias, de modo que sempre faltaria alguma coisa. O melhor, acabei concluindo, seria reproduzir uma crônica inteira (tomara que eu não tenha problemas com a editora). Segue, então, a continuação de “Eu, o centerfold”, cujo início reproduzi acima:

“Não sei quantos leitores perdeu a ‘Playboy’ com esta capa, mas posso garantir que perdeu um: eu não compro aquilo, com certeza. Por um lado, é óbvio que as fotografias foram submetidas ao tratamento do photoshop e outras ferramentas de correção de imagem: o meu nariz tem bastante mais celulite do que parece ali. Por outro, impressiona-me que este seja, até agora, o maior sinal de que o momento que vivemos é mesmo grave. A ‘Playboy’, especialista na divulgação de mulheres nuas, publica, este mês, um homem (se isto é um homem) vestido. É bem verdade que a crise não é apenas financeira – é também uma crise de valores. Esta interrupção súbita e sem aviso da exploração do corpo feminino é, evidentemente, imoral. Eu sempre gostei de explorações. E gosto mais ainda do corpo feminino, um gosto exacerbado pelo pouco contacto que tenho com ele. Ver-me agora envolvido na suspensão das atividades exploratórias é uma mancha de que a minha biografia não precisava.

“A ‘Playboy’ justifica o despautério com o facto de me ter elegido homem do ano, uma ofensa que 2009, por muito mau que tenha sido, não merecia. Significa isto que, no espaço de um mês, fui distinguido pelo ILGA [equivalente em Portugal ao Movimento GLBT] e pela ‘Playboy’. O mundo homossexual e o mundo heterossexual deram as mãos e convergiram na necessidade urgente de me agraciar. Que se passa com o mundo? Homossexuais e heterossexuais, desde sempre, discordâncias, conflitos, tensões. Quando finalmente concordam, dá isto. É bom que os apreciadores da paz e da concórdia façam uma reflexão profunda sobre as ideias que defendem. O que em teoria é bonito, na prática pode ser grotesco.

“Resta a curiosidade de saber como vai este número da ‘Playboy’ trilhar o seu caminho. Que mecânicos irão buscar o martelo e os pregos para pendurarem a minha entrevista na parede das suas oficinas? Que adolescentes se entusiasmarão, no recato dos seus quartos, com as minhas opiniões sobre o sentido da vida? E a mim, sobra-me o consolo amargo de, finalmente, poder dizer que já tive intimidades com uma capa da ‘Playboy’.”

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