Minhas músicas preferidas: 10. “Motherless Child Blues”, de Elvie Thomas
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Minhas músicas preferidas: 10. “Motherless Child Blues”, de Elvie Thomas

23 de janeiro de 2017 0

A primeira vez que ouvi falar em Elvie Thomas foi numa coluna do antigo blog de André Barcinski no R7 (agora seu blog está no UOL). O artigo trata Elvie Thomas como “a maior lenda do blues” e apresenta um link para um lindo vídeo da música, a cargo do New York Times. Eu achei estranho, porque nunca tinha ouvido falar nela.

O artigo conta a verdadeira odisseia pela qual o escritor John Jeremiah Sullivan passou para descobrir sobre o paradeiro e a identidade de Elvie Thomas, que lançou algumas faixas entre 1930 e 1931. A partir da informação de um colecionador famoso, segundo Barcinski, “Sullivan começa uma investigação em cartórios, velhos documentos e registros públicos, e acaba descobrindo não só a história verdadeira de L.V. Thomas (daí vem o nome Elvie) – nascida no Texas, lésbica e moradora de uma espécie de Cohab em Houston (…).  A trilha chega a parentes de L.V. e termina em uma única foto da cantora, a solitária imagem de uma figura mitológica do blues, finalmente revelada.” Esta única foto acompanha este texto.

Independentemente de ser “a maior lenda do blues” (conforme citado por André Barcinski) e do sofrimento que foi para Sullivan encontrar alguma notícia de Elvie Thomas, eu não estava preparado para o que viria na primeira audição de “Motherless Child Blues”.

A letra é de uma tristeza ímpar. Elvie Thomas começa cantando:

“Minha mãe me disse antes de morrer / Filha, não seja como eu / Que sempre caí de amores por cada homem que passou na minha frente”.

A cantora não seguiu o conselho da mãe, e é por isto que ela “está sem rumo hoje por aqui”. A mãe está morta, “dez palmos embaixo da terra”, e Elvie Thomas é uma “criança à deriva”.

Como se fosse possível, a letra fica ainda mais triste, mesmo meio que mudando de assunto:

“Você se lembra do dia que você me expulsou de sua porta? / ‘Vai-te daqui, mulher, e não voltes mais’ “. Ela termina dizendo que se “afastou, torcendo as mãos e chorando”. Ela não tinha “nenhum blues”, e “não poderia ficar por ali”.

A técnica de repetição que Elvie Thomas utiliza reforça as ideias que ela quer passar: ela começa repetindo quatro vezes “Minha mãe me disse antes de morrer” e depois outras três “Filha, não seja como eu”. Vários outros versos ela repete até quatro vezes, aumentando enormemente a pungência da coisa.

Mas nada disso seria tão impressionante sem a interpretação absolutamente devastadora de Elvie Thomas: não sei se ela passou por tudo o que ela canta em “Motherless Child Blues”, mas parece que sim.

Quanta tristeza, meu Deus. Quanta beleza.

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