“Vozes de Tchernóbil”, de Svetlana Aleksiévitch
Literatura

“Vozes de Tchernóbil”, de Svetlana Aleksiévitch

3 de dezembro de 2017 0

O desastre de Tchernóbil foi o maior acidente nuclear da história, e ocorreu em 26 de abril de 1986, na antiga União Soviética, praticamente na fronteira entre as atuais Ucrânia e Bielorrússia. Quem vê a foto que acompanha este texto, retirada da Wikipédia e que mostra o estado do reator 4 da Usina Nuclear de Tchernóbil logo após o acidente, não consegue ter ideia das consequências trágicas do desastre. Como dizem muitos dos depoimentos mostrados no espetacular “Vozes de Tchernóbil”, de Svetlana Aleksiévitch (Companhia das Letras, 383 páginas), Prêmio Nobel de 2015, os soviéticos não estavam preparados para aquilo. O sol nascia da mesma maneira que antes, os campos pareciam limpos, os rios continuavam com as mesmas cores de sempre, não havia uma guerra. Por que então, perguntavam-se os moradores na região em torno da usina, todos tinham que ir embora de onde sempre tinham vivido?

As obras de Svetlana Aleksiévitch – já comentei sobre “O fim do homem soviético” aqui – se compõem de depoimentos de entrevistados pela autora. Centenas deles. É como se a escritora ucraniana “ficasse quieta” para deixar que os participantes dos acontecimentos desabafassem – o resultado é impressionante. Em “Vozes de Tchernóbil” o leitor fica sabendo que o governo soviético mandou centenas de pessoas praticamente para a morte certa no aterramento dos restos do reator 4 – e, o que é mais doloroso, se tantos não tivessem se sacrificado as consequências para a Europa como um todo seriam ainda muito piores; que muitos governantes, durante um bom tempo, preferiram fingir que estava tudo bem do que tomar providências rápidas – e isto causou muitas mortes desnecessárias; que boa parte das crianças da região ficaram tão vulneráveis devido às consequências da radiação que não tinham energia para nada: fracas, nem brincar conseguiam. Svetlana Aleksiévitch não poupa detalhes de sofrimento, agonia, desespero e dor dos seus entrevistados. Creio que é o mais próximo que um leitor consegue chegar para tentar entender o que foi aquela tragédia – cujas consequências a Ucrânia, a Bielorrússia e a Rússia sofrem até hoje.

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