“Miolos frescos”, de Jeanne Callegari
Literatura

“Miolos frescos”, de Jeanne Callegari

28 de Fevereiro de 2016 0

É uma informação espantosa para quem me conhece, mas eu gosto de surf. Às vezes deixo a televisão horas ligada no canal Off enquanto estou lendo ou mexendo no computador. Sou assinante da revista Fluir. Isto não teria nada de espantoso se eu gostasse de tomar banho de mar, né? Mas não gosto. Aliás, não gosto nem da areia, nem do sol. Mas acho o surf, e tudo o que o envolve, muito atrativo: é como se eu fosse surfista em uma vida paralela, mais descontraída e ensolarada.

O comentário acima se relaciona com o poema “nostalgia”, do ótimo “Miolos frescos”, livro de poemas de estreia de Jeanne Callegari (Editora Patuá, 2015), que transcrevo a seguir: “de repente uma saudade / de pegar a moto, o filho / cruzar o país de costa a costa / sentir cheiro de mar / e pisar nas folhas secas / na floresta // que até o momento / eu não tenho filho ou moto / não vem ao caso / do sentimento”. O não-vivido, que para Jeanne Callegari se relaciona com uma nostalgia, para mim se relaciona com uma vida paralela. Mas os sentimentos têm alguma relação – acho.

“Miolos frescos” começa com o impressionante “chez j.”, uma casa que “comporta de tudo / de jacarés a corupilvos”. Na cabeça de j. “nenhum temor será ignorado / nenhuma angústia morrerá fria na sarjeta”. O fato é que “desvairar é de graça / e é por isso que está tão lotado / essa noite na casa de j.” No visual poema “verlaine”, Jeanne Callegari incita: “sonhemos: é hora”. Em “para bashô”, ela conclui que o pulgão que destrói a flor, e a própria flor, fazem parte da mesma natureza. Minha alma de engenheiro se angustiou com a lógica sem lógica do poema “lógica” (epa). Em “o gato”, reconhecemos nossos próprios bichanos: os gatos de nossa aldeia.

No belíssimo “águas novas”, Jeanne Callegari se sente “desbravando terras / há muito descobertas”. Em “e agora para algo completamente diferente” ela demite seu coração – por justa causa. Não pude deixar de me lembrar de Georg Trakl em “o corpo elétrico”, já que nele se diz que “nos dias meio cheios” o “canto dos pássaros é azul”; mas Jeanne Callegari tem voz própria: em “o corpo elétrico” (ao contrário do que ocorre com Trakl) há espaço tanto para o humor quanto para a dramaticidade. O poema “escuto”, cujo assunto é um suicídio, é literalmente de arrepiar. O aprendizado que vem (ou não vem?) com o passar do tempo é o tema do belo “onze anos”. O ótimo “mindscapes” descreve diversas doenças mentais; este poema tem estrutura semelhante a “corpo pretérito (memento mori) ”, em que o tema são ossos humanos em capelas e igrejas católicas. Em alguns poemas do livro, aliás, outras partes do corpo humano, o coração e os miolos, servem tanto como metáforas do sentimento e do raciocínio como aquilo que eles são “cientificamente”: partes mesmas do corpo humano.

Dia desses a Jeanne escreveu no facebook: “isso que vocês gostam nos poemas não é poesia, é outra coisa”. Nem sei se foi o que ela quis dizer, mas aproveito a deixa para concluir que quando se compara boa parte dos “poemas” que se lê por aí com este excelente “Miolos frescos”, só dá para repetir a frase do jornalista Juarez Soares: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.

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